Oxfam | Relatório diz que fortunas dos mais ricos aumentaram em 2024

Um relatório divulgado ontem pela Oxfam indica que as fortunas dos mais ricos do mundo aumentaram dois biliões de dólares no ano passado, o equivalente a 5,7 mil milhões de dólares por dia. A organização não governamental sugere medidas que favoreçam a igualdade e alerta para os riscos da concentração de riqueza e poder

 

Chama-se “Takers not Makers – The unjust poverty and unearned wealth of colonialism” [Os que recebem e não criam – A injusta pobreza e a riqueza não merecida do colonialismo] e é o mais recente relatório da Oxfam, organização não governamental (ONG) que reúne 19 países. O documento chama atenção para a pobreza no mundo e para as desigualdades na distribuição da riqueza.

O relatório divulgado ontem conclui que a desigualdade não dá sinais de abrandar. Isto porque, no ano passado, a riqueza combinada de multimilionários, a nível global, aumentou dois biliões de dólares, o equivalente a 5,7 mil milhões de dólares por dia, segundo a Oxfam.

Tal significa que cresceu a um ritmo três vezes superior ao do ano anterior, de acordo com a ONG.

Esta foi a principal conclusão do relatório divulgado ontem por ocasião do início do Fórum Económico Mundial de Davos, que todos os anos reúne os principais líderes políticos e económicos do mundo na cidade alpina.

Só no último ano, refere o relatório, surgiram em média quase quatro novos multimilionários por semana, dado que a Oxfam põe em contraste com os dados da pobreza do Banco Mundial, que estima que o número de pessoas que vivem com menos de 6,85 dólares por dia quase não se alterou desde 1990.

Em 2024, havia em todo o mundo 2.769 multimilionários, em vez de 2.565 no ano anterior, e a sua riqueza combinada aumentou de 13 para 15 biliões de dólares em apenas 12 meses. É o segundo maior aumento da riqueza combinada dos multimilionários num único ano desde que há registo.

Mais 100 milhões

A riqueza conjunta dos dez homens mais ricos do mundo aumentou, em média, quase 100 milhões de dólares por dia, indica o estudo. Mesmo que perdessem 99 por cento da sua riqueza de um dia para o outro, “continuariam a ser multimilionários”.

A ONG prevê que, em menos de uma década, surja o primeiro “bilionário” do planeta e não exclui a possibilidade de haver pelo menos cinco. A nível mundial, o relatório revela que 36 por cento da riqueza dos mais ricos é herdada e 61 por cento é também marcada pelo clientelismo e/ou ligada ao poder monopolista.

A Oxfam baseia-se nos dados do ‘ranking’ de riqueza da revista Forbes, que mostram que todos os multimilionários com menos de 30 anos herdaram a sua riqueza e, segundo dados do banco suíço UBS, nos próximos 20 a 30 anos, mil dos multimilionários actuais deixarão aos seus herdeiros mais de 5,2 biliões de dólares.

Dinheiro do Sul

Para a Oxfam, o sistema “faz com que se movam grandes fluxos de dinheiro do Sul global para o Norte, beneficiando a população mais rica”, numa espécie de “colonialismo moderno”.

Só em 2023, através do sistema financeiro, terão sido retirados 30 milhões de dólares por hora dos países do Sul global para o 1 por cento mais rico dos países do Norte global, como o Reino Unido, os Estados Unidos e França.

Deste modo, os “super-ricos” dos países do Norte global controlam 69 por cento da riqueza mundial, concentram 77 por cento da riqueza conjunta de todos os multimilionários e representam cerca de 68 por cento do total, embora constituam apenas 21 por cento da população mundial.Para contextualizar esta desigualdade, a Oxfam refere o problema da habitação em Espanha e estima que “os cinco futuros bilionários do planeta terão tanto dinheiro que poderão comprar todas as casas do país”.

Em contraste, é chamada a atenção para o facto de a “classe trabalhadora lutar para sobreviver.” “Quem vive em pobreza em todo o mundo continua a enfrentar múltiplas crises, pois as cicatrizes da pandemia ainda estão connosco sob forma de dívidas impagáveis, salários mais baixos e preços de géneros alimentícios muito mais elevados”.

