Hoje Macau 15 anos | 15 pontos (alguns negros, gordurosos)

1. O indizível
Na nossa primeira edição dizíamos o que ninguém queria ouvir: que o ex-Hotel Bela Vista (hoje excelentíssima residência consular) deixará de ser português em 2049. Bom… é verdade que isso hoje não interessa a ninguém, até porque nada do que se vai passar daqui a vinte anos interessa a alguém. Mas não deixou de ser uma bela manchete… assim para começar.

2. O improvável
Houve um tempo em que se queria destruir o velho mercado da Taipa para aí construir um centro cultural. Devia ser boa ideia mas por quê ali, onde haviam colunas portuguesas encimadas por um telhado chinês? Escrevemos muito contra isso e resultou. Olhando para o local, talvez estejamos um pouco arrependidos… ou talvez não.

3. O previsível
Quando a liberalização do Jogo estava prestes a abrir os diques do disparate e permitir que esta cidade fosse controlada por uma ganância irresponsável, bem que publicámos artigo atrás de artigo, avisando para a desarmonia vindoura. Social, ambiental, económica e quiçá política. Ela aí está, em todo o seu esplendor.

4. O imponderável
Como antecipar a maravilhosa vinda de magotes de neo-portugueses? Como futurar sobre a crise que assolou o petit pays, assim de repente? Impossível. Tão orgulhosos eles estavam, tão incertos da sua europeidade eles aqui chegaram. Como se conhecem mal a si próprios esses ditos portugueses… e como é bela a sua eventual transformação…

5. O inaudível
Centenas de artigos, de reportagens, de entrevistas. Para não falar de opiniões, escritas, gritadas, preto no branco. E, diga-se a verdade, poucos nos ouvem. Chovemos no molhado, é certo. Mas o pior é que, a maior parte das vezes, choramos sobre o leite derramado. Não deixaremos por isso de continuar. Afinal, a voz que fica é o insistente sussurro – e pouco mais somos do que isso – que insiste e não se cala.

6. O poucochinho
Temo-lo dito, uma, duas, cem, milhares de vezes: o Governo tem obrigação de fazer melhor. Há dinheiro, existem meios, confie-se nas pessoas. Macau merece mais, isto é poucochinho. Precisamos de arrojo, de vaidade, de confiança. Somos a cidade da China que menos confia em si mesma. Porque pouco conhece de si própria. E julga-se que anda tudo ao mesmo. Pois não anda.

7. Os glutões
É o poder, é o dinheiro, meus senhores e minhas senhoras, o que ele mais adorava. E dele não quer largar mão. E não é ele, mas eles, que por aqui ninguém alinhava sozinho. E dele não abre mão. Nem que custe a vida ou um milhão. É assim a RAEM: dos mesmos para os mesmos sem saciedade à vista. A fome é muita, demais e, por vezes, as indigestões são fatais.

8. Os benfeitores
Não fosse Pequim ter lançado a teta da ligação de Macau aos países lusófonos e estaríamos hoje a berrar como vitelos desmamados. Foi essa China do outro lado das Portas do Cerco que nos liberou, que nos justificou, além e aquém da História. Abençoados sejam por todos os deuses e mais um. Abençoado seja quem sabe realmente ler. Alguém percebeu Macau e não foi ninguém daqui.

9. Os insatisfeitos
Há muitos porque não fácil assistir ao deslizar do patacame sem molhar o bico nesse ribeiro de fortuna e excessividades. Não deixam, contudo, de ter alguma razão. Não conseguem, entretanto, descobrir o caminho que mais lhes convém. Para não servir, é preciso ser assumir os riscos. Para ter sucesso, é sempre fundamental ousar. Recado: queixem-se menos, façam mais. Não dá? Façam outra vez.

10. Os falhados
São os nossos favoritos: os que falham. Normalmente, fazem-no por razões verdadeiras e delas não querem abdicar. Temos assistido a inúmeros casos. Deles nada criticamos. Simplesmente não dá. Macau nunca foi fácil, a não ser para os que têm como assegurado o dia da partida. Nas razões dos falhados estão, na maior parte dos casos, os fantasmas do sucesso dos que ousam ficar.

