Demorei demasiado tempo a abordar a questão palestiniana neste espaço. Não sei explicar a demora. É um tema complexo e emocionalmente exigente. Fico perplexa ao ver como, nos meus círculos sociais, a legitimidade da luta palestiniana é amplamente reconhecida, enquanto noutros espaços, qualquer apoio ao povo palestiniano é rapidamente confundido com uma atitude anti-semita.
Vivemos num mundo de extremos, onde persiste a divisão em realidades paralelas, sem margem para o diálogo. E, assim, a situação crítica continua. O que mais posso dizer, senão que sinto revolta? Tempero a minha comida com za’atar todos os dias como um gesto simbólico para manter viva a consciência de um povo que sofre de fome e privação. Assistimos a uma limpeza étnica sem precedentes, e a ocupação palestiniana, os campos de refugiados e os escombros são o epicentro da degradação sociopolítica do mundo moderno.
No Dia da Mulher, tive a oportunidade de ouvir Shahd Wadi, investigadora e escritora palestiniana, que tem explorado a ocupação e as artes como forma de testemunho das vidas e experiências das mulheres. Recentemente, lançou o livro de poesia “Chuva de Jasmim”, onde se entrelaçam vivências e línguas. Shahd escolheu Portugal como refúgio enquanto aguarda o dia em que possa regressar à aldeia da sua família, de onde a sua avó foi forçada a partir em 1948. Nessa conversa informal, discutiram-se questões fundamentais: narrativas de mulheres, a imposição do feminismo ocidental que insiste em ver a mulher árabe como vítima, o corpo como instrumento de memória de um povo em extermínio.
O conceito de interseccionalidade revela-se essencial neste contexto, pois permite compreender a resistência de um povo em paralelo com a emancipação social das mulheres. Trata-se de uma luta contra a ocupação, a injustiça e a violência sistémica. As histórias partilhadas por Shahd Wadi trouxeram uma nova luz à forma como percebemos a criatividade e resiliência das mulheres palestinianas. Como aquela mulher que, ao ver um homem a ser preso pelos soldados israelitas, lhe passa o bebé para os braços e encena uma discussão, fingindo estar farta das detenções constantes do marido, deixando-a sozinha com a criança. Os soldados, desconcertados com a situação, libertam-no. O homem devolve o bebé a essa mulher, que nunca antes tinha visto. Ou como, diante da ameaça de violação, algumas mulheres se despem, destruindo o prazer que os agressores esperam obter ao roubar-lhes a honra.
Refletir sobre a resistência das mulheres palestinianas é também reconhecer como o seu corpo se tornou um alvo de guerra. É o corpo que gera e que garante a continuidade de um povo em risco de extermínio. As restrições ao acesso aos cuidados de saúde sexual e reprodutiva não são acidentais. Um checkpoint pode impedir uma mulher de chegar ao hospital para dar à luz, pondo em perigo a vida do bebé e da mãe. Pequenos detalhes como este evidenciam a dimensão insidiosa do processo de limpeza étnica em curso.
Shahd Wadi partilhou estas e muitas outras histórias, assumindo um papel essencial na preservação da experiência palestiniana. Deu-nos permissão para torná-las nossas, integrando-as no nosso imaginário político de luta e resistência. No Dia da Mulher, e em tantos outros, que se reflitam sobre as mulheres palestinianas que continuam a resistir, não apenas pelo direito de decidir sobre os seus corpos e futuros, mas também pelo direito de existir com dignidade, liberdade e soberania.
A sua luta é um testemunho de coragem e resiliência e recorda-nos que o feminismo, em qualquer parte do mundo, deve adaptar-se às realidades locais. As suas histórias e experiências fazem parte da luta pela liberdade do povo palestiniano, uma luta que pertence a todos.