Além disso, “os conflitos também estão a aumentar, o que contribui para a pobreza, fome e desigualdade”, sem esquecer “o enorme impacto humano da degradação climática que aumenta todos os anos, com mortes causadas por calor excessivo, condições climáticas extremas e fome”.

A Oxfam diz mesmo que a reeleição de Donald Trump como Presidente dos Estados Unidos, em Novembro último, “deu um enorme impulso às fortunas dos bilionários, enquanto as suas políticas estão preparadas para atiçar ainda mais as chamas da desigualdade”.

A ONG destaca também dados do Banco Mundial no seu mais recente relatório sobre pobreza, onde é referido que “se as actuais taxas de crescimento se mantiverem e a desigualdade não diminuir, será necessário mais de um século para acabar com a pobreza”. O documento mostra que “se reduzirmos a desigualdade, a pobreza poderia ser eliminada três vezes mais depressa”.

Um dos destaques vai para a contribuição das mulheres para a riqueza de poucos. “As mulheres racializadas que vivem na pobreza, especialmente as que estão no ‘Sul Global’, continuam a subsidiar a economia global. Estima-se que todos os dias as mulheres contribuem com 12,5 biliões de horas de trabalho não remunerado, acrescentando pelo menos 10,8 triliões de dólares em valor à economia global”. Nesse contexto, “a contribuição económica do seu trabalho de prestação de cuidados é três vezes superior ao valor financeiro da indústria tecnológica mundial”.

Um novo colonialismo

É certo que a descolonização de regiões colonizadas por potências europeias começou a ocorrer com mais força a partir da Conferência de Bandung, em 1955, mas persistem sinais de desequilíbrio de poder entre povos e países que explicam, em parte, a desigualdade de riqueza que ocorre hoje.

A ideia de um novo colonialismo, no sentido em que regiões como a Europa ou América do Norte continuam a explorar os países do Sul, sobretudo os menos desenvolvidos, está bem patente no relatório da Oxfam. “A ascensão de uma nova oligarquia em que a herança, o clientelismo e o poder de monopólio geram riqueza extrema. Sem controlo, estamos prestes a ver a maior transferência da maior riqueza geracional da história da humanidade, dificilmente ganha, dificilmente tributada”.

O que se passa hoje é um panorama de “colonialismo bilionário”, descreve a Oxfam, com a “transferência de riqueza não apenas para os ultra-ricos, mas desproporcionadamente para os ultra-ricos do Norte Global”. Há um “acerto de contas com o colonialismo não só como uma história de extração brutal de riqueza, mas também como uma força poderosa que conduz a níveis extremos de desigualdade hoje”.

A Oxfam chama também atenção para uma nova onda de colonialismo patente nas acções das grandes instituições económicas e financeiras que decidem o rumo da economia global, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), a Organização das Nações Unidas (ONU) e o Banco Mundial. “As instituições globais, os mercados financeiros e as empresas multinacionais, todas elas moldadas pelo colonialismo e domínio dos países ricos, continuam a facilitar a transferência sul-norte de triliões de dólares todos os anos.”

Para a Oxfam, a ONU, FMI e Banco Mundial “foram criados há 80 anos, perto do fim do período colonial histórico, e a sua governação desigual pouco se alterou desde então”.

“Os países do G7 continuam a deter 41 por cento dos votos no FMI e Banco Mundial, apesar de terem menos de dez por cento da população mundial. Os líderes do Banco Mundial e do FMI continuam a ser decididos pelos Estados Unidos e Europa, respectivamente. De igual modo, os países europeus e outras nações do Norte Global detêm 47 por cento do total de assentos no Conselho de Segurança da ONU, apesar de representarem apenas 17 por cento da população mundial”.

De referir que “o FMI e o Banco Mundial continuam a ter uma enorme influência no sistema económico global e, em particular, nas políticas económicas dos países de baixo e médio-baixo rendimento”. Estas entidades, segundo a Oxfam, “insistem sistematicamente na implementação de cortes em despesas críticas”.

