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Vinho! A jorros! Que ele palpite nas minhas veias! Que ele fervilhe na minha cabeça!

Taças… Depressa! Eu já envelheci…

Omar Khayyam

– Sim, agora que o Outono chegou, que as tardes são mais maduras e a luz se vai coando de uma quietude quente onde as formas ganham um relevo suave e a nudez fica mais vestida – apetece sempre esse vinho da lenda que foi Omar Khayyam. Na sua Pérsia natal ele representa a herança da cultura grega numa sociedade muçulmana, onde nasce em 1048 para levar uma vida de sábio, de estudioso e rigoroso observador. Para tanto lhe valera uma pensão vitalícia que lhe permitira uma imensa criatividade e deleite intelectual. Um pouco isolado das tradições religiosas e filosóficas da época, Sufistas e Islamitas, não menos redutor se torna o epíteto de poeta do vinho dada a sua perspetiva universalista. Há um panteísmo filosófico, resultado hedonista da sua herança helénica, acerca do maravilhamento do instante e da hora que passa elevado a arte de viver, talvez um pan-helénico em terreno nada conflituoso para a sua energia poética.

Vejamos que mesmo assim o Sufismo também introduz muitas notas sonantes na sua poesia no que diz respeito ao amor e a uma busca da pobreza que facilite o não andar agarrado às sombras ilusórias da vida. Aqui aproxima-se deste estado de coisas e leva até ao seu diálogo a influência pois, como bem sabemos, beber vinho não é prática islâmica. Um deus báquico nascido na bela Pérsia que vai escrever as suas” rubaiyat”, que são uma renovação da poesia persa e que têm como princípio estilístico uma separação das formas tradicionais. Obviamente que tais deslocamentos estilísticos se tornaram não muito ortodoxos face à religião oficial, o que não as fez menos populares.

“Ruba’i “significa pequena composição e usamo-la no plural, aproximando-se sem dúvida às influencias orientalistas do Haiku, mais epigramática, talvez, mas fazendo jus a uma grande síntese de linguagem. Usamo-la como a base de uma máxima estética ou de um efeito, de uma moral contida em forma de sabedoria. É efectivamente a antítese da nossa forma de dizer tão repleta de argumentos que enumera até ao absurdo, dando por isso voz aos alicerces que gostam nos interstícios de ficar na sombra como um mecanismo que utilizamos para chegar a uma mais condensada conclusão. Talvez tivessem o dom da economia e, sabendo do gosto destes povos por gatos, mais não quisessem em termos falantes do que assemelharem-se-lhes no enigma e na solidez essencial.

Já os poetas árabes do Al-Andaluz ilustram uma contenção que nos inebria, uma mesura linguística que nos deixa surpreendidos. Andam distantes ainda deste registo, mas ambas as fontes parecem conhecerem-se. Dir-se-ia que nem é o intimismo da modalidade que os acalenta, o lado confessional dos estados de espírito ou a razão de um desejo, mas toda uma subtil arquitectura de saberes e sentires, onde no meio vamos encontrar uma maravilhosa noção de Civilização. Todos parecem cantar, para além de si, uma música cujo significado semântico- acústico diz tudo acerca do valor maior do poema. Vamos encontrar, por vias quantas vezes dolorosas pela mudança de registo, estas influências nas « Cantigas de Amigo», uma esteira de vinhos paralelos nos trazem com nitidez à lembrança toda a geometria das fórmulas, talvez por que agora o vinho nos evola na sua deidade de motor de uma estirpe onde estas coisas aconteceram. Talvez por isso a nossa vida inteira nestas margens do mundo tenha um registo geográfico muito perto do Jardim que os tempos na sua transgressão não conseguem sonegar. O vinho é um produto alquímico feito de solo e sol, desse casamento, e transplantá-lo não será fazê-lo melhor nem dará a mesma cepa destas tão ilustres taças. Tudo se pode fazer, é certo, até melhor que o original, mas quem faz a “coisa” imperfeita e bela só mesmo alguns, nestas, como noutras coisas, não se procura a perfeição, mas sim a plenitude, que ser-se, é, tudo aquilo que se opõe a toda a prática de um perfeccionismo desenraizado.

Se o mundo se transformasse numa vinha, seríamos então todos descendentes de Noé.

O sistema de castas, hoje mesmo só serve para os vinhos, sendo também lendárias as formas que as designam e as vastas descrições de que são feitas. Nós, cujo produto reverte para a estatística do mundo, já não somos uma casta, mas uma espécie aparentemente transformável. A alteração da percepção é também uma via de sublimação espiritual e o exercício da sua prática remete-nos para outros estados de consciência moldados pela natureza das opções estilísticas. Somos herdeiros mas não reféns daquilo que encontrámos já feito e dito como definição, nós vamos em busca, formamos e acrescentamos ao tecido do realizado mais realidade. Não interessa a arma secreta nem a dúvida sempre metódica, que duvidar não é fazer, nem o secretismo maior anda escondido, nós precisamos do nosso tempo de vida para deixar a vida mais longa sem nós.

Estamos com certeza ainda aqui nos augúrios do tempo, sem a demonologia e as portas fechadas dos fantasmas do ego dadas por alucinogénios – aquela árvore que nos disseram para não tocar. Aqui ainda a vinha é sagrada e como tal o espectro não se produz, nem as brasas da loucura nos engolem com a fantasmagórica sombra de nós. Estamos num outro registo no qual, quem sabe, a psique tão cara aos homens do nossos dias estava como que adormecida nas portas do cérebro e da alma: o mal era outro e tinha também contornos menos maus, suponho, que o tal mal procurado na escada funda que vai para os nossos abismos.

Por isso, aos primeiros alvores do Outono voltamo-nos para a Primavera da Civilização onde temos condensadas todas as lendas, os frutos maduros e a beberagem sadia e, enquanto esta taça nos for dada como um desígnio a manter, jamais esqueceremos de lembrar aos vindouros a casta maravilhosa de que foram feitos os Povos. Por isso:

Dissimulo a minha tristeza,

porque as aves feridas se escondem para morrer.

Vinho! Escuta os meus gracejos!

Vinho, rosas, cantos de alaúde

e a tua indiferença à minha tristeza, ó bem-amada!

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