O Ocidente desfeito (III)

“Europe’s tragedy is that it never misses an opportunity to miss its moment.” – Tony Judt, Postwar: A History of Europe Since 1945

Avançando para o século XXI, a França tenta reinventar-se. Houve momentos em que Paris quis parecer uma “startup” política, ágil e moderna, como se a tradição gaullista pudesse ser substituída por entusiasmo tecnológico importado da Califórnia. Mas a realidade geopolítica encarregou-se de recentrar o debate. À medida que a ordem transatlântica se fragmenta, a França regressa ao seu instinto natural que é reivindicar a liderança europeia e apresentar-se como a única potência continental capaz de agir sem pedir licença.

A retórica francesa recupera então o velho argumento da independência estratégica de que a Europa, não pode continuar a viver de joelhos perante potências externas, sejam americanas, britânicas ou russas. A França, única potência nuclear da União Europeia e que escapou ao estatuto de protectorado após 1945, vêse como guardiã dessa autonomia. E tenta convencer os restantes europeus de que, se não assumirem responsabilidade própria, acabarão reduzidos a figurantes num mundo dominado por gigantes.

Neste contexto, a liderança francesa procura posicionarse como alternativa à deriva global. Apresentase como defensora de uma Europa que não quer ser arrastada para acordos entre Washington e Moscovo feitos à sua custa. E tenta liderar um grupo de países que se recusam a aceitar que a guerra na Ucrânia termine com um entendimento entre grandes potências que ignore os interesses europeus.

Mas a tarefa é ingrata. A Europa está dividida, fragmentada e desconfiada. Alguns países olham para Paris com esperança; outros com irritação; muitos ainda com indiferença. A França, apesar de ser a potência militar mais estruturada do continente, não consegue transformar automaticamente essa força em liderança consensual. E, no entanto, insiste porque sabe que, se não o fizer, ninguém o fará.

A França continua a moverse com naturalidade em cenários de conflito, mesmo quando a própria sociedade se fragmenta sob o peso de crises internas que corroem a Quinta República. Paradoxalmente, é precisamente este ambiente de tensão que alimenta a ambição francesa de se afirmar como potência dominante num continente onde quase todos os outros parecem desnorteados.

O panorama europeu é um convite aberto à ascensão francesa pois as vanguardas mais ferozmente antirussas perderam o equilíbrio, a Anglosfera está rachada, a Alemanha vive uma crise de identidade permanente e a Itália vagueia num limbo estratégico. Para Paris, é o momento ideal para reivindicar o estatuto de Número Um na Europa.

Mas para que a França volte a liderar, precisa de um entendimento com a Alemanha e esse está no ponto mais baixo em décadas. Enquanto Washington impõe tarifas punitivas e acusa os europeus de parasitismo, a famosa “parceria francoalemã” vive uma fase melancólica. A França, com a sua tradição de grandeza, sabe adaptarse quando o vento muda. A Alemanha, pelo contrário, não tem um passado glorioso ao qual regressar para recuperar ânimo, nem a capacidade de mobilizar a população em torno das Forças Armadas. Perdeu simultaneamente a referência americana e a europeia, e respira um ar de ano zero.

O único ponto de convergência entre Paris e Berlim é a convicção de que os Estados Unidos não são o pilar ocidental que foram. A França, por orgulho; a Alemanha, por falta de alternativas, começam a imaginar um Ocidente sem América. Mas a Alemanha enfrenta um obstáculo adicional dada a divisão interna entre o antigo Oeste, órfão de um aliado americano cada vez mais hostil, e o antigo Leste, onde persistem simpatias históricas pela Rússia. A pressão simultânea de Washington e Moscovo deixa Berlim numa posição desconfortável.

Daí a conclusão das elites alemãs de que a Alemanha terá de aprender a defenderse só, de preferência com apoio francês e europeu. Para isso, preparase para gastar centenas de milhares de milhões de euros, abandonando tabus orçamentais e tentando ressuscitar um espírito militar que desapareceu há gerações. Não o fará através do serviço militar obrigatório pois os jovens alemães não demonstram entusiasmo por morrer pela pátria mas através de campanhas de “reconversão cultural”, vendidas como oportunidades de socialização patriótica. Uma versão moderna das antigas associações estudantis nacionalistas.

E aqui surge o paradoxo mais alemão de todos; quanto mais a Alemanha se rearma, mais se afasta da França. Paris não esquece as três agressões vindas do outro lado do Reno, duas das quais desencadearam guerras mundiais. E não está disposta a aceitar que a Alemanha volte a ser a potência militar dominante da Europa muito menos se isso incluir armas nucleares.

(Continua)

28 Mai 2026