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Aesta hora em que começo a escrever, olho para o lado e há uma lua enorme e hipnótica sobre o telhado em frente. Em dois dias será lua cheia. Exactamente às 18:21:57. A precisão do tempo, tão contrária à ilusória precisão da percepção. Ou da mesma ordem. Este planeta tão vizinho e o fascínio que exerce sobre nós. Como um espelho de que precisamos, a dizer que existimos como ela ali solta no universo, e igualmente visíveis de fora. E pensei nos meus vizinhos lunares. Tenho um lugar na varanda das traseiras que curiosamente me dá uma enorme abstracção da minha vida. Talvez porque nele me sento geograficamente de costas para o meu pequeno mundo. O lugar de sair. De ficar horas pela noite fora a beber e a fumar cigarros colados uns aos outros. Gosto da ilusão de que não sou vista ali, nestas noites finalmente amenas.

Dados: a minha vizinha das traseiras, Rosário, provavelmente um rosário de lágrimas por detrás desse nome. Vi-a perder os dentes, a tinta do cabelo ao longo de meses, o marido com cancro depois de muito tempo acamado, a mãe no andar de baixo. O pai, uma figura tristíssima e lenta a estender a roupa depois disso e mais tarde a perder as pernas, ele. Cruzávamo-nos muitas vezes as duas, naquele espaço apertado de saguão, a estender roupa. Ou a passar a ferro de janelas abertas. Eu no quarto do fundo e ali a quatro, cinco metros, ela, a passar pilhas imensas da roupa do restaurante e outra, com que ganhava a vida. Ouvia-lhe a máquina de lavar non stop pela noite adentro. Há muito que não a vejo. Mudou-se para o rés-do-chão com o pai depois da tragédia. Esse prédio de empena feia está tão silencioso desde há uns tempos. Não sei destes meus vizinhos que me ofereciam plantas. As últimas vezes que a vi foi na rua a distribuir aqueles papelinhos dos restaurantes. Uma vida difícil é assim.

E aqueles, num outro pequeno prédio ali mesmo mas num recanto de difícil acesso ao olhar, de tal forma que nunca os vi, que cantavam em coro nas noites quentes do verão passado, belas canções numa língua de leste. Mesmo com o karaoke, quase bem de mais para ser verdade assim só, em reuniões de expatriados nostálgicos. E aquela figura de rapaz oriental enquadrada pelo rectângulo da janela, sempre frente ao computador, com um prato de comida sem mais. O outro ano após ano, mal as janelas começam a abrir, a improvisar notas num saxofone sem nunca evoluir numa melodia sequer. E a senhora que passeia entre a padaria e a mercearia em robe azul turquesa.

Não sei se me interesso mais pelas almas ou pelos indivíduos. Num momento direi uma coisa e logo no momento seguinte a outra…suponho que pelos segundos talvez, mas a uma distância assim lunar. Mas a mais lunar figura de todas, aquela rapariga de ar renascentista, branca como não é possível ser mais, e que estendia uma toalha com gestos lentos e repetitivos, de emenda meticulosa. E nua. Nua e abstraída de toda a possibilidade de haver um mundo para além daquela toalha que levava uma eternidade a ser presa nas molas. Corrigida na posição, esticada. Vi-a mais do que uma vez assim. Eternizou-se nos meus sentidos e na memória a figura extática, alheada, lenta, de olhos baixos. Até porque a via de cima. Depois pareceu-me ver no arredondado do ventre que talvez estivesse grávida o que explicaria esse lado lunar, talvez. Mas nunca entendi porquê nua. Sem sensualidade, sem pudor, sem consciência. Sem tempo. Sem realidade. Aquela rapariga de leste ou de Marte. Branca, etérea e suave até quase à transparência. Tão real ou tão pouco, como aquela minha figura querida, que vi em sonhos pendurada na janela em frente daquela, numa altura de ímpetos suicidas. Envolta numa luz de madrugada. Ambas vistas do mesmo canto da visão.

Estes são os dados.

Não sei bem o que é que a lua tem a ver com este meu deambular pela varanda das traseiras, exceptuando o facto de que à escala do universo também ela é simultaneamente próxima e inalcançável. Pomos os olhos nela e sonhamos. Nesse desfasamento de um segundo-luz que nos separa. Mas precisamos dessa distância satélite.