Um dos exemplos apresentados é do FMI, que “exige que os países devedores priorizem o pagamento das dívidas a credores acima de tudo e que implementem políticas que incluam a privatização, liberalização do comércio e redução dos défices públicos para obter novos empréstimos”. “Estas políticas prejudicam o acesso a uma educação de qualidade e a preços acessíveis e cuidados de saúde, com um impacto negativo na saúde pública”, acrescenta-se.

O que fazer?

A Oxfam propõe uma série de medidas para mitigar a crescente desigualdade entre os mais ricos e o resto do planeta, sugerindo, entre outras, que os Governos se comprometam a garantir que o rendimento dos dez por cento mais ricos da população não excederá o dos 40 por cento mais pobres, tanto a nível nacional como mundial.

O relatório insta também a um aumento dos impostos sobre as grandes fortunas, através de um sistema fiscal internacional concebido pela ONU, e a eliminação dos paraísos fiscais. Com Lusa

21 Jan 2025

Wong Shek Hung, directora da Oxfam para Macau, Hong Kong e Taiwan: “Covid afectou os mais pobres”

Em Macau desde 2012, a organização não-governamental internacional Oxfam tem lutado por aumentos do salário mínimo, mantendo um diálogo constante com o Governo. A directora da representação da Oxfam para Macau, Hong Kong e Taiwan, Wong Shek Hung, alerta que, mesmo com a recuperação da economia, muitas pessoas precisam ainda de apoio financeiro

 

Que balanço faz da actividade da Oxfam desde que se instalou no território em 2012?

Ao longo dos anos, a Oxfam tem-se concentrado em três áreas-chave: defesa de direitos [humanos], educação e angariação de fundos. Relativamente à defesa dos direitos, temos trabalhado em políticas laborais e salariais para garantir que os direitos e salários dos trabalhadores mais vulneráveis sejam protegidos. Temos vindo a fazê-lo através da elaboração proactiva de propostas ao Governo de Macau, respondendo a agendas políticas e afins. Também estamos a apoiar activamente e a trabalhar com organizações locais para desenvolver programas domésticos, incluindo a recolha de excedentes alimentares e a sua redistribuição a famílias que vivem na pobreza, oferta de aulas de reforço gratuitas a crianças de famílias mais pobres, apoio a pessoas que recolhem cartão [na rua] e outros programas de envolvimento público. No domínio da educação, temos organizado workshops e trabalhado com escolas para sensibilizar [os jovens] para as várias facetas da pobreza e para formar a nova geração, bem como o público em geral, como cidadãos globais. Através de uma série de actividades experimentais e interessantes, como o teatro interactivo, visitas à comunidade, jogos e outras, temos obtido o apoio crescente de um vasto leque de escolas e do público ao longo dos anos. Realizámos mais de 300 sessões por ano e, recentemente, trabalhámos também com a Direcção dos Serviços de Educação e Desenvolvimento da Juventude (DSEDJ), ministrando workshops de educação para a vida a alunos do ensino básico e secundário.

Um dos últimos eventos anunciados pela Oxfam foi a corrida na Torre de Macau, que tem como objectivo a recolha de fundos.

Sim. No que diz respeito à angariação de fundos, temos realizado alguns eventos de grande escala, que têm sido bastante populares entre as pessoas locais: o Oxfam Rice Event e o Oxfam TowerRun [ver texto secundário]. A edição deste ano foi mesmo reconhecida oficialmente pela Tower Running World Association como um evento de 120 pontos. Em termos de novas iniciativas, também introduzimos recentemente o Dress Green Day [Dia do Vestido Verde] e trabalhámos em conjunto com a DSEDJ para organizar novos workshops para estudantes, produzimos livros, entre outras coisas. O Dia do Vestido Verde é uma iniciativa em que todas as escolas e organizações participantes se vestem de verde durante um dia e doam à Oxfam o que gastariam num almoço. Podem também participar gratuitamente numa actividade educativa organizada pela Oxfam em Macau, para promover a sensibilização do público e aprender sobre a situação alimentar em vários locais espalhados pelo mundo.

