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Oromance de Senna Fernandes muito pouco tem que ver com o tópico que tenciono desenvolver. O título, curiosamente, tem bastante.
Em continuação do artigo anterior sobre parafilias e a sua potencial normalidade, gostaria de desenvolver um pouco mais a ideia de fetiches. Fetiches, que se incluem na categoria de comportamento sexual desviante, definem-se por uma especial atracção sexual por objectos inanimados, ou partes do corpo. A sua epidemologia é desconhecida, mas a melhor explicação talvez seja baseada no cãozinho de Pavlov: condicionamento clássico. Ou seja, uma excitação sexual que tenha ocorrido mais do que uma vez em concomitância com outro objecto ou situação, passadas suficientes experiências começa-se a atribuir a reacção fisiológica ao objecto que outrora nada tinha que ver com sexo ou a sexualidade do indivíduo.
Fetiches, existem muitos, de todos os tipos, sobre todas as coisas. As evidências, contudo, mostram que o fetiche de pés é o mais comum. Por isso a minha mente mal-informada achava que Amor e Dedinhos de pés fossem sobre isso mesmo. Estava enganada.
O que é que este fetiche de pés implica: normalmente são mais expressados por homens (pouco registo de mulheres) que veneram e se excitam sexualmente pelo simples vislumbre de um pé, ou dos dois. A interacção sexual pode não passar por mais do que isso mesmo, a de uma mulher com uns pés bonitos e um homem que só está interessado neles. Por isso não há sexo, penetração vaginal, necessariamente. Uma sessão de pés, para os profissionais e mais experienciados, pode ser um fim em si só. Para casais mais arrojados poderá fazer parte de um interessante momento de preliminares. O que envolve esta sessão, como poderão imaginar, é muita veneração de pés, muitos beijos, muitas lambidelas e trincadelas. Poderá incluir uma caminhada sobre o venerador que de muito bom grado servirá de tapete.

Há algo de lírico, talvez, se pensarmos que o fascínio pelos pés também é o fascínio pela combinação de ossos e carne que nos liga à Terra, ou que nos mantém ligado a ela

Quem são estes adoradores de pés, é uma boa pergunta. Visto que se trata do fetiche mais comum, os seus praticantes têm estado por todo lado, há séculos. Há quem desconfie que Goethe, Dostoyevsky, Joyce e até Elvis Presley tenham sido adoradores de pés. Quando e onde é que a moda começou, não se sabe muito bem. Sinólogos dizem que já no tempo da Dinastia Sung, quando o ‘foot binding’ começou a ser uma prática comum, a erotização do pé de lótus (como era chamado) estava bem estabelecida. Os homens que tinham mais queda para estes pés deformados, incluíam nos seus preliminares as práticas que exigiam um protagonismo especial destes membros que nos sustêm. Muitas vezes estes pés eram tingidos de vermelho, para aumentar a sua atractividade. Pés deformados e para além disso, pintados de vermelho. Que bonito. Estes pés eram de tal forma tabu que nos primórdios da pornografia chinesa eram a única zona do corpo que não ficava descoberta, para manter o mistério. Porque já sabemos que sexo faz-se de mistério, mesmo através de práticas atrozes em nome destes ideais de beleza e erotismo femininos que mudam com a mesma frequência que uma pessoa muda de cuecas.
O fetiche de pés de hoje em dia já não passa por isso. Querem-se pés bonitos e bem tratadinhos. Isto é, sem calos, com uma pedicure bem feita, macios. Mas como podem calcular, há gostos para tudo. Talvez seja mais fácil se se deleitarem com uma ilustração do que pés bonitos realmente são. Sugiro, por isso, que consultem o mais contemporâneo, arrojado e assumido praticante de amor aos pés: Quentin Tarantino. Nas suas obras cinematográficas há um gostinho especial em enaltecer os pés das actrizes com que trabalha, erotizando, assim, esta extremidade humana que se julgava ser útil só para nos pormos de pé e usar umas sandálias giras.
Amantes de pés, há muitos, de facto. E se homens gostam de um pezinho de mulher, outros homens preferem pezinhos de homem. Há algo de lírico, talvez, se pensarmos que o fascínio pelos pés também é o fascínio pela combinação de ossos e carne que nos liga à Terra, ou que nos mantém ligado a ela. Qual quê, ultrapassaremos o lugar comum de erotização de umas mamas, um rabo ou umas ancas. Os pés é o que mais sofrem, no dia-a-dia frenético que nos obriga a movimento constante, que sejam mimados como cada qual assim o permitir.

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