Vidas Passadas – nem todo o amor é para ser vivido

Trago à discussão o filme que teve duas nomeações aos Óscares em 2024, Vidas Passadas (Past Lives), da realizadora e argumentista Celine Song. O título remete para a narrativa romântica, de vidas e encontros predestinados, e o filme trabalha de uma forma extremamente delicada isso mesmo: o encontro e o desencontro.

A história do filme é seguinte: Nora Moonemigra da Coreia do Sul com a sua família aos 12 anos e deixa para trás um amor de escola, que volta a reencontrar duas vezes ao longo do tempo. A primeira vez de forma digital, 12 anos depois, e a segunda, presencialmente, 12 anos depois disso. O filme baseia-se essencialmente no conceito coreano de in-yeon, um conceito budista de que existem ligações acumuladas ao longo das vidas, uma ideia de “destino” ou de “fado”. Há vários ângulos que poderão ser discutidos a propósito do filme (sem querer partilhar muitos spoilers), mas gostaria de trazer dois em particular. Um deles é o da sensualidade do silêncio, e o outro, a importância dos amores não vividos.

O filme tem uma cinematografia que nos oferece silêncios e olhares de grande profundidade. Nota-se que há desejos sem beijos, sem carícias, sem nudez. Os espectadores são transportados para momentos de ambiguidade que exigem maturidade emocional. Um mergulho nesses domínios não-verbais onde as palavras deixam de ser suficientes. O que não é dito, os pequenos frames que nos deixam suspensos no tempo e no pensamento, intensificam a sensualidade porque deixam parte à imaginação. Apesar de o filme, num primeiro momento, sugerir um triângulo romântico – isto porque Nora Moon já estaria casada quando se encontra presencialmente com a sua paixão de escola – conseguiu não cair em nenhum cliché, nem em nenhuma fórmula conhecida. Deixa-nos a pensar sobre muita coisa: sobre vidas, expectativas, amor, imigração, desejos, sonhos. E a sensualidade não se perde, sustenta-se na delicadeza das expressões faciais, e dos pequenos detalhes do cenário. Dentro da incerteza abrem-se espaços de possibilidade, oferecidos ao espectador, para que fizesse parte da história, como se uma co-criação fosse possível. Não há sensualidade bruta, mas uma compreensão sobre ela. Trazer esse exercício para o grande ecrã parece-me necessário, neste mundo que tenta puxar pelas certezas e por contrastes definidos e inflexíveis.

E depois, claro, toda esta atmosfera traz-nos ainda outra realidade: que o amor e o erotismo vivem tanto de grandes planos divinos como de escolhas. A forma como as vidas não-vividas são elaboradas, quase como fazendo o luto por elas, é o tema central do filme. As vidas escolhidas assumem a morte de outras, e estes amores defuntos ainda existem no pano de fundo, alimentando desejos e amores que permanecem ativos. Estas perdas são também atravessadas pela experiência da imigração: pelas línguas que se perdem e se ganham, e pelas versões do eu que ficam ancoradas a um lugar que já não existe. O luto das nossas múltiplas versões, ou das relações que não se tiveram, não deixam de ser terreno fértil. Não precisamos de olhar para eles como uma perda inconsolável, mas uma perda que faz parte da experiência, acolhida e cuidada, geradora de significado e de pertença a outros universos. A maturidade afectiva que o filme elabora pode não ser muito sexy no grande ecrã, mas é essencial à vida, e às versões maturadas da mesma. O filme mostra-nos que o real – o vivido – pode ser romântico. Sem grandes personagens, sem grandes heroínas ou vilões, só pessoas a darem sentido ao mundo que as rodeia.

Diz-nos a tradição coreana, evocada no filme, que os encontros verdadeiramente significativos resultam de inúmeras ligações acumuladas ao longo do tempo, por vezes pensadas como atravessando várias vidas. No folclore chinês, japonês e coreano, de base budista, fala-se de um fio vermelho atado a cada bebé que nasce, ligando-o às pessoas que irá encontrar ao longo da vida. Entre destino e possibilidade, há uma beleza indiscutível no momento em que cada pessoa se encontra: nas pessoas com quem se cruza, e também naquelas que deixa para trás. Vidas Passadas lembra-nos que o amor não vive apenas dos grandes triunfos ou dos gestos extraordinários, mas das escolhas que fazemos — e das perdas que aprendemos a integrar. Nem todo o amor é para ser vivido; alguns existem para nos ensinar a viver.

21 Jan 2026

SJM com perdas de 2,01 mil milhões de dólares de Hong Kong

A SJM Holdings, empresa que controla a concessionária SJM, registou perdas de 2,01 mil milhões de dólares de Hong Kong no ano passado, de acordo com os resultados anunciados ontem, através de um comunicado.

Em comparação com o ano de 2022, os resultados apresentam uma melhoria significativa, dado que as perdas anteriores tinham sido de 7,80 mil milhões de dólares de Hong Kong.
A melhoria nos resultados da empresa foi destacada pela presidente da empresa Daisy Ho: “Os resultados da SJM Holdings para 2023 mostram uma recuperação substancial nas receitas de jogo e não jogo, em comparação com os anos de pandemia”, afirmou a responsável em comunicado. “Além disso, as nossas operações no quarto trimestre mostram um forte crescimento sequencial do EBITDA ajustado, bem como um progresso constante na melhoria de aproveitamento do Grand Lisboa Palace”, foi acrescentado.

A nível das receitas da empresa, a maior fatia resulta do jogo com um montante de 20,06 mil milhões de dólares de Hong Kong. Este número representa um crescimento de 229,3 por cento em comparação com 2022, quando o montante tinha sido de 6,09 mil milhões de dólares de Hong Kong.

 

Outras receitas

No que diz respeito às receitas ligadas ao sector não jogo, como com os serviços de hotel, restauração, rendas de espaços, o montante cifrou-se em 1,82 mil milhões de dólares de Hong Kong. Também nos elementos não-jogo houve uma diferença significativa, com as receitas a crescerem 191,3 por cento, de 623 milhões de dólares de Hong Kong.

Segundo o comunicado, no final do ano passado, a SJM detinha uma quota de mercado de 11,9 por cento das receitas brutas do jogo em Macau. Em relação ao sector do mercado de massas, a quota de mercado era de 14,8 por cento. A nível do jogo VIP, a quota do mercado era de 3,5 por cento, medida pelas receitas brutas.

A SJM é responsável pelos casinos Lisboa, Grande Lisboa, na Península de Macau, e ainda Grande Lisboa Palace, no Cotai. Além disso, é responsável por vários acordos com casinos satélites, como acontece com o Ponte 16, Kam Pek ou L’Arc.

7 Mar 2024