Relativamente a matérias sociais, nomeadamente a questão do aumento do salário mínimo, como tem sido o diálogo com o Executivo?

Temos submetido, de forma pró-activa, diversas propostas ao Governo de Macau, respondendo às políticas estabelecidas e ao salário mínimo. Temos encorajado o Governo a aumentar o salário mínimo com base no Índice Mínimo de Subsistência, para que o processo de revisão [do montante] seja mais transparente. O actual salário mínimo não é revisto com a frequência suficiente (apenas de dois em dois anos) e os seus aumentos não acompanham a inflação. Tendo em conta o facto de um trabalhador ter, muito provavelmente, de cuidar de outra pessoa, necessitando de 7.990 patacas [mensais], com base no Índice Mínimo de Subsistência, os trabalhadores não deveriam ganhar menos de 38,4 patacas por hora. [Actualmente o aumento do salário mínimo está a ser discutido em sede de concertação social, com o Governo a propor um aumento que varia entre 34 e 36 patacas por hora]. Também reunimos com a Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental, a Comissão Eleitoral do Chefe do Executivo e várias pessoas e departamentos governamentais no passado.

De uma forma geral, a Oxfam considera que Macau e Hong Kong têm problemas sociais semelhantes, ou são diferentes, tendo em conta a diferença das suas estruturas económicas?

Tal como em Hong Kong e no resto do mundo, a covid-19 afectou os mais pobres de Macau, as empresas e [influenciou] a taxa de desemprego. Nos últimos três anos, recebemos mais pedidos de apoio de pessoas que vivem em situação de pobreza em Macau. Através dos nossos apoios com alimentos, por exemplo, encontrámos mais famílias monoparentais e idosos em situação de necessidade. Apesar de a economia ter melhorado, muitas pessoas precisam ainda de apoio. É por isso que medidas como o aumento do salário mínimo seriam muito benéficas para os segmentos populacionais mais vulneráveis de Macau.

As alterações climáticas é outra das áreas de actuação da Oxfam. O que tem sido feito em Macau neste domínio?

Mais justiça climática é uma das áreas de preocupação da Oxfam. Para aumentar a sensibilização para a questão e combater as alterações climáticas, satisfazendo ao mesmo tempo as necessidades dos mais pobres, temos desenvolvido um programa de recolha de excedentes alimentares e redistribuição a famílias que vivem na pobreza. [Esta medida] incorpora elementos de redução da pobreza e, ao mesmo tempo, protecção ambiental. Promovemos este programa junto de lojas, a fim de obter o seu apoio na doação de excedentes alimentares, e convidamos [também] o público e os estudantes a recolher excedentes alimentares. Temos também um programa dirigido aos colectores de papelão, com o objectivo de aumentar a quantidade de papel recolhido para reciclagem, bem como apoiar os colectores de papelão a melhorarem os ritmos de trabalho e os seus rendimentos.

4 Set 2023

Décima edição da corrida da Oxfam acontece em Outubro

Estão abertas as inscrições para a décima edição da corrida “Oxfam TowerRun”, que decorre dia 22 de Outubro na Torre de Macau e que se destina a angariar fundos para as comunidades mais vulneráveis. Segundo um comunicado da organização não governamental, com representação em Macau desde 2012, os participantes terão de cumprir, de forma individual ou em equipa, o desafio de subir 1.298 degraus desde o rés-do-chão da Torre de Macau até ao 61.º andar.

A ideia é que, associado ao esforço físico e vontade de competir, exista também uma vontade de ajudar ao processo de recolha de fundos “para projectos de desenvolvimento e redução da pobreza da Oxfam, permitindo que as pessoas em situação de pobreza sejam mais resistentes face às alterações climáticas”.

Além dos participantes na corrida, a Oxfam desafia ainda o público a criar as suas próprias campanhas de recolha de fundos, tendo sido criados prémios para o efeito, apoiados por patrocinadores.

