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Seria difícil de imaginar, há duas décadas, as vantagens que a internet nos traz hoje em dia como acompanhamento de leitura. Relembro este avanço, comovido, a propósito da leitura de um livro de W.G.Sebald, Austerlitz.

No seu início descreve-se um quadro de Lucas van Valckenborch, um pintor flamengo do século XVI, em que umas figurinhas patinam no gelo em Antuérpia. Em segundos a internet oferece-me o quadro, em tamanho decente e pormenor suficiente. Vejo, entre muitos patinadores, a senhora de amarelo caída no gelo e o senhor de calções vermelhos que a ajuda a levantar-se, burgueses contentes e um grupo entretido em volta de uma fogueira.

Logo de seguida consigo ver fotografias da grandiosa Estação Central de Antuérpia onde se passa o início da história de Sebald e onde nunca estive.

Alguns dirão que os seus livros contêm fotografias porque existe neles uma necessidade imensa de mostrar e eu não poderia estar mais de acordo, mesmo que esteja enganado. Estas fotografias, abundantes, acabam por marcar ainda mais intensamente a profunda solidão que envolve as figuras que Sebald examina nos seus livros de uma maneira que só a fotografia consegue fazer.

Os seus livros são como fotografias porque estas, ao mostrar, com rigor, acabam por nos transmitir a impossibilidade de ver verdadeiramente. Sabemos, ao ver as fotografias que os seus livros exibem e ao ler as suas ideias sobre os mecanismos da memória, que a garantia de permanência e realismo que a fotografia parece oferecer não passa também de uma ilusão.

Por outro lado, as explicações de Sebald são de uma clareza ofuscante, os objectos, edifícios, paisagens e impressões oferecidos com extrema delicadeza, mas também com extrema precisão. Isso acontece, por exemplo, na descrição do cemitério de Piana, na Córsega, no texto Campo Santo que dá o título a um dos seus livros.

Esta mecânica poderia levar-nos a pensar que a escrita é mais eficaz na representação do passado que a imagem fotográfica, ou indicar para a relativa ineficácia de ambas.

Uma das malandrices que Sebald nos oferece é uma que de início passa quase despercebida, e se tal acontece é porque existe uma mestria difícil de igualar: a quase total inexistência, em alguns textos, de parágrafos. O texto Campo Santo, por exemplo, não tem nenhum e em Austerlitz há longas passagens construídas da mesma maneira.

Austerlitz, a figura protagonista do livro com o mesmo nome, é-nos mostrada pelo autor muito detalhadamente, com uma bondade que não consegue disfarçar a admiração que aquele lhe causa. No entanto, quanto mais nos é mostrado mais nos convencemos da inutilidade da demonstração.

Milan Kundera (em The Art of the Novel) fala da ilusão do presente: “There would seem to be nothing more obvious, more tangible and palpable than the present moment. And yet it eludes us completely. All the sadness of life lies in that fact. In the course of a single second, our senses of sight, of hearing, of smell, register (knowingly or not) a swarm of events and a parade of sensations and ideas passes through our head. Each instant represents a little universe, irrevocably forgotten in the next instant.” *

Em The Emigrants Sebald conta-nos a história de quatro homens cujos destinos sofreram vários tipos de desajustes devido aos acontecimentos da Segunda Grande Guerra e à perseguição que vitimou os judeus durante os anos 30 e 40.

Termina com a descrição crua de umas fotografias tiradas no gueto de Litzmannstadt, estabelecido em Lodz em 1940. A última é a fotografia de três mulheres de cerca de vinte anos, entretidas no trabalho de fazer carpetes. “interrogo-me sobre como se chamariam estas mulheres – Roza, Luisa e Lea, ou Nona, Decuma and Morta”. E depois o silêncio.

Foi também Sebald que me fez voltar a Bruce Chatwin, outro autor que se mostra obsessivo em mostrar. Regressei ao autor inglês através de uma referência directa não a si próprio mas ao seu biógrafo, Nicholas Shakespeare. Lembre-se que Chatwin tem cinco livros de ficção, todos passados em lugares muito diversos: Patagónia, País de Gales, Austrália, Benin e Checoslováquia. Shakespeare percorreu todos esses lugares em busca do seu Chatwin, e é esta viagem que Sebald elogia.**

No livro What Am I Doing Here, que reúne vários tipos de pequenos textos este espalha-se pela União Soviética, o Benim, os Camarões, Hong Kong, Paris, o Peru ou o Afeganistão.

A sua obsessão pelo nomadismo, que o leva a teorizações não aceites por todos, tem uma semelhança grande em alguns dos textos de Sebald, onde as histórias que neles se revelam implicam quase sempre uma deslocação – muitas vezes forçada.

Em What Am I Doing Here, conta-nos que encontrou em Werner Herzog uma pessoa que partilha com ele a ideia do valor sacramental de caminhar e o seu valor como actividade poética que pode curar os males do mundo e continua contando um episódio ilustrativo desta crença: quando, em 1974, Herzog soube que Lotte Eisner estava a morrer, dispôs-se a percorrer a pé, através de um inverno rigoroso, a distância entre Munique e Paris “confiante de que poderia, de certa forma, curá-la através da sua caminhada”. Quando chegou ao apartamento de Eisner esta recuperara e viveu durante mais dez anos.

O entusiasmo que os livros de Chatwin suscitam é um entusiasmo juvenil e o rosto do próprio Chatwin nunca abandonou esse brilho entre o do adolescente e o de um sério diletante.

O que não conheço em Sebald é a confusão de alguns textos de Chatwin (em Songlines), uma escrita aos tropeções, uma obsessão por compreender algo que claramente nunca conseguiu perceber e muito menos sistematizar. Mas serviu para ir ver na internet o que é um dasyurus geoffroii e pensar na nomadização e nas origens da humanidade.

Outra vantagem da internet (este pequeno passeio começou por aí) prende-se com o acesso imediato a imagens animadas e/ou música. Nunca ouvira falar de Kevin Volans antes de ler o elogio que Chatwin lhe estende num dos textos constantes de What Am I Doing Here. A leitura do texto sobre o compositor sul-africano enriquece-se rapidamente porque a internet disponibiliza várias das peças deste compositor que estudou com Stockhausen e de quem eu nunca ouvira falar.

* retirado do monumental livro de Gardiner, John Eliot, Music in the Castle of Heaven, 2013.
** ver Sebald, W.G., “The Mystery of the Red-Brown Skin”, em Campo Santo.

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