Dados: eu, no bom tempo, sentada na varanda das traseiras, um microcosmos, a fumar e a beber cervejas. A não querer ser vista. A ver o que se oferece. Não espio, mas também não evito ver. Gosto de ver as pessoas. Os indivíduos interessam-me a essa distância orbital. Desconhecidos girando na órbita uns dos outros recobertos de camadas de sentido que permitem aproximações e afastamentos alternados. Outros mais aquém numa outra camada, aquém mesmo dos limites do tacto. Embora mesmo o olhar, à partida pareça possuir também esse sentido.

Toda a vida me disseram distante, porque a proximidade é secreta. A minha. Aproximo as coisas com os olhos e escondo-o. Mas aproximo-as. Às vezes com uma carícia. e forja-se assim com estes e outros personagens uma órbita próxima, definida pela persistência do olhar, como uma corda esticada. Em camadas sucessivas a diferentes distâncias, medidas na intensidade da minha consciência delas. Mas não porque eu seja o centro deste sistema, nada gravita em meu torno que não sou centro de nenhuma força gravitacional. De nada. A distância é uma coisa relativa que se palmilha com os olhos.

Na realidade nunca me senti o centro de nada. Sou mais uma personagem periférica. Ou talvez mesmo marginal. Com curtas incursões ao vórtice. Porque me prendem a atenção as pessoas na sua generalidade de indivíduos tanto como na sua especificidade de seres ou entes. Ou vice versa. Não porque eu as ache interessantes ou bonitas por defeito. Interessam-me na sua realidade por vezes estranha. Mas aquilo que as desfeia, aos meus olhos é a vida que as estraga. É uma expressão de antigamente esta de dizer da aparência de alguém envelhecido, que está estragado. Não sendo necessariamente a mesma coisa. A existência que desgasta e retira a dinâmica muscular que dá vida aos olhos, por exemplo. Nada tão revelador da alma como um certo encurvar dos ombros. Nada diz mais do indivíduo do que a forma como se apresenta fisicamente, como diz de si com o corpo, não: estou; mas: pesa-me. A alma imprime uma dinâmica ao sentir e este é um motor corporal. E não existe forma sem expressão. E por isso o indivíduo é uma forma tocada de uma expressão própria ou uma impressão da alma nele enquanto forma em acção. O modo e o rítmo do andar. Com as mãos é a mesma coisa, sempre senti estranho o facto de tantas pessoas darem uma particular atenção a esta parte expressiva do corpo. Esteticamente. Nunca me aconteceu. Entendi porquê…O que me atrai é a forma como as pessoas movem os objectos, como se pressente a sua consciência do tacto. Como tocam as coisas e as tacteiam. E nas pessoas. Isso sim, fascina-me. E a boca. Interessa-me a relação da boca com ela própria, como pronúncio da sua vocação terna ou sensual. É tudo uma questão de autoconsciência. Observo a consciência de si numa boca, num gesto que se faz no próprio corpo…No andar. Muito mais do que a forma desse todo, é a sua gestão que me fascina…

O segredo de muitos dos sintomas, diria da alma, está nessa existência muscular, na disciplina ou no desalento que ao longo do tempo franze em rugas, crispações, revira os sorrisos para baixo nos cantos. E aos sintomas, não adianta muito tratar. É como uma representação barata de um estar que não se confirma de dentro. Como na medicina oriental não se tratam os sintomas, no teatro, uma boa representação é aquela em que se interpreta não esses sintomas exteriores, mas se actua em função das causas, sentidas por dentro, vistas de dentro e traduzidas numa expressão que pode ser representada e como tal ilusória, mas é sentida.

