Comboio da noite

Anabela Canas -
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E de novo chegou. Tão certa e tranquila como eu estar aqui. Mas quem sou eu? Isso não se sabe de momento. A esta hora já. No final das linhas talvez. Será sempre algo que não posso garantir. Mesmo no fim da linha final. Ficará como deve para resolução em outras instâncias. Mais tarde. Que fazer?
Mas ela chegou de mansinho como todas as noites, a noite. Com hora marcada. Arrastando tranquilamente o que lhe pertence para se ir instalando. Algum silêncio súbito, o das oito horas. O céu ainda claro deste lado. Esforçadamente claro, enquanto se acendem luzes interiores. Mas o rosto da cidade escurece de repente ensombrado pelo quase fim. Mais tarde reacende-se, acomodado já à escuridão. Instalada como se para sempre. E instalo-me eu também nela, finalmente apaziguada. Abro-lhe as janelas e entra como um gigante bom empurrando as luzes para os cantos onde se fabricam sombras todos os dias diferentes. Esconderijos gerados pela quotidiana mudança de lugar das coisas. Pela dança dos candeeiros que se revezam. Diferentes modelações. Pontos de luz baixa, misteriosa, ou brilhante e excessiva. Conforme os dias. As noites. E o interior ganha diferentes densidades palmo a palmo. E depois volta para fora como um enorme animal, selvagem mas manso, que prefere a frescura do exterior. Brigamos benignamente pela agenda que me rouba das mãos. A incompletude dos dias. Aponta-me um dedo inquisitivo, acusador. Mudamente pergunta se entendi. E deita-se ali fora ocupando tudo, preenchendo a minha alma de um conforto bom. Só de saber a sua presença. A cair no sono. A respiração calma. Acalma-me.
Quando já muito do que tenho para fazer não é possível. Tantas tarefas – que vida – mas tudo o mais que interessa pode finalmente fluir em liberdade. Condicional, é certo. Breve virá uma nova madrugada a pôr cobro a tudo e a obrigar-me a fugir para a cama. Fechar portadas para parecer de noite com o secreto conforto de, não o sendo, serem improváveis os fantasmas que me esperam quase sempre aos pés da cama. A que resisto virar as costas por medo. E o que fiz dela antes que se fosse, é variável. Por vezes fumo-a apenas. Estendo-a em quantos cigarros ali couberem. Colados uns aos outros. Há que tacteá-la cuidadosa mas intensivamente. Intencionalmente. A ver de que forma se apresenta. Tudo é possível da mais feroz borrasca em mês de verão, à mais terna e dócil passagem do tempo por disposições boas, cronometradas e sintonizadas. Pode vir como um veneno rápido que se tem de contrariar com uma solução quimicamente adequada. O cigarro com o gesto certo do queixo. Ou o ângulo do olhar esvaziado de conteúdo. Passivo e pacificado. Ou como um aroma ténue difícil de agarrar de perseguir, mas que é a revelação de outros momentos, na sua maravilha, difícil de agarrar e memorizar. À espera mas fazendo malas executando mil e uma coisas, gestos e sublimações até o derradeiro encontro. De hoje. Todos os dias. Ali está sempre com uma maquilhagem diferente e uma roupa surpreendente. A seduzir mas nem sempre da maneira mais fácil. Umas vezes, melíflua a fazer-se difícil. Outras, vem suave a ocupar pouco lugar, flexível e acalentadora. Mas a verdade é que sempre deixa espaço a um compromisso. Sei contudo que as negociações são truncadas. Ela é manhosa e por vezes, porque amiga, a sua dificuldade é pedagógica. Deixa-me sofrer um pouco até atingir o tal ponto de concórdia. E nesse ponto volta a crescer a sua identidade de animal gigante, benigno e adormecido. No meu íntimo sei como não há tempo a perder nesta negociação. Por vezes o tempo corre desperdiçado nela. 22
Porque mais tarde vem aí a aurora. Ou porque agora cai soturna a noite mas se reparar bem e sem desconfiança, com a mansidão sub-reptícia e transparente, de quem envolve na medida do permitido. Nem mais um grama de peso sobre a pele. Nesta féerie que faz estacar em desespero por não estar tudo preparado para a escuridão. Porque o céu é de uma imensidão azul, ou porque está pejado de nuvens fofas ou anunciando já o negrume nos seus cinzas pesados e que não chovem uma lágrima mesmo assim. Não gosto de ser apanhada por essas esquinas dos dias fora de casa. Às vezes corro contra ela quando se aproxima, como contra o vento. Na ânsia de, precisamente antes de chocar com ela, atingir a porta de casa e ver daí já como ela se instala ao meu redor. Depois. Nunca quero que parta. E cada vidro da casa, quando passo reflete uma amálgama diferente. Exterior e interior. Mas a esta hora, de todas fujo. Abro as janelas para ver para fora e para dentro. Melhor. Neste intervalo dos dias.
