Trabalho de casa II 

26/08/17

Confesso que os princípios estéticos taoistas me trazem um tópico que me fascina: o isomorfismo.

Potenciar ressonâncias em sistemas distintos pressupõe a existência de isomorfismos  – uma similitude de estruturas, como nos fractais, entre os diversos seres, níveis de realidade ou sistemas – e ilustra o velho postulado chinês da harmonia universal.

É o que acontece naquela célebre história em que Tzang Tsu e Hui ’Tzu atravessam uma pequena ponte e desatam a discutir sobre como pode Tzang Tsu avaliar se os peixes que nadam e cabriolam na torrente se sentem felizes. Ao que sage responde prontamente: Eu conheço o gozo dos peixes no rio pelo  gozo que eu sinto ao caminhar junto do mesmo rio.

Entretanto, para que se perceba como o potencial estético do isomorfismo não está refém do mimetismo, piquei em Chesterton um exemplo que me delicia:

Um homem que se apega à literalidade das harmonias, que não associa as estrelas senão com os anjos, ou os rebanhos com as flores primaveris, arrisca-se a ser bem frívolo, porque se limita a adoptar um só modo a cada momento; e passado esse momento ele pode esquecer o modo em questão. Mas um homem que se esforça em conciliar os anjos com os cachalotes deve, por seu lado, ter uma visão bastante séria do universo.

Esta formulação afere a seriedade dos processos em muita poesia moderna, tantas vezes tão incompreendida: os anjos e os cachalotes não devem andar de costas voltadas – ainda que tenhamos que fazer as ligações porque elas não nos são dadas.

Em suma, a poesia obriga-nos a sondar novas associações intelectivas que desencadeiam uma multiplicidade de relações nunca entrevistas, numa dinâmica que não se fecha mas se estua.

Ou como diria o Chillida, sobre a arte, mas extrapolando-o para a poesia: trata-se de fazer luz onde estava escuro, o que nos empurra continuamente para fora da lógica do discurso em que nos movíamos, para vermos iluminados âmbitos novos.

Se quiserem, a metáfora que traduz a transversalidade isomórfica é o passe vertical no futebol, que produz uma economia de tempo ao conectar automaticamente vários níveis do campo.

Eis um bom ponto de partida para compreender o que a poesia nos ofereceu desde Baudelaire e para nos aquietar quando constatamos que a posição da arte é quase sempre um desmentido à posição do discurso (- ó Lyotard, estás bom, rapaz?).

É no que creio e só por aqui começo a compreender como anjos e cachalotes rimam.

27/08/29

Provavelmente tudo o que vou dizer na palestra sobre Camilo Pessanha, dia 5, em Macau, seria desmentido pelo que se vazou nesse mítico caderno desaparecido do poeta de que alguns falam com, pasme-se, sete mil páginas.

Confesso que suspeito desta cifra, não lhe encontro grande nexo. Sete mil páginas correspondem a catorze resmas de papel, seria uma árvore maior do que a floresta, e que não se deixaria ver. Provavelmente, na sua aludida letra pequenina, eis a hipótese que me parece plausível, João de Castro Osório viu sete mil linhas e cometeu um erro de simpatia. O que a trinta linhas por páginas daria algo como duzentas e tal páginas, um número mais viável.

Mas preferia ser desmentido (tenho este carácter mole, que não se importa nada de ser desmentido) e que à chegada a Macau me contassem que o tufão da semana transacta removeu umas lajes e se encontrou embrulhado em couro o caderno perdido do Pessanha. Eu acredito em Shangrilá   

29/08/17

Prófugo, solerte, adrede, enteléquia: palavras com as quais não teço qualquer empatia, modo de emprego, sinal de apaziguamento. Já cem vezes as soube, já cem vezes as perdi, não pertencemos à mesma comunidade. Puro mármore, não me entram no sangue.

E mais duas centenas delas, vieram-me agora estas, como se fossem o primeiro sintoma de um Alzheimer a vir. Há palavras de que não nos apropriamos, é caso para dizer, nem mortos. Cada um imagino ter as suas.