Seca e fome

No mesmo comunicado, a Oxfam fala um pouco da sua actuação em vários países do mundo numa altura em que as alterações climáticas “estão a provocar fenómenos meteorológicos extremos em todas as regiões do mundo”, sendo que “as pessoas mais pobres são frequentemente as mais atingidas durante as catástrofes”.

Só na África Oriental há cerca de 30 milhões de pessoas a passarem por períodos de crise sem comida. “A Oxfam respondeu rapidamente à crise alimentar na África Oriental, prestando ajuda imediata, mas há muito mais a fazer. Os participantes da ‘Oxfam TowerRun’ podem ajudar as pessoas que enfrentam uma seca grave e a crise alimentar, bem como as comunidades pobres de todo o mundo a combater as alterações climáticas, juntando-se ao evento”, aponta a organização.

Uma vez que este é o décimo aniversário do evento, a Oxfam vai ainda criar medalhas personalizadas para todos os participantes que consigam chegar ao topo da Torre de Macau.

No território, a Oxfam assume estar comprometida em “promover uma cidadania global no combate à pobreza e à desigualdade”. A ONG publica com regularidade relatórios que alertam para cenários de pobreza e catástrofes, além de desenvolver trabalho humanitário no terreno.

16 Ago 2023

Enriquecer com a fome

Ou lucrar com a dor, como denuncia logo no título o relatório sobre desigualdades sociais globais recentemente publicado pela Oxfam, organização não governamental que se tem dedicado ao estudo – e alguma acção – nos campos vários das injustiças sociais que um pouco por todo o mundo assinalam a nossa contemporaneidade.

Neste caso, o relatório descreve o impacto avassalador da pandemia de covid-19 sobre as desigualdades no planeta: nestes dois anos apareceram mais bilionários enquanto mais alguns milhões de pessoas foram empurradas para situação de pobreza.

Estas são as consequências assimétricas da pandemia numa economia global que acolheu o vírus num contexto generalizado de liberalização de mercados, desregulação de movimentos e transações comerciais e financeiras, evasão fiscal generalizada entre a população mais rica do planeta, limitação crescente da acção dos estados, destruição sistemática dos mecanismos de protecção social e dos estados-providência, desarticulação das formas de organização de trabalhadores, enfim de isolamento sistemático das pessoas perante os mecanismos tenebrosos e implacáveis dos mercados – ou das decisões que em nome do livre funcionamento dos mercados um pequeno número de pessoas vai tomando na condução dos negócios globais contemporâneos.

O relatório dá conta da emergência de novos bilionários durante a pandemia e da dimensão do seu poder económico, ao mesmo tempo que descreve processos económicos variados que condenam à fome e à miséria milhões de pessoas no planeta: na realidade, há mecanismos que provocam estes dois fenómenos ao mesmo tempo: a relativa escassez e o decorrente aumento de preços de bens alimentares ou de energia impõem a miséria de muitas famílias espalhadas pelo planeta, enquanto alimentam lucros que engordam ainda mais os accionistas das grandes empresas que controlam estes mercados globais. É desse duplo mecanismo que se faz o significativo aumento das desigualdades em período de pandemia.

Os números revelam cruamente a brutalidade desta transferência massiva de riqueza dos mais pobres para os mais ricos que acompanhou a propagação do vírus: no seu conjunto, os bilionários (pessoas com riqueza superior a mil milhões de dólares) nos sectores da alimentação e da energia ganharam mais mil milhões de dólares a cada dois dias, enquanto os preços atingiam os níveis mais altos das últimas décadas; ao mesmo tempo, a doença e os aumentos de preços levaram 263 milhões de pessoas em todo o mundo para situações de pobreza extrema. Os cálculos da Oxfam assinalam aliás uma tenebrosa coincidência: o tempo que demorou a “criar” mais um bilionário durante dois anos de covid (apareceu um novo a cada 30 horas) foi quase o mesmo que demorou a condenar à pobreza extrema um milhão de pessoas (33 horas).