11. Os intragáveis
Chegaram há dez anos de um sítio qualquer da China e, por terem obtido, sabe-se lá porque meios, o cartão de residente permanente julgam-se donos da cidade. Sentam-se na AL, discursam forte na Ou Mun Tin Toi. São mesmo os primeiros a pretender que mais ninguém obtenha o estatuto de cidadania. Dariam vontade de rir se, na realidade, não fossem tendo cada vez mais e mais poder. Perante a inércia dos que aqui nasceram. OK: continuam a dar vontade de rir.

12. A maltratada
É a língua, senhores, a lusa língua. A língua prometida, a língua oficial, essa mesma a que rebola por essas ruas, corrida a pontapés, varrida a sopapos, espancada pela ignorância e o desinteresse gerais: coitadinha. Deve ser por falta de jeito dos altos responsáveis ou então porque há para aí uns doutores que prometeram aos americanos fazer do inglês a língua primeira desta terra. E tudo isto sem um pingo de vergonha na cara. De quando em vez, passa Pequim, levanta-a do chão, sacode-lhe a poeira e tenta que Macau cumpra o seu histórico desígnio. E não, não é canalizar dinheiro para os candidatos quando das eleições nos EUA.

13. Os escandalosos
Que um Secretário das Obras Públicas meta a mão na massa indevida, não é bonito, mas compreende-se. Afinal, acontece ou pode acontecer um pouco por todo o lado. Em Macau, saiu-nos Ao Man Long, o pequeno homem de desejos enormes. E lá está em Coloane, a cumprir os seus 28 anos de sombra. Mas que o Procurador da RAEM tenha seguido o mesmo caminho e se pensarmos que esse mesmo senhor foi um putativo candidato a Chefe do Executivo, a coisa muda de figura e torna-se preta. Que raio de terra é esta em que o Justiceiro-mor, o defensor dos interesses do povo, garante da legalidade, é apanhado com a boca em botija alheia. Não é só triste: é, sobretudo, extremamente preocupante.

14. Os poderosos
Ao pé deles, o Governo treme, a polícia cora e os juízes encolhem-se. Estaremos a falar dos militares do EPL? Não, referimo-nos aos taxistas. Nesta cidade, eles fazem o que muito bem lhes apetece, pondo em causa a lei, a boa educação, o civismo e a imagem de Macau no exterior. E o que faz o Governo? Não licencia a Uber, faz o jogo de quem pesca pela cidade a seu bel-prazer: umas multinhas de vez em quando e pouco mais. É uma vergonha. O poder não está na ponta da espingarda. Aqui anda sobre rodas.

15. Os insípidos

Cada vez que vimos uma pessoa nova chegar ao poder em Macau, o nosso coração alegra-se, por julgar que algo de novo vai brotar, que muito vai ser corrigido e uma nova mentalidade poderá surgir. Cruel engano! Os novos governantes, com excepções (?), não passam de gente insípida com mais amor ao lugar do que à cidade ou mesmo ao seu próprio desempenho. Dos pais não herdaram a determinação e aos filhos não passam o sentido do dever e de servir a coisa pública. Enfim, na maior parte dos casos, são uma grandessíssima decepção.

5 Set 2016

Hoje Macau 15 anos | Jornalistas falam da profissão em Macau

Em dia de aniversário, o HM foi saber por quem cá anda, mais ou menos ao mesmo tempo, o que é isto de assinar notícias há década e meia. Uma actividade com várias fases e também uma profissão que tem vindo a desenvolver-se e a ficar mais bonita e mais próxima da comunidade

Os últimos 15 anos de imprensa em Macau trazem novidades e desenvolvimento. Apesar de “ter fases” a opinião de quem vive o jornalismo na pele e faz dele profissão é unânime: a actividade em Macau está diferente. Os últimos 15 anos são pautados com sangue novo, gente de fora e profissionais da área que vão revitalizando a profissão numa região que cresceu muito e com ela fez crescer o jornalismo.
Isabel Castro, jornalista da Rádio Macau, também há 15 anos na RAEM, aponta em primeiro lugar o crescimento de gente, “o jornalismo era feito por menos pessoas do que é hoje, em termos gerais as equipas eram bastante menores”. Na sua opinião pessoal e “ao contrário do que muita gente esperaria antes da transferência do território, começaram a vir mais pessoas de Portugal”, factor que veio influenciar as notícias de cá. Com elas veio uma outra forma de ver e pensar o jornalismo e mesmo Macau, considera. Este facto é apontado como positivo, até porque com o passar do tempo “é impossível que o nosso olhar não se vicie e esta renovação é boa”.
É a esta entrada de sangue novo que acontece há 15 anos que Gilberto Lopes, chefe de informação e programas portugueses da Rádio Macau, chama de “geração RAEM” e que terá contribuído para o desenvolvimento da actividade permitindo que, 15 anos depois, se faça o que se faz”.

