O medo da inscrição

Manuel Afonso Costa -
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Filósofo e pensador português nascido em 1939, em Muecate, Província de Nampula, Moçambique. Após completar o ensino secundário na capital moçambicana em 1957 veio estudar para a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde se inscreveu no curso de Ciências Matemáticas. No ano seguinte mudou-se para Paris, em França, onde prosseguiu os estudos em Matemática, no entanto, percebeu que a sua área preferida era a Filosofia e mudou de curso. Em 1968 concluiu a licenciatura em Filosofia na Faculdade de Letras de Paris, na Universidade da Sorbonne. No ano seguinte fez o mestrado de Filosofia, com uma tese sobre a moral de Kant. Em 1982 concluiu o doutoramento com a tese Corpo, Espaço e Poder, editada em livro em 1988.  Entretanto, já desde 1965 era professor de Filosofia num liceu, funções que manteve até 1973, com passagens por Vincennes e pela Córsega. A partir dessa altura foi coordenador do Departamento de Psicanálise e Filosofia da Universidade de Paris VIII. Em 1976 José Gil regressou a Portugal para ser adjunto do Secretário de Estado do Ensino Superior e da Investigação Científica. Cinco anos mais tarde instalou-se definitivamente em Portugal quando passou a ser professor auxiliar convidado na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Leccionou Estética e Filosofia Contemporânea e paralelamente deu aulas no Colégio Internacional de Filosofia, de Paris, numa escola em Amesterdão, na Holanda, e na Universidade São Paulo, no Brasil. A partir de 1996 passou a dirigir a Colecção de Filosofia da editora Relógio D’ Água.  Publicou diversos artigos e ensaios científicos em revistas e enciclopédias de todo o mundo, destacando-se nas suas preferências a reflexão sobre o corpo. Em 2004 publicou Portugal, Hoje. O Medo de Existir, a sua primeira obra escrita directamente em português, que rapidamente se tornou um sucesso de vendas

