Primeira sonata para violino

Em 1872, Camille Saint-Saëns, ex-professor de piano de Gabriel Fauré, apresentou o jovem compositor à grande meio-soprano Pauline Viardot-Garcia e à sua família e salão musical alargados. Fauré dedicou várias das suas canções a essa influente doyenne, apaixonou-se pela sua filha Marianne (que romperia o seu noivado após três meses) e dedicou a sua primeira sonata para violino ao filho, o violinista e compositor Paul Viardot.

Foi Marie Tayau, no entanto, uma jovem estrela em ascensão e líder de um quarteto de cordas pioneiro constituído apenas por mulheres, que estreou a obra em Janeiro de 1877, com Fauré ao piano. “A sonata teve mais sucesso esta noite do que eu jamais poderia ter desejado”, escreveu Fauré a um amigo, e Saint-Saëns referiu, a propósito da obra, que sentia a tristeza que as mães sentem ao verem que os seus filhos já cresceram e que não precisam mais delas!… No entanto Saint-Saëns tinha mais a dizer: “Nesta sonata, encontramos tudo para tentar um gourmet: novas formas, excelentes modulações, cores incomuns e o uso de ritmos inesperados”, escreveu. “E uma magia flutua acima de tudo, abrangendo todo o trabalho, fazendo com que a multidão de ouvintes comuns aceite a audácia inimaginável como algo bastante normal. Com este trabalho, Monsieur Fauré ocupa o seu lugar entre os mestres.”

Essa magia é bastante aparente em momentos como a transição da secção de desenvolvimento para a recapitulação arrebatadora no andamento de abertura, Allegro molto. Essa é uma célere mas melodiosa forma-sonata, abrindo com crescente entusiasmo apenas para o piano solo nos primeiros 22 compassos. A sua frescura lírica é subtilmente sustentada por um dar e receber contrapontístico, e a sua doçura expressiva por uma técnica musculada. O segundo andamento, Andante, é uma comovente e insistentemente oscilante barcarolle, que faz um uso arrebatador de contraponto na maneira como os dois temas inter-relacionados se entrelaçam. O animado Scherzo, marcado Allegro vivo, uma espécie de brilhante hoedown francês, diverte-se tanto em sonoridade quanto em enredo rítmico e inspiração estrutural. Pontuado ligeira e nitidamente, muda de compasso e tonalidade com a audácia maníaca que Saint-Saëns assinalou. O finale, Allegro quasi presto, vai além da consumação e da adição com verve e vigor. Também bastante rápido, agita-se encantadoramente num mundo sobretudo muito suave, atingido por alguns fulgores estrondosos; “Dolce”, “sempre dolce” e “dolcissimo” parecem ser as marcações padrão de Fauré.

Sugestão de audição:
Gabriel Fauré: Violin Sonata No. 1 in E minor, Op. 13
Itazkh Perlman (violin), Emanuel Ax (piano) – Deutsche Grammophon, 2015

28 Jul 2020

Carlos Damas faz digressão na China com um pé em Macau

 É uma digressão feita de estreias: não só será a primeira vez do violinista português Carlos Damas na China, como será também a primeira vez que os chineses poderão conhecer melhor o trabalho do compositor António Fragoso, falecido há 100 anos. A digressão de Damas na China decorre entre os dias 13 e 23 de Abril, estando previstos concertos nas cidades de Dalian, Jilin, Dongguan e Pequim, entre outras.

 

Em declarações ao HM, o músico, que viveu em Macau entre 1995 e 2000, falou do que o público chinês poderá esperar dos concertos desta tournée.

 

“Toquei pela primeira vez na China no ano de 1997, tive o privilégio de ser o único ocidental a actuar como solista no Festival de Artes da República Popular da China. Lembro-me que na altura o público parecia não saber como reagir ou agir perante uma performance musical, passaram-se bastantes anos e espero vir a ter nesta tournée um público mais participativo e vibrante.”

 

Sem concertos agendados, para já, em Macau, o violinista espera vir ao território no próximo ano. “Curiosamente recebi há cerca de um mês um contacto do Instituto Cultural de Macau, que me pediu para enviar uma proposta para o Festival internacional de Música de Macau de 2019, espero realmente poder voltar a tocar em Macau em 2019”, adiantou ao HM.