Há muitos anos alguém me referiu um livro, que na realidade nunca li, mas retive o nome em tradução livre: As escadas traseiras da Filosofia (“Die Philosophische Hintertreppe”, Wilhelm Weischedel, um livro de 1966). Não se trata de eu não encarar com alguma desconfiança, a tentativa de ler no quotidiano de alguém, aqui trinta e quatro filósofos, os sinais ou sintomas do seu interior intelectual, emocional, espiritual. Mas o próprio Wittgenstein, um dos filósofos referidos, afirma que nada é melhor do entender o indivíduo, para se lhe entender a alma. Geralmente pensamos o contrário. Mas a alma é de impossível acesso. É uma causa de que só se apreendem os sintomas ou sinais. Alguns. O caso de W. fascina-me porque se debruçou como ante o segredo de todas as coisas, sobre a linguagem e as suas armadilhas. As palavras como erro ou aparência. Nem estou bem certa de que ele tenha usado a palavra alma. Também não estou segura de ter grande apreço por esta, senão num sentido poético. Wittgenstein não é nada fácil, não é nada lúdico no seu discurso. Aliás nos seus diálogos socráticos. É preciso sentí-lo de dentro. De resto, a partir de uma certa altura na vida, as grandes revelações parecem vir por vezes de reflexos como num espelho que nos diz aquilo que já intuíramos. Uma empatia ou reconhecimento um pouco centrados na validação do que a humildade não trazia à consciência.

Mas esta perspectiva da análise de grandes pensadores no seu quotidiano, antecede no fundo o conceito de inteligência emocional dos anos noventa. De como os factores não intelectuais influenciam o comportamento inteligente. Mas já Darwin referia a importância da expressão emocional na sobrevivência e na adaptação.

E esse lado privado da vida é parcialmente visível nas traseiras dos prédios. São um lugar de exposição não esperada, da privacidade das roupas interiores estendidas, no seu melhor e no seu pior. Dos cabelos despenteados ao acordar, das camisolas de alças transpiradas. Dos robes desbotados. Dos telefonemas de sedução, que oiço a vizinhos de várias gerações. Das discussões sem pudor porque se passam lá atrás. Dos cães fechados em varandas mínimas e que ladram e ganem a horas desorbitadas. E dos gatos, claro.

Do lado da frente, da janela do meio tenho desde há meses a vizinhança um pouco desalinhada, meio andar mais abaixo, mas ali em frente, de uma nova habitante. O quarto, neste caso não é resguardado lá atrás, e é igual a todos os outros que vejo pelas outras janelas, as colchas iguais, a mesma síntese um pouco fria, a limpeza, e poucos objectos pessoais. Ela tem uma característica diferente das outras habitantes, é noctívaga como eu. E tem a janela aberta de dia e de noite. É um pouco embaraçoso mas eu vejo-a deitada na cama, a dormir. Pouco. De vez em quando. Gosto desta companhia. Não sei se ela me observa discretamente como eu a ela. Às vezes vou ver se já dorme e fico desapontada por que me parece que desistiu de esperar algo da noite. Ali fechada nada de especial pode acontecer mas ela espera. Se calhar só que o sono venha. É uma mulher com história de vida. Parece repleta. Fuma à janela e ouve um aparelho de rádio minúsculo às escuras. Não é nada nova mas tem postura de alguém que não encolheu nunca os ombros. Poderia ser uma actriz ou uma cantora de ópera, fantasio, pela figura volumosa mas empertigada. Com dignidade. Não é bonita, parece-me, mas mal a vejo. É de noite que está ali. Debruçada no parapeito e a fumar. Sempre. O que me perturba um pouco nestas vidas que se vão sucedendo nestes quartos, é o pouco que elas trazem consigo. Poucos objectos, poucas testemunhas físicas da vida vivida. Como se não tivesse sobrado nada ou fosse uma etapa passageira, como o é sempre, mas ali, um pouco mais.

Pensando melhor, poderia ter sido dona de um bordel mediano, ou patroa de pensão, arrumadora num clube de encontros para lá de clandestinos, camareira num teatro ou mesmo actriz. Ou uma cantora de ópera de segundo plano. Tem volume e pose para isso tudo, volto a pensar. E neste país, tanto acabam num lar da Misericórdia uns como outros. Ou pior. Esquecidos em quartos, em casas mantidas a custo, numa vergonha do insucesso da velhice e da pobreza, nada mais que uma subvivência marginal. Tem um ar vivido. Sei lá eu porque é que naquela geração, uma mulher que fuma tem sempre um ar mais vivido. E o que significará isso a mais de existência. Mas de existência agora não lhe vejo camadas. Não lhe vejo gente, e só parece aparentar uma espera. Ou uma chegada, afinal. Não consigo deixar de pensar que a vida não lhe anda.

Chegada à última estação. E sentir que é o fim da linha. E só.

Tenho medo.

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