Bom, para minimizar, sirvo-me de um dito de Bachelard, «Se dois homens se querem entender verdadeiramente, têm primeiro que se contradizer», que afinal até é o princípio das comédias românticas. Porém, elas não se dão ao trabalho de me contradizer – repelem-me.

Se é assim com as palavras, pressinto que seja totalmente artificial qualquer ideia de comunidade.

Um sentir comum, eis uma afecção a que sou ligeiramente avesso. Pontualmente sim. Mas de forma mais prolongada incomoda-me estar entre pessoas que não desapegam e nunca querem estar sós, no anonimato, ou entre dissonâncias, e que se pelam por  montar discursos muito articulados sobre a necessidade de estar em grupo. Pessoas sempre a subir os estores e que para tudo acham argumento e nunca gaguejam e prosseguem juntas até ao fim, sem nunca se despedirem.

Nunca tive um só grupo de amigos ou um só tipo de amigos.    

Nunca me adaptei a grupos, do mesmo modo que um cardume grande de palavras da minha língua nunca me adoptou.

Ardem-me nos olhos as coisas que não sei nomear, mas uma palavra que mil vezes se relaxa no balde das coisas recalcadas, à qual só volto a encontrar irritantemente por acaso no velcro de uma página, que pretende senão capacitar-me de que nunca deixei de estar só?

Creio que somos um quarto sem ninguém reflectido nos espelhos. Quando alguém aparece na superfície prateada há festa. Mas é como uma batida rítmica, tem intervalos. Querer mobilar o quarto com uma multidão não neutraliza a mudez do espelho. Mesmo que seja um espelho de Veneza.

Pode ser lancinante o sentido comum e raramente uma partilha que é de todos e para todos é justa. E receio que a sociedade da comunicação se esteja a transformar numa sociedade holística, numa daquelas comunidades que se concebem a si mesmo como um todo. Mete medo!

Um dia destes só temos por nós as palavras que não nos gramam. Que elas nunca transijam! Eu por mim abomino-as!

31 Ago 2017

Trabalho de Casa

20/08/2017

Ia-se a banhos. Quando se vive nos trópicos isso deixa de fazer sentido. E então, por alternativa, vai-se a Macau. Será o meu caso. Eis-me (quase) de véspera.

Inquieto por ir a Macau. A Marlene Dietrich já não deambula pelas imediações e dizem que quem viaja leva consigo as suas paisagens como dantes os viajantes costumavam levar consigo os seus penicos  de porcelana. Falta-me o penico. Bom, há as sombras chinesas. Gosto de sombras, sobretudo ao vento.

Ocorre-me um episódio que contou o John Cage. Na sua infância, houve um amigo do pai que, findo o jantar em família, à despedida lhe desarrumou o cabelo, enquanto lhe anunciava, Rapaz, falei com os teus pais e, como no próximo sábado vou à Grécia e não me apetece ir sozinho, levo-te. Mas os gregos detestam quem lá vai e está desinformado, tens uma semana, vê o que podes fazer. Cage correu para a biblioteca do bairro. Devorou o Homero, O Banquete e o Timeu do Platão, leu o Hesiodo e uma História da Grécia. No sábado acordou às cinco da manhã e fez a sua mala. Remoeu uma ode de Píndaro, que havia decorado, para o caso de lhe ser perguntado. Ainda hoje poderia esperar sentado. O amigo do pai não apareceu. Em casa ninguém pronunciou uma sílaba para abordar a banhada, o homem ou a viagem. Sentiu-se ludibriado. Ou pior, devastado. Porque entretanto tinha lido o Homero e nunca mais foi o mesmo.

Isto é que é pedagogia!

Pus-me eu também a ler sobre a estética Taoista. Estou tramado.