Estas desigualdades ainda mais galopantes do que as que tínhamos vivido nas últimas décadas de hegemonia do pensamento e das políticas económicas neo-liberais traduzem-se em diferenças nos rendimentos, no acesso à saúde entre grupos étnicos ou entre países e zonas geográficas, beneficiando poderes políticos e económicos oligárquicos, sobretudo ligados aos sectores das tecnologias digitais, alimentação e, naturalmente, saúde. Mais uma vez, nem concorrência, nem justiça: assiste-se a uma concentração ainda maior de poder e riqueza, com apropriação privada de benefícios e lucros em actividades de que depende a sobrevivência humana (como a saúde e a alimentação) e cujo progresso nas últimas décadas se deveu em larga medida a subsídios públicos à investigação científica e tecnológica (saúde, alimentação e tecnologias digitais).

Os exemplos de como a pandemia beneficiou as grandes empresas destes sectores são também inequívocos: no sector farmacêutico, 40 novos bilionários apareceram durante o período em que o covid matou 20 milhões de pessoas no planeta; no sector alimentar foram 62 os novos bilionários que acompanharam a difusão planetária do covid-19, em grande medida graças às subidas de preços alimentares (quase 34 por cento em 2021 e mais 23 por cento previstos para 2022, a maior subida jamais registada desde 1990, quando a ONU começou a contabilizar este indicador a nível global); o sector tecnológico, com a sua preponderância na distribuição global e local de produtos e serviços, também beneficiou largamente da pandemia, com os lucros das cinco maiores empresas (Apple, Microsoft, Tesla, Amazon e Alphabet) a duplicar em 2021 os lucros de 2019. Hoje, estas 5 empresas estão entre as 21 maiores entidades económicas do mundo, considerando o PIB dos países e a capitalização de mercado das empresas. O famigerado proprietário da Tesla viu a sua fortuna aumentar quase 700 por cento desde 2019 e continuaria entre as 0.0001 por cento pessoas mais ricas do mundo mesmo que perdesse 99 por cento da sua riqueza.

Na realidade, no período desta pandemia apareceram 573 novos bilionários. Em conjunto, a sua riqueza aumentou 42 por cento. Os rendimentos deste restrito grupo da população mundial representam hoje quase 14% do PIB global, quando eram apenas 4.4 por cento em 2000. As 10 pessoas mais ricas têm a mesma riqueza do que as 40 por cento mais pobres a viver neste despropositado planeta. As condições com que se vive cada dia ou com que parte para enfrentar crises severas como as da pandemia impõem também desigualdades na “resiliência”, como se diz agora, de cada pessoa ou de cada grupo: há grupos mais vulneráveis que outros e com mais condições para recuperar das adversidades. Na realidade, há grupos que sofrem e há grupos que beneficiam destas crises.

Este relatório também lembra, por exemplo, que quase 3 milhões e meio de pessoas negras norte-americanas estariam vivas se a sua esperança média de vida fosse igual á das brancas, ou que as mortes por covid de pessoas com origem no Bangladesh a viver no Reino Unido foi 5 vezes superior à das pessoas brancas britânicas.

Também se lembra que as pessoas a viver em países menos desenvolvidos (ou nas camadas sociais mais pobres de quem vive em países desenvolvidos) gastam mais do dobro do seu rendimento em comida do que as pessoas mais ricas. Essa desproporção torna-as especialmente vulneráveis às consequências da brutal subida de preços de produtos alimentares a que assistimos. Em pleno século 21, a produção e distribuição de comida é ainda – e talvez cada vez mais – um elemento decisivo das desigualdades sociais e uma causa fundamental da miséria em que vive grande parte da população mundial.

24 Jun 2022

Relatório | Em dois anos, o número de multimilionários cresceu quase 30%

Termina hoje o Fórum Económico Mundial em Davos, na Suíça. O mediático evento ficou marcado pela publicação de um relatório da Oxfam International, que dá conta do aumento substancial do número de multimilionários desde o início da pandemia. Em 24 meses, as maiores fortunas do mundo cresceram tanto como nos últimos 23 anos, com destaque para os enormes lucros da indústria farmacêutica

 

Desde o início da pandemia, em 2020, que os mais ricos do mundo não se reuniam presencialmente em Davos, na Suíça, onde habitualmente acontece o Fórum Económico Mundial. O evento que chega hoje ao fim ficou marcado pela divulgação, na terça-feira, de um relatório da Oxfam International, que dá conta da crescente desigualdade económica e do fosso que se escavou entre ricos e pobres.