O tempo tem que passar e isso é bom e mau e eu não quero ter pressa. O tempo passa, o tempo pára e o tempo separa. Mas nunca fico à espera dela. Sei que é ela que me espera no combóio da noite. Aquele de regressar. Regressar a setembro com uma luz subitamente a baixar de tom. Essa luz que não me dei conta de ter ido amortecendo. Que muda tanto nas estações e na vida. Setembro, agora mais do que dois terços para trás. Do ano, também. Mas eu preciso de tomar todos os dias este comboio da noite. Para amanhã. Gosto de comboios e mais ainda deste, cujo movimento embalador é discreto, imperceptível quase. O caminho sempre variável na lonjura e duração. Shhh…só para quem entende esta solidão viciosa e plena. De gente estranha insone e renitente.
E está uma bela noite. Quase incolor, quente e leve de novo, há uns dias. Mas agora já fresca, e hoje acinzentada até. Clareando por efeito de um tapete denso de nuvens lisas que afinal derramaram uns chuviscos esparços. E umas súbitas rajadas de vento vindo não sei de onde que não perguntei. Ela dorme imperturbável. Mas não lhe importa a cor que se pode até inventar em azul nas noites mais negras. Mais tarde virá a quietude maior. E se o está é porque nela posso finalmente reparar, e se a sinto bela como se me apresenta, é da enorme elementaridade destes pequenos ingredientes. Dispondo os falíveis órgãos dos sentidos a absorver a calma que desce sobre o bairro, uma certa expressão do rosto em que tento diluir todas as crispações do dia, e uma dada disposição do corpo, ao conforto real deste abrandamento que antecede a paragem. Acontece ela ser bela como o é para mim. Dessas sensações como rotundas esponjas se filtra uma serenidade que se faz de esquecimento. Paragem. Anulação de tudo o que vivencial ultrapasse o limite apertado do momento.
Se pensar que estar triste é o simples estar sem euforia, e que, destituído da memória, o estar simplesmente, não é em muito diferente. Como é estar? E estar quando tudo se converte em desordem e é uma desordem a que se é estranho…e onde se tem que reencontrar uma linha própria para acompanhar sem mergulhar nela…e sem que ela desarrume por contágio a arrumação que houver por aqui…Ténue arrumação, que com a passagem do tempo parece tornar-se mais e mais incomportável. Os dias a imprimir desconsolo a um olhar que tenho dorido e acharia eu, sem culpa e sem magia. Querer fazer tanto e tudo cada vez mais por fazer. Mundo de desarrumos este. E tudo o que faço agora é no meio dessa desordem. Triste conquista. Aprender a desfocar. A esquecer todos os dias. O que vem e o que foi. E sair de novo amanhã um pouco limada das excrescências de hoje. Mas nem sempre com o mapa nítido à observação. Por vezes vejo e digo para mim que a minha alma perde forma. Estende-se e alarga-se em forma de picos que ferem para o lado de dentro. O possível alerta que o crânio não comporta e se expande numa respiração sem ritmo. A vida começou a cansar. Todos os dias. Talvez seja assim e por aí, que as pessoas, com a idade, começam a despedir-se suavemente.
Preciso de esvaziar alguns fragmentos de dias, flutuar um pouco por entre deveres não apetecidos nem queridos, quase sem pensar. Algo mais como um olhar inquieto sobre todas as coisas, um pouco como atravessar uma rua sem estar distraído, olhando para todos os lados mesmo sabendo de onde vem o trânsito…deixar-se arrastar pelo vento sem cair…fechar os olhos por um instante apenas… ter o suporte da memória arrumada sem mudar nada de sítio…não querer saber onde se quer ir, não querendo saber onde se vai parar…E planar um pouco nesta suspensão aparente entre dias. Mas, o tempo é voláctil. Como o álcool. Como o gaz de um isqueiro, que, utilizado ou não se evola lenta e inexoravelmente. Embora a velocidades diferentes num caso ou no outro.
E de novo vi o dia encher as minhas janelas de uma luz ao início lilás. Mas não tornou de todo mais nítida a minha visão das coisas. Um dia, vi uma gaivota descrever um grande círculo aqui por cima e parecia cor-de-rosa. Mas eu sabia que não era cor–de-rosa e isso eu entendo. Não houve intencionalidade em apresentar-se-me assim. A magia, disse Novalis, é a arte de utilizar, à nossa vontade, o mundo dos sentidos. Poderia estabelecer então, para meu conforto que a gaivota era de facto daquela cor em que a vi, já que não voltou para nela comprovar a ilusão pontual do meu olhar…Que a pizza no prato da mesa ao lado era prateada e que aquela árvore estava, de facto, sobre o carro parado na rua. Fixar um olhar único sobre as coisas por momentos.
Então algo pode ter acontecido sobre a minha mesa, a tinta. Posso deitar-me feliz e com a madrugada. A fugir dela, de facto. Ou não. E do mesmo modo ter atravessado tranquila um espaço enorme de vida fugindo a recordações e sonhos – os de antigamente – ou então ainda mergulhando nelas como num privilégio. E num ou outro como um sonho que é.
O amanhecer que, eu odeio me apanhe na cama acordada e sem sonhos, e mais ainda fora dela. Ali preciso de interpor o sono possível. É o reinício que eu temo. Sente-se na qualidade do silêncio. Que se torna subitamente total. Um hiato nítido. E no espaço de um minuto ínfimo, dispara o dia novo.

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