O medo da inscrição

Em princípio, talvez a priori mesmo, seria tentado a opor uma imediata resistência à ideia do que a expressão “medo de existir” sugere, ou pelo menos pode sugerir. Mas uma vez lido o livro, devo dizer que compreendo a utilização do conceito e da expressão e com ambos me solidarizo.
Afinal a expressão não é, sobretudo, para interpretar de uma forma literal. Não há qualquer coisa como um inequívoco medo de existir enquanto facto, mas antes do mais um medo da inscrição e sobretudo um medo difuso, enquanto sintoma, e por esse motivo um “medo entranhado, incorporado, medo sem objecto (…) e no entanto ubíquo”. Toda a obra de José Gil é aliás sobre sintomas e nesta perspectiva ela inscreve-se numa tradição antiga, que mergulha sobretudo na genealogia barroca. Porém essa inscrição na cultura barroca é incompleta na medida em que o livro de José Gil, não se desenvolve segundo os cânones de uma medicina, ou melhor de uma vocação terapêutica, mas antes apenas numa perspectiva semiológica.
Claro que o momento da análise semiológica é já determinante para a elaboração de uma solução terapêutica, uma vez que esta se começa a esboçar sob a rede articulada dos sintomas e acabará por se expor na superfície do quadro uma vez constituído. Contudo o autor deixa as coisas no plano dos subentendidos inevitáveis e não passa à elaboração de uma grelha de soluções ou simples sugestões, como se o momento da elaboração do quadro clínico até ao momento do diagnóstico fosse um momento completamente separado do outro momento, aquele em que se elabora um receituário. Como se, no fim de contas, esse outro momento não interessasse ao filósofo. Mas como disse, muitas vezes não é necessário explicitar as soluções uma vez que o acto de elaboração do diagnóstico põe tudo em evidência. Por exemplo, no texto de José Gil fica muito claro que a não-inscrição, enquanto mal maior dos portugueses e do país, está particularmente associada à inexistência de um verdadeiro espaço público e que trabalhar no sentido de promover esse espaço, democrático, independente e livre representaria um duro golpe na não-inscrição estrutural dos portugueses.
O conceito axial, portanto, o conceito que atravessa transversalmente o texto e suporta toda a análise do autor relativamente aos elementos idiossincráticos da sociedade portuguesa, é o conceito de não-inscrição. É a não-inscrição que fundamenta, tudo o resto, e que em última instância rói nos seus alicerces a própria vida democrática e até o futuro. E o que é a não-inscrição? É desde logo, nas próprias palavras de José Gil, a produção de não acontecimentos, ou seja “A não-inscrição é quando o acontecimento não acontece; e não acontece porque há uma espécie de buraco negro que suga o espaço público, entre o acontecimento e a vida privada do indivíduo. Por exemplo, no plano artístico e cultural, os portugueses não têm uma escala de valores para aferir o que é e o que não é importante. Eles vão buscar lá fora”.
A não-inscrição exprime o permanente sentido do adiamento dos portugueses, na linha daquele verso do cantor rock “é prá manhã, bem podias fazer hoje”, associado sempre aos atavismos estruturais subordinados à hesitação, ao medo, a uma prudência excessiva e cautelosa, muitas vezes excessivamente cautelosa. Mas a verdade é que a inexistência de uma vida social e cultural dinâmica resulta numa falta de ideia de projecto. Como diz José Gil: “Não há apetência para a acção porque eu não vejo o efeito da minha acção, há uma série de barreiras que faz com que o tempo e a dimensão do futuro estejam quase ausentes do nosso presente”. Esta falta de câmaras de eco em que as acções, sobretudo intelectuais e artísticas, possam produzir um efeito, conduz ao isolamento, ao fechamento em relação aos outros. 24915P12T1
E se no tempo salazarista isso podia ser imputado à falta de liberdade, o mesmo argumento não pode ser usado agora; e a verdade é que havia mais tertúlia, mais polémicas, mais vida académica, mais recepções tanto da arte como da literatura nesse tempo salazarista do que agora, em que praticamente acabaram todos os fóruns de manutenção de uma vida intelectual e cultural com carácter social. Hoje tudo se passa mais ou menos em silêncio e em solidão.
Um exemplo, que é significativo: Praticamente desapareceram as revistas de pensamento e cultura assim como os suplementos literários e culturais que animavam a vida social.
Eu acedi, muitas vezes através dos suplementos culturais, às novidades literárias e acompanhei a actividade produtiva de quase todos os escritores portugueses da segunda metade do século XX. Em particular no domínio da produção poética podíamos aceder a tudo o que se ia produzindo através dos inúmeros suplementos literários de quase todos os jornais diários, matutinos ou vespertinos. Estou a lembrar-me do suplemento literário da Capital à quarta feira, do suplemento literário do Diário de Lisboa à quinta feira, do suplemento literário do Diário Popular à sexta, do DN Juvenil e do Suplemento do mesmo jornal à segunda feira de manhã. O Século e o Primeiro de Janeiro apareciam recheados de gordos suplementos culturais ao Domingo, etc. Hoje em dia até o Expresso e o Público praticamente acabaram com os seus suplementos culturais.
Hoje em dia, mais do que em qualquer outra época da vida portuguesa todo os acontecimentos são, por assim dizer, esvaziados de substância, de conteúdo, restando deles a mera forma vazia e sem consequências. Salvo os pequenos grupos, as pequenas tribos, tudo o que acontece não transporta consigo uma visibilidade social. Existe em privado e não no espaço público, até por que esse espaço público não existe. A vida cultural funciona em guetos.
Para José Gil, a explicação reside na não-inscrição, porque o tempo da não-inscrição é o tempo da repetição e do adiamento permanente, e eu acrescentaria porque esse tempo é um tempo privado, prudente e mesquinho. Sendo que esta prudência, este acanhamento, este modo de viver para dentro e não para a partilha, a discussão e a crítica se subordina ao medo.
José Gil disse numa entrevista que, a situar esta obra no âmbito das ciências sociais se inclinava para a considerar na família dos estudos de mentalidade. Estou apenas parcialmente de acordo, na medida em que a tradição dos estudos de mentalidade têm vindo a desenvolver-se fortemente indexados à História, o que me parece louvável, pois sem o elemento de historicidade constitutiva dos comportamentos, eles terão tendência a esvair-se numa teia de estereótipos mais ou menos redundantes. Por outro lado a historicidade, ou mesmo neste caso a História “tout court” só o é na condição de ser social e não me parece que essa valência se evidencie neste, porém notável, livro do filósofo José Gil. Quero eu dizer que esta obra apresenta uma dimensão histórica escassa e limitada, limitando-se na maior parte das vezes a pôr em destaque o anterior regime. Ora, se alguma coisa caracteriza as reflexões sobre mentalidades é a sua natural propensão para se instalar no domínio da longa duração; não por capricho mas porque só ao nível das estruturas as questões de mentalidade podem ser apreendidas, quer na sua estabilidade tendencial, quer nas flutuações ou mesmo roturas eventuais que são sempre lentas e morosas, por vezes mesmo imperceptíveis. O domínio das mentalidades é como dizia Braudel uma lebre muito esquiva, difícil de apanhar e contudo o tempo das mentalidades é quase da ordem da inércia. Enfim um paradoxo, o que é por natureza lento em história pode ser o mais difícil de surpreender.
De onde virá essa nossa tendência para a não-inscrição é algo que o livro não esclarece. Deixa no ar umas ideias relacionadas com factos recentes, mas a mim parece-me, os fundamentos são antigos e resultam de traços persistentes, uns de carácter, históricos outros. E para mim os históricos são sempre os mais importantes e de qualquer modo os que estão mais ao nosso alcance, mesmo que sejam, repito, justamente difíceis, esquivos e aparentemente escondidos, imbrincados que estão numa trama muito complexa de causas e circunstâncias.
Voltemos ao conceito de não-inscrição e à sua enorme importância.
Deleuze, no seu livro O que é a Filosofia? Afirma que a filosofia é a arte de formar, de inventar, de fabricar conceitos. Também Paul Veyne na notável obra, Como se Escreve a História faz sobressair como determinante para o sucesso das disciplinas sociais, eu diria que para todas as áreas do saber, a ideia de que o progresso do conhecimento é homólogo de um verdadeiro progresso conceptual. São os conceitos que progressivamente vão abrindo as portas de zonas obscuras do conhecimento. Nunca haverá nada como um conhecimento total, uma espécie de auto transparência, por maioria de razão nos domínios em que o objecto do conhecimento é o próprio sujeito desse conhecimento, mas à medida que novos conceitos iluminam e escancaram zonas que antes estavam na sombra ou na penumbra, um certo tipo de progresso desenha-se inequivocamente.
É isso que se passa com o conceito de não-inscrição criado por José Gil, no contexto deste seu livro inovador e de algum modo revolucionário. Dele, se pode dizer que é uma verdadeira inscrição e que citando o próprio autor, na entrevista referida, depois do seu livro e da aplicação do conceito de não-inscrição “já não se pode escrever da mesma maneira”, agora aqui eu acrescento, sobre os portugueses. É esse o sentido maior da inscrição, produzir uma marca, deixar um rasto, um traço (trace em francês).

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