A covid-19 transformou-se numa oportunidade de negócio para quem tem mais posses, gerando 62 novos multimilionários no sector alimentar, por exemplo. Intitulado “Lucrando com a dor”, o relatório elaborado pela organização não-governamental (ONG) conclui que as maiores fortunas do mundo cresceram tanto em 24 meses de pandemia como nos últimos 23 anos, sendo que cinco empresas petrolíferas lucraram 2.600 dólares por segundo desde Março de 2020. Em contraste, mais 263 milhões de pessoas correm o risco de descer abaixo do limiar da pobreza este ano, tendo em conta o enorme aumento dos preços. Tal equivale a um milhão de novos pobres a cada 33 horas, num cenário que não é mais do que “um reverso de décadas de progresso”.

Para produzir o relatório, a Oxfam baseou-se na lista anual dos mais ricos da Forbes, publicada a 18 de Março de 2020, que contemplava a existência de 2.095 multimilionários, número que subiu para 2.668 a 11 de Março deste ano, ou seja, um aumento de 27,35 por cento de fortunas.

A Oxfam também analisou e comparou dados do Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, Crédit Suisse e Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO).

A palavra de ordem da Oxfam é, por isso, o aumento da carga fiscal dos mais ricos, para canalizar capital para medidas económicas que reduzam a desigualdade. “A riqueza dos bilionários expandiu-se durante a pandemia da covid-19, uma vez que as empresas do sector alimentar, farmacêutico, energia e tecnologia aumentaram os lucros.

Entretanto, milhões de pessoas em todo o mundo enfrentam uma crise com o aumento do custo de vida e os efeitos contínuos da pandemia; o custo de bens essenciais, incluindo alimentação e energia, sofreram aumentos consideráveis.”

A Oxfam diz mesmo que a desigualdade, “que já era extrema antes da covid-19, atingiu novos níveis”. Desta forma, “há uma necessidade urgente de os Governos implementarem políticas progressivas de cobrança de impostos que podem ser usadas para reduzir desigualdades”.

“Em todo o mundo, de Nova Iorque a Nova Deli, as pessoas comuns estão a sofrer. Os preços estão a aumentar – da farinha, do óleo para cozinhar, do combustível, da electricidade. As pessoas em todo o mundo estão a ser forçadas a cortar nos gastos e a enfrentar o frio nas suas casas. São forçadas a abdicar de cuidados médicos para terem comida na mesa. Os pais são forçados a escolher que filho pode estudar”, lê-se no relatório.

A divulgação do documento enquanto decorre o Fórum Económico Mundial, em Davos, não é por acaso. A linguagem usada pela ONG é, acima de tudo, de ironia perante as crescentes desigualdades. “Os bilionários vão reunir-se em Davos, presencialmente pela primeira vez em dois anos, e têm muito para celebrar. Durante a pandemia da covid-19, a acumulação de riqueza atingiu níveis sem precedentes. A pandemia – que trouxe tristeza e perturbação à maior parte da humanidade – tem sido um dos melhores períodos da história para a classe dos bilionários.”

O aumento do custo de vida tornou-se, segundo a Oxfam, uma das grandes consequências da pandemia. “Temos visto governos e a comunidade global a falhar na prevenção do maior aumento da pobreza dos últimos 20 anos. Esta falha pode ser descrita como catastrófica: mais de 20 milhões de pessoas morreram devido à pandemia e, em todo o mundo, cada dimensão da desigualdade tem crescido de forma excepcional.”

Sectores mais lucrativos

Não surpreendem, portanto, os dados revelados pela ONG. Precisamente os sectores mais essenciais à população foram os que registaram maiores crescimentos de fortunas. Prova disso é o facto de as maiores empresas e fortunas feitas no sector da alimentação e energia terem apurado cerca de mil milhões de dólares a cada dois dias, para totais superiores a 453 mil milhões de dólares.