 

A homenagem a Fragoso

 

António Fragoso entrou na vida de Carlos Damas apenas em 2010. “Os descendentes do compositor ofereceram-me as partituras das obras para violino. Adorei a música e um ano depois estava a gravar essas obras para uma editora Holandesa. Essa gravação foi muito apreciada pela crítica internacional.”

 

A homenagem que será feita na China aconteceu um pouco por acaso. “Os concertos que vou realizar não foram programados para serem dedicados a António Fragoso. Como vem sendo meu hábito, faço questão de incluir uma obra portuguesa em todos os concertos que realizo, como este ano se comemoram 100 sobre a morte de António Fragoso, em tom de homenagem, decidi incluir no programa a sua sonata para violino que por sinal foi a última obra que escreveu.”

 

Para Carlos Damas, o compositor “foi um prodígio”, apesar de ter morrido com apenas 21 anos. “Segundo fontes que consultei, Fragoso nunca foi tocado na China continental (toquei em Macau obras suas em 2012). Estou curioso por sentir a reacção do público nos vários concertos que irei dar, na realidade a linguagem de Fragoso é distinta do habitual. O restante programa dos concertos é preenchido com obras de L. V. Beethoven e J. Turina”, contou.

 

A digressão de Carlos Damas no continente acontece numa altura em que o país começa a despertar para a música clássica. “Nos últimos anos a China assistiu a um boom na música clássica. Foram criadas muitas instituições de ensino, abriram muitas novas orquestras, e têm hoje em dia muitas excelentes salas de concerto, salas de primeira linha. Na minha tournée a sala mais pequena onde tocarei tem 1500 lugares, a maior 3000”, rematou o músico.

20 Mar 2018

FIMM | Fim-de-semana recheado de músicos jovens

O Festival Internacional de Música de Macau (FIMM) continua este fim-de-semana, com uma programação apresentada por grupos de jovens artistas. A acontecer na Fortaleza do Monte e no Teatro D. Pedro V, os concertos de O-Kai Singers e Charatay e do Stradivari Quartett chegam de Taiwan, Hong Kong e Suíça.
Os O-Kai Singers são uma banda proveniente de Taiwan, que sobe ao palco no território na companhia do grupo Charatay, da região vizinha de Hong Kong. Os dois grupos, diz a organização, “prometem uma festa de som aos entusiastas da música”, mesmo que sejam considerados fruto de estilos musicais distintos.
Criados em 2004, os O-Kai Singers são um “grupo aborígene de Taiwan” que conquistou o primeiro lugar na categoria nacional do Festival Internacional Contemporâneo de A Capella da Formosa. Desde então, o grupo recebeu um total de 23 prémios em Taiwan e no estrangeiro e, explica a organização, “foi convidado para partilhar o palco com grupos de topo de canto A Capella”, tendo ainda gravado um álbum com premiados com Grammy. maxresdefault
“O seu melhor álbum de estreia recebeu o prémio de Melhor Álbum Indígena na 24º edição dos Prémios Melodia de Ouro de Taiwan.”
De acordo com a organização, o estilo de canto tradicional dos aborígenes de Taiwan é transmitido pelos O-Key, um grupo que “injecta vitalidade” nos círculos de música Pop.

Graça e paixão

Os membros de Charatay, que sobem ao palco com os O-Key, formaram o grupo há 16 anos. Apesar de não terem qualquer álbum publicado ainda, os Charatay dedicam-se a entreter o público com “sentido de humor e paixão”, apresentando o melhor da música Pop da RAEHK.
Os bilhetes para o concerto custam cem patacas, sendo que o início está marcado para as 20h00 na Fortaleza do Monte.
No mesmo dia e no dia seguinte sobem ao palco do Teatro D. Pedro V o Stradivari Quartet, da Suíça. O grupo formado por quatro jovens apresenta-nos recitais de violino com peças de Mozart, Webern, Brahms, Beethoven e Ravel.
“Estes músicos de grande talento são capazes de extrair a elevação e profundidade das emoções que a música consegue expressar”, diz a organização.
Os bilhetes para o espectáculo que começa às 20h00 custam entre as 200 e as 250 patacas.

23 Out 2015