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Uma antiga cadeira de dentista, um espaço livre para exposições e workshops, um corredor cheio de motas antigas e vários projectos futuros. É assim que as galerias de arte Iao Hin se desenvolvem, com o novo espaço aberto há seis meses

O mais recente espaço da galeria Iao Hin encontra-se em frente ao Mercado Vermelho, num daqueles edifícios à beira-rio, quase em ruína, não fosse o investimento de alguns patrões do ramo imobiliário. É o caso deste lugar, localizado num dos andares mais altos do prédio em questão.

A entrada, essa, denota um sentido de gosto e conhecimento cultural de quem não se presta a faltas de talento. Simon Lam é o curador dos dois espaços, ambos em funcionamento desde 2012. No entanto, aquele mais perto do mercado tem uma particularidade: foi inteiramente remodelado para abrir ao público há cerca de seis meses, com um conceito e aspecto completamente novos.

Em conversa com o HM, Simon Lam confessa que o principal motivo para o estabelecimento das galerias foi o facto deste ser “um nicho de mercado”, já que mais ninguém detinha um espaço do género naquela altura. “Não havia qualquer galeria de arte em Macau. Havia museus, concertos e eventos de arte, mas não havia um único espaço dedicado à arte, como em Hong Kong”, frisou Lam. “Começou com o conceito dos artistas virem cá para fazer workshops, conferências e reuniões e foi aí que começámos a expor os trabalhos de artistas locais”, começa Simon por explicar. “Nesta altura, alguns artistas estrangeiros contactaram-nos para expor os seus trabalhos na galeria, pelo que tiveram início as exposições de maior envergadura”, acrescenta.

No entanto, tal diz respeito à galeria existente na Rua de Tercena, travessa bem tradicional da região. O local junto ao mercado servia anteriormente como armazém para mobílias antigas encontradas e estúdio para trabalhos de design. “Eu estava a fazer trabalho de design e, passado um ano, começámos a ter um volume estável de negócio, pelo que acrescentámos a organização de aulas e workshops sobre esta indústria”, disse. “Em 2011, o mercado de arte estava a explodir em Hong Kong e lembrámo-nos de criar aqui um conceito que na altura era inexistente”, confessou. O início, admite, foi complicado, uma vez que a adesão foi fraca, tendo começado com “20 ou 30 pessoas” nas suas primeiras exposições. Hoje em dia este número cresceu e Simon calcula que mais de cem pessoas aparecerem para ver as mostras em exibição, de entre as quais estão especialistas de arte, como curadores e críticos. iao hin

“De tempos a tempos temos exposições de artistas locais para ir avaliando as vontades da população e saber quais os seus gostos e sinto que o mercado está cada vez mais receptivo, embora a maioria dos visitantes continue a ser estrangeira”, acrescentou ao HM. Assim, ambas as galerias têm conceitos distintos. Aquela localizada na baixa da cidade é mais selectiva e acolhe exposições de artistas de renome. A do Mercado Vermelho foca-se mais na proliferação de talentos locais menos conhecidos, onde todos são bem-vindos, após aval do curador.

O preencher de uma lacuna

O curador gere a marca e os espaços com a sua esposa Florence, a directora. O casal viveu no estrangeiro e foi no Reino Unido que mais tempo esteve, cerca de dez anos. Daí mudaram-se para outros países europeus, até que em 2011 decidiram criar raízes em Macau, onde viram uma grande falha. A Iao Hin junto ao rio está decorada com uma série de artigos antigos, nomeadamente mobília descoberta no lixo e nos grandes contentores, como são uma antiga cadeira de dentista – actualmente considerada vintage –, várias cadeiras e mesas, um hall com algumas motas locais de diferentes décadas, entre outros itens. Existe ainda uma espécie de quarto munido de um pequeno espaço de trabalho que serve para vários fins, nomeadamente projectos artísticos.

A necessidade de cultivar

O maior obstáculo, neste caso, parece ser o aparente desinteresse da comunidade local chinesa na arte contemporânea. As rendas aqui não desempenham um papel determinante, já que os espaços não estão a ser alugados. “O mais difícil é incutir à comunidade local o gosto pela arte”, lamenta Simon, que refere ser complicado explicar às pessoas que a arte é um valor acrescentado. Uma das vantagens, diz, é o facto das obras ali expostas poderem “vir a ser uma excelente fonte de investimento”, seja agora ou futuramente.

O curador ilustra com uma situação em particular: “vamos agora ter uma mostra do French May com esculturas feitas a partir de raízes de árvores, mas a comunidade chinesa não dá valor e acha-a desinteressante porque diz serem coisas feitas pela natureza”. Actualmente, o casal trabalha com um estagiário e um outro funcionário. Questionado sobre uma nova onda de expansão da Iao Hin, Simon Lam comenta que para já os planos não vão nesse sentido. Não só porque “as rendas estão muito caras”, mas também devido ao facto de não sentirem necessidade de expandir.

Para além de uma galeria, o espaço é também uma loja e um local com potencial para talentos desconhecidos. Para já, o futuro da empresa passa pela organização de workshops, aulas temáticas e leilões de pequena envergadura, que contam com a total participação dos residentes. “As pessoas vão poder trazer itens que já não queiram ou não lhes façam falta para vender na galeria, depois do seu valor ser mensurado por especialistas convidados”, diz entusiasmado.

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