Mais gente, mais profissional
Não é só o aumento de jornalistas que pautam os últimos 15 anos da RAEM. É a profissionalização dos mesmos que destaca o desenvolvimento da história recente da imprensa. Terá sido após a transição que Rocha Dinis, administrador do Jornal Tribuna de Macau, assinou um protocolo com a Universidade de Coimbra e com isso os jovens recém licenciados do curso de comunicação social começaram a aceder ao território para estágios. “Alguns ficaram, outros não, mas foi, sem dúvida um marco para o desenvolvimento de profissionais no território” afirma.
Questões ligadas à ética e deontologia profissional também são de salientar para Marco Carvalho, director do jornal Ponto Final, “Outra questão relevante é a profissionalização das redacções dos jornais do território” revela, sendo que é “gente nova mas gente qualificada no mister do jornalismo e uma classe já mais ligada a questões de ética e deontologia profissional”.

Não há bela sem senão

Não chega só ter mais gente e mais profissionais. Para Rogério Beltrão Coelho, editor da Livros do Oriente, “se é certo que os jornais dispõem hoje, nas suas redacções, de maiores e melhores equipas de jornalistas, com formação académica específica e, como tem sido verificado, com muito talento e criatividade, a verdade é que nem sempre a exigência de qualidade se faz sentir”.
Conhecer a terra por dentro é factor essencial, porque “é natural que aos jovens profissionais, recém-chegados ou há poucos anos em Macau, lhes falte a memória para compararem, avaliarem, recolherem experiências e usarem o conhecimento do passado para compreender e interpretar o presente e perspectivar o futuro”. Por outro lado o esforço para o aprofundamento de conhecimento “nem sempre é feito e o ritmo a que se processa a vida num jornal diário propicia situações de jornalismo de menor qualidade e de algum facilitismo”, remata Beltrão Coelho”.

Uma questão de línguas

Falar de jornalismo em língua portuguesa não é falar de jornais de Portugal em Macau, mas sim de jornais da terra na sua língua oficial e que é fundamental para a “manutenção da língua portuguesa”. Num território que partilha linguagens, gentes e culturas cada vez são mais os alunos a aprender a língua de Camões e o facto de existir imprensa em português é fulcral “sobretudo para quem está a aprender o que também é o caso do território em que os estudantes podem usufruir deste tipo de ferramentas”, afirma Gilberto Lopes.
Um outro ponto a salientar nesta puberdade da imprensa em Macau foi a inserção de profissionais de língua chinesa numa aproximação à comunidade.
Para Marco Carvalho “os jornais não estariam completos sem estes interlocutores com a comunidade chinesa e, se há uns anos ter estes profissionais era uma excepção, neste momento é o que acontece”.
Gilberto Lopes partilha da mesma opinião, sendo que “no início da década (2001) não havia colegas chineses e agora há, o que é fundamental para que os leitores possam perceber a própria sociedade em que se inserem.
Em jeito de conclusão, Beltrão Coelho não deixa de frisar “a tranquila e promissora durabilidade dos jornais portugueses. É um caso de sobrevivência inédito na História da Imprensa em Macau.”

Por quem lê

Um jornal só se faz com leitores e Mário Duque, arquitecto, refere-se à imprensa de Macau como um “imprensa de fases”. É uma imprensa com flutuações em que há momentos particularmente interessantes em termos de opinião e conteúdos e há momentos de perfeito marasmo que também têm a haver com o marasmo da terra”. Ainda assim a imprensa em Macau não deixou de sofrer um desenvolvimento qualitativo. A opinião é de António Conceição Júnior, criativo, que aborda não só o conteúdo escrito mas também o trabalho gráfico que considera “fundamental para uma boa leitura”. A qualidade e a diversidade dos temas são também aspectos apontados, pelo artista local.

