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Oque dizemos a um indivíduo que conhecemos mal, mais ou menos, ou não nos interessa conhecer melhor? “Olá, Tudo bem?” ou simplesmente “Tudo bem?”. O tipo responde-nos “Tudo”, ou “Sim”, ou se tiver um bocadinho de modos retribui com um “Tudo bem, e tu?” – certo? Não, errado! Tudo bem não; tudo mal! Confesso que já fui viciado em “tudo bens” mas deixei o hábito. Quando vejo alguém que conheço mal, aceno com as mãos ou com a cabeça, e se ele passar à minha frente digo-lhe “olá”. Se for um amigo mais próximo detenho-me e troco dois dedos de conversa, que podem começar como “Então como vai isso?”, mas nunca “tudo bem”. Este “tudo bem” é um momo, uma falsidade, um engodo. Devia ser considerado falta de etiqueta perguntar “tudo bem?”. Mais do que isso, devia ser considerado um insulto: “olha lá pá, esse ‘tudo bem’ foi p’ra mim, é?”.
Este “tudo bem?” é uma farsa, uma desonestidade. Um tipo que conhecemos mal passa por nós com passo apressado, atira com um “tudo bem?” e nós dizemos “sim”, porque: 1) é má educação não dizer nada e 2) o tipo vai embora e não chateia mais. Ele diz “tudo bem?”, e não nos pergunta se está mesmo tudo bem: o gajo está-se nas tintas, e quer é levar com o “sim” da praxe para depois ir à sua vida. E nós cumprimos este ritual patético à letra, damos-lhe o “sim” que ele pediu, e acaba ali, pronto, não se fala mais nisso. Até ao próximo “tudo bem?”, pelo menos. É que mesmo que esteja tudo mal, porque devíamos de partilhar o nosso problema com alguém que nem conhecemos?

O “tudo bem?” anda por aí todos os dias, na boca de gente de todos os quadrantes, profissões, idades, géneros, raças, religião ou orientação sexual. A única vacina para nos protegermos eficazmente deste “tudo bem?” vindo da parte de alguém que mal conhecemos e nem sequer nos lembramos do nome é um seco “o que é que tu tens a ver com isso?”

Há um tipo de “tudo bem?” que esconde segundas e terceiras intenções, que leva água no bico, especialmente se nos acontece um azar qualquer de que todos ficam a ter conhecimento (isto é frequente entre a comunidade portuguesa em Macau). Nesse caso arriscamos-nos a encontrar um dos “tudobembâdos” que se mete à nossa frente, olhas bem abertos e pescoço inclinado para a esquerda, como se para ver se estivemos a chorar, e pergunta “tudo bem?”. Se estamos com paciência, podemos falar do problema com ele: “olha, como já sabes…”, e se não merece mais que desprezo dizemos “sim, tudo”, fim de conversa. Aí é possível que o mala insista: “tudo, mesmo, de certeza?”. Aí dá vontade de responder “epá se já sabes porque é que perguntas?”, mas se não nos apetece mesmo andar ali a dar satisfações podemos optar por um “sim, tudo, com licença que estou com pressa”. Mas partilhemos ou não a angústia, nunca ficamos bem vistos no fim; se falamos, o tipo vai dizer aos outros melgas iguais a ele: “epá encontrei o coiso e tal, coitado está arrasado, com o coração nas mãos”. Se os evitamos, dizem “olha vi o coiso e está mesmo em baixo, e nem quer quer tocar no assunto, coitadinho”. É ser preso por ter cão e ser preso por não ter.
Mas o que esperar da reacção destes toureiros a cavalo que espetam bandarilhas do “tudo bem” à traição? E se em vez se “tudo” ou “sim”, optamos por uma resposta alternativa? Para melhor entender as probabilidades, elaborei uma tabela:
Se respondemos categoricamente “não”, ou “nem por isso”, pode-se esperar o seguinte:
1) O tipo fica genuinamente interessado no nosso caso e até pergunta “então porquê?”. Se lhe explicamos o problema, ele:
1a) Ajuda-nos, porque a solução está ao seu alcance, ou indica-nos alguém que o possa fazer, o que não é o mesmo mas é melhor que nada.
1b) Lamenta não poder ajudar, pois o problema é demasiado pessoal, ou do foro íntimo.
1c) Lamenta não poder ajudar mas se calhar até podia dar uma mãozinha, só que não está para chatear – isto acontece normalmente com problemas de dinheiro.
1d) Responde “a sério?” ao que se segue um “paciência”/”boa sorte”/”as melhoras”. O filho da mãe…
1e) Responde “epá olha, é a vida”, depois olha para o relógio e diz “estou com pressa, depois a gente fala”. Despedimos-nos do cínico com um “’tá bem, ‘té logo”, e ficamos a desejar que seja atropelado assim que atravessar a rua.
1f) Diz “Ai é? Ah, ah, ah”. Esses são apenas parvinhos.
Se a resposta é “mais ou menos”, ou “assim-assim”, estamos a seduzi-lo, a chamá-lo para a cama da lamentação, com a alma húmida e ardente de desejo pela sua curiosidade. Reacções possíveis:
2) Ele é um daqueles tipos porreiraços que pensa que é amigo de toda a gente e está sempre disposto a dar uma mãozinha, mas no fim deixa tudo na mesma ou pior, e cujos conselhos incluem:
2a) “Ai é? Olha cuidado com isso, que eu tinha uma tia que apanhou essa merda e já foi desta para melhor”
2b) “Ouve lá, já tive esse problema, e sabes o que foi que eu fiz?” – ao que se segue um rol de palermices e dicas inúteis.
2c) “Água. Bebe muita água”.
2d) “Os meus pêsames pá. Ouve…ganda cena. Fogo, pá”, enquanto nos abraça e nos dá violentas palmadas nas costas, fingindo estar em prantos pela morte da nossa tia ou sogra.
3) Os que se estão nas tintas para nós:
3a) O filósofo: “Só mais ou menos? Do jeito que isto está, podia ser pior”
3b) O polícia: “Vê lá, vê lá. Juizinho…”
3c) A avózinha: “Agasalha-te bem e não fumes tanto.
Em alguns casos em que a vítima do “tudo bem?” alheio tem uma reacção ainda mais parva, retorquindo com inanidades do tipo “faz-se o que se pode”, “vai-se andando” ou “com altos e baixos”. Estas respostas que não são carne nem peixe podem levar com um indiferente “ah…”, ou “pois”, e o autor do “tudo bem?” acaba saindo por cima.
O “tudo bem?” anda por aí todos os dias, na boca de gente de todos os quadrantes, profissões, idades, géneros, raças, religião o orientação sexual. A única vacina para nos protegermos eficazmente deste “tudo bem?” vindo da parte de alguém que mal conhecemos e nem sequer nos lembramos do nome é um seco “o que é que tu tens a ver com isso?”. Mas é preciso ter tomates. Para um sacana, sacana e meio.

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