Quando o Camilo Pessanha por lá se imiscuía – entre esteiras de ópio e a fala em papel de arroz de uma rapariga com nome de águia – Macau, como todas as províncias, devia ser madrasta, no sentido em que arruinava as liberdades. Há duas formas de arruinar a liberdade. Por coacção da lei e dos costumes, sob o ritmo dos não-ditos, ou quando se constata que executar o nosso livre arbítrio não muda nada, ou muito pouco. Aí, um tipo, como dizia o Pessoa, “liberta-se para dentro.” Foi, cheira-me, o caso de Pessanha.

Libertou-se em primeiro lugar do corvo do tempo. O tempo é um corvo que bebe o nosso sangue e se alimenta das escórias que nos navegam as vísceras. E bica e bica até romper os tecidos. Porém, na China, Pessanha aprenderá que afinal a vida é consumação e retorno. Mudam-se as aparências mas não o miolo de que são feitas. Pelo que podemos candidatar-nos a beber igualmente nas veias do tempo, sugando-lhe o seu extremo vagar.

Aí o tempo liberta-nos, vai incomodar outros.

Não sei se é isso que irei fazer a Macau. Mas não falo cantonês e o meu inglês é a gaguez do hamster que encontrou o urso polar. E gostaria de lá ter ido com menos cabelos brancos e menos apegado à Circe.

Macau, la petite, espera-me.

21/08/2017

Fazendo o trabalhinho de casa para aterrar em Macau com um olhar menos esbugalhado do que é costume vi-me embutido na paisagem que descrevo no soneto:

A gorda ou o combate de estéticas: “Cada pernoca vale o velame de um iate / inflado em carne por ser nela o vento interior /aos tecidos. O tom de pele é mate. /É o namorado quem recheia // com chocolate o montanhoso pico /do sorvete, e, a avaliar p’lo entusiasmo /com que lhe enche de ideogramas/ a baunilha, aprecia. ‘Tico-Tico sardanico… ‘, //mimoseia o aventureiro. Não caberia/esta imperiosa coxa num haiku japonês /escrito por sindico e que, delicado, só sugira… //Ou traria à liça embondeiros, tsunamis, /e a onda de Hokusai, que, pasma, mira/o prenhe refego do Índico? “

22/08/2017

A propósito de chegar aos lugares tarde, recordo outra história. A de Marcel Conche, o grande especialista francês dos pré-socráticos. Julgava-se o erudito aos setentas e muitos aposentado. E então começa a receber cartas de uma jovem de trinta, da Sardenha, a Emily. As cartas eram atordoadoras, de prolixas e belas. Propunha-se a jovem a examinar com ele os subterrâneos vasos comunicantes entre os pré-socráticos, os sufis e os taoistas. E como não queria perder tempo aterrou em Paris.

Foi uma ventania que fez soar todos os carrilhões adormecidos na líbido embalsamada de Marcel. Em dois meses viu-se o filósofo várias vezes nu (salvo seja) e arrastado pela lotaria do pensamento. A sageza foi à viola, tudo o que ele pensava comandar. Num ápice, intempestivamente como havia chegado ela partiu. Deixando o filósofo a nu (salvo seja) com as suas insuficiências. Oh pá, se o objecto do desejo se escapuliu entre os buracos da chuva há que fazer das tripas coração! Foi o que fez o pobre Marcel. A dobrar os oitenta foi aprender chinês e aos oitenta e cinco lançou uma tradução mais comentários ao Tao te King, de Lao Tse. Parece que o livro é notável.

Acho esta história um exemplo. Era esta a coragem que desejava para mim. Mas temo que o meu coração não passe de um fruto, não seja uma tripa.

23/08/2017

Transcrevo: “o confucionismo parte do pressuposto de que o homem é bom. Pelo contrário, no Ocidente, hoje, toda a organização social se baseia no pressuposto de que o homem é mau: homo homini lupus. Uma profecia que se autoconfirma. Quando as relações humanas se estabelecem pensando que o homem é mau, o homem acaba por sê-lo… “. Sou interrompido pela minha filha que há dois dias trauteia em voz alta, sem piedade (ensaia para algum Got Talent) , uma canção dos Abba. Infatigável.

Calma, o homem é bom, não há tensões entre o homem e a sua incógnita.

25 Ago 2017