5 Set 2016

Hoje Macau, 15 anos | Barba e borbulhas

Quando o director deste jornal tinha quinze anos, cometeu alguns erros não fundamentais mas fulcrais para a minha vida. Por exemplo, escolheu ser engenheiro químico e, devido a essa decisão, estudou ciências exactas durante dois anos quando o que lhe interessava mesmo eram as ciências humanas. Arrependeu-se? Não. Aprendeu muita coisa que não viria a aprender se, imediatamente, tivesse enveredado pelo caminho das humanidades. E isso hoje é importante para ele.
Aos quinze anos não sabemos bem para onde queremos ir e, sobretudo, ainda não sabemos o que somos. Existem pistas, indícios, uma plataforma cultural e civilizacional onde nos movemos, mas fazemo-lo dotados uma parca consciência e sem sequer dessa fragilidade nos damos conta. Nasce-nos a barba, ainda rala, mas vem coroada de borbulhas. Ou seja, cada coisa é, geralmente, um problema.
Felizmente, temos pais, gente mais velha, amigos, que nos desculpam, nos acarinham e permitem continuar a vida, apesar dos disparates que fazemos. Já não somos crianças a quem tudo é permitido. Já não temos a graça de quem começa, nem a inconsciência tolerada. Somos grandes. De repente, crescemos. Temos quinze anos e ocupamos imenso espaço, muitas vezes sem sabermos o que fazer dele.

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Confessemos: a vida dos adultos é, aparte do sexo, fundamentalmente aborrecida. E isso, aos quinze anos, olhando à volta, é fácil de perceber. Não que com esta idade se julgue saber mais que os outros: o que se questiona é o valor dessa sabedoria. Afinal, o mundo não é propriamente um lugar idílico para viver. Serão os adultos um modelo a seguir? Parece que não. Tudo nos grita que não. Eu, Hoje Macau, não quero ser como os senhores que fazem o mundo arder sem se preocuparem com quem constantemente se queima nessa fogueira a que chamamos História.
Basta olhar. E não é para o passado, é para o presente e com os olhos postos nos futuro. O que vem aí? Que mundo nos entregam? Ainda há quem se lembre de quando a religião, o racismo, as diferenças de género, o direito do mais fraco à liberdade eram coisas resolvidas, que ninguém pensava poderem regredir, até que, de repente e inesperadamente, vivemos outra vez num mundo de idiotas. O movimento imprescindível que conduziu à educação obrigatória serviu de desculpa para baixar o nível geral da comunicação e isso foi um dos erros (talvez propositado) em que caiu a democracia ocidental.

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E o que é isto de ser comunicação social? Devo ser informação ou entretenimento? Devo entreter enquanto informo ou deixar cair a informação que me apetece entre duas levas de emoção pura e dura? Caramba! Tenho quinze anos, o mundo é confuso, cada um puxa para o seu lado, nenhum para o meu, e não faço parte de nenhum clube. Nem Igreja , nem Maçonaria; nem Governo, nem Oposição. Não é essa a minha filiação, não foi assim que os meus pais me ensinaram.
Hoje, como há quinze anos, os meus donos são os mesmos. E não, queridos leitores, não sois vós. Não julgais que satisfaço os vossos desejos. Os meus verdadeiros donos são uma coisa que inventei, a que chamo população de Macau. E inventei-a porque ela só existe de forma ténue, mal definida, flutuante. Julgo, no entanto, servir os seus interesses. Quanto mais não seja por me dedicar a fazer jornalismo. A sério. Com o rigor possível e a imaginação impossível. Com a dedicação de quem não tem mais nada para fazer. Nasci para isto e nesta demanda me mantenho. O caminho nunca é óbvio: como ser um jornal numa cidade em que, de uma maneira ou de outra, somos todos primos? Experimentem e verão quantas vezes a vossa face será acometida de um súbito rubor, quantas vezes a consciência vos gritará horrorizada pelo trabalho bem feito e necessário; quantas vezes a emoção não vos obrigaria a tomar outro caminho.
Não sou nenhum herói, muito menos um cruzado. Como vos dizia, não sei exactamente o que sou para além de ser um jornal feito por jornalistas que, como eu, também têm muitas dúvidas sobre o mundo e ainda mais sobre Macau. Esta terra, onde orgulhosamente nasci a falar português, é mais complexa que um labirinto, mais indecifrável que um palimpsesto, mais difícil de ler que um romance do Lobo Antunes.
Talvez por isso ela seja o meu amor. Nós, que escrevemos em português, gostamos de mistérios, de coisas inenarráveis, complicadas, absurdas. Daquelas que só aos poucos vão sendo ditas, sendo despidas, com a lentidão de exasperar um monge. Adoro Macau. A cidade dá-me tudo, sobretudo esta energia estranha que ma faz palmilhar de um lado para o outro e nunca me cansar de nela encontrar novas formas, novas gentes, novas coisas. Por vezes é uma querida; doutras uma bruxa. Mas sempre a roçar o insuportável: impossível de viver com ela, impossível de a largar. É a vida…