A fortuna dos dez mais ricos do mundo é hoje superior à riqueza somada de 3.100 milhões de pessoas, que perfazem 40 por cento da população mundial. Os 20 mais ricos acumulam mais do que o Produto Interno Bruto (PIB) somados dos 46 países da África Subsariana, precisamente uma das regiões mundiais que mais sofre de pobreza extrema.

A culpa, para os responsáveis da Oxfam, é de “décadas de políticas neoliberais que levaram serviços públicos para o sector privado”, encorajando “a concentração massiva de poder corporativo e não pagamento de impostos a uma larga escala”.

“Estas políticas levaram activamente à erosão dos direitos dos trabalhadores e redução de impostos das grandes empresas e dos mais ricos. Também abriram campo ao aumento da exploração além do que o planeta pode suportar”, pode ler-se.

No que à desigualdade diz respeito, destaque ainda para a questão do género, uma vez que as mulheres foram as que mais sofreram nestes últimos anos. “Durante a pandemia, as mulheres foram desproporcionalmente afastadas de empregos, especialmente durante períodos de confinamento e distanciamento social, que afectaram a força laboral feminina nos sectores dos serviços, como é o caso do turismo e hotelaria.”

A Oxfam dá conta que às mulheres cabe hoje o trabalho de lutarem para poderem alimentar as famílias. “Em 2020, as mulheres foram, em média, retiradas da força de trabalho mais 1.4 vezes em relação aos homens, fazendo três vezes mais horas de trabalho não pago na área dos cuidados.” Além disso, no ano passado, havia menos 13 milhões de mulheres empregadas comparando com 2019, enquanto que o emprego dos homens atingiu os níveis pré-pandemia, aponta o documento.

As grandes “dinastias”

Quais foram, então, as principais empresas a lucrar com a pandemia? A Oxfam fala das “grandes dinastias”, sobretudo no sector alimentar, como é o caso da norte-americana Cargill, que controla mais de 70 por cento do mercado mundial de produtos agrícolas e que é detida, em 87 por cento, pela 11ª família mais rica do mundo. Como exemplo, em 2021 a empresa obteve receitas na ordem dos cinco biliões de dólares, um resultado que fez história no seio da empresa. “Recentemente, quatro membros da família Cargill juntaram-se à lista dos 500 mais ricos do mundo”, aponta o relatório.

Há também referência à cadeia de supermercados Walmart, também norte-americana, tida como um dos grandes empregadores privados do país. A família Walton detém cerca de metade das acções da Walmart e uma riqueza avaliada em 238 mil milhões de dólares.

Por sua vez, o sector farmacêutico não fica de fora, tendo surgido, desde Março de 2020, 40 novos multimilionários nesta área. O boom foi sustendo por “monopólios de vacinas, tratamentos, testes e equipamento de protecção pessoal”, sendo que a maior parte destas fortunas pessoais vieram de financiamentos públicos no contexto da covid-19.

“Os gigantes farmacêuticos estão a fazer mil dólares a cada segundo em lucros só com as vacinas e estão a cobrar aos governos 24 vezes mais do que o custo normal da produção de uma vacina”, descreve a Oxfam. Por sua vez, “as empresas do sector farmacêutico têm fugido às responsabilidades quanto ao pagamento de impostos, recorrendo a paraísos fiscais”.

No relatório constam nomes de empresas como a Moderna, que teve margens de lucro de 70 por cento com a vacina contra a covid-19, e a Pfizer, que no ano passado pagou dividendos aos accionistas na ordem dos 8.7 mil milhões de dólares.

A Oxfam acusa esta farmacêutica de “usar tácticas sujas para aumentar os lucros, incluindo desinformação sobre a Universidade de Oxford e a vacina da AstraZeneca, a insistência em cláusulas contratuais que podem ser usadas para silenciar críticas ou o controlo de datas de entrega”.

26 Mai 2022