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Tenho quinze anos: peçam-me muito, exijam-me mais, que eu preciso. Ponham-me na ordem quando for necessário. Esperem por uma resposta pronta, talvez violenta, sempre que me atacarem. É que, além de mim, tenho muito a defender. A tal população, lembram-se… e, além dela, os magros princípios que me guiam.
Trouxe-os de um outro continente. Num caso, modifiquei-os.
Eu explico. Mantive, cimeiro a todos, a Liberdade. Não prescindi, nem prescindirei de um desejo de Igualdade, sobretudo de oportunidades, acima de tudo pelo mérito. Resolvi, entretanto, afinar a ideia de Fraternidade. Nunca, de facto, me havia agradado, dadas as suas ressonâncias maçónico-cristãs. Parece que se só destina aos que se consideram irmãos (frater).
E os outros? Os que ousam discordar da seita? Adoptei por isso, no seu lugar o conceito de Ren, aprendido em Confúcio, e que se destina a toda a Humanidade. Nele é vigente a regra de ouro, a saber: não faças aos outros, o que não queres que façam a ti próprio. Nele não admito separações étnicas, religiosas ou de qualquer outra espécie. Nele vivem todos os homens e nele imperará, nesta acepção, uma benevolência extensa a todos os seres humanos. Ele implica, fundamentalmente, educação e cortesia, algo importante para manter a civilidade e a distância.
Dos proletários aprendemos a autenticidade, a importância da luta; da aristocracia pretendemos o refinamento. Da burguesia nada queremos, além dos anúncios.
Sou, por isso, do lado que considera a existência do Outro fundamental para mim. É o caso da minha dita concorrência. Preciso da Tribuna e do Ponto Final; aplaudo a existência do Clarim e do Plataforma. Eles mostram-me como eu não quero ser – e não considerem isto uma crítica – mas uma afirmação de mim pela negativa. Todos a fazemos para existir, para garantir uma identidade, e eu, porque tenho quinze anos, tenho ainda o descaramento de o admitir.
Fossem estes quinze anos um sonho, uma fantasia, e valia a pena ter dormido. Felizmente, sou uma realidade diária, palpável, até legível. Tenho tido comigo gente excepcional. Muitos partiram para outras aventuras porque eu não sou o fim do mundo. Pelo contrário, considero-me um início, um ritual de aproximação, de iniciação. Através de mim, alguns tiveram e têm acesso a um certo Macau e outras coisas para além dele. Talvez não exista melhor mediador. Este é o meu lado ainda inseguro e, por isso, convencido.
Publico, logo existo. Disto eu tenho a certeza. Não tenho, no entanto, certezas quanto à veracidade da minha existência, apesar de publicar. Será que por duvidar, isso me garante que existirei? Adoro paradoxos, essas frases onde o óbvio se esvai e a verdade se insinua. Preciso, simplesmente, de ser publicado. Bem sei que isto é confuso. Talvez um pouco infantil. Só tenho quinze anos. Não sei ainda o que me espera. Nem exactamente o que vou ser. Depende, diria… da barba, das borbulhas e, finalmente, de vós, meus queridos e imprescindíveis leitores.

5 Set 2016