Casas de Macau | Dificuldades financeiras e demográficas discutidas

Na conferência online “Os últimos 30 anos da Diáspora Macaense: evolução e desafios”, que reuniu na quarta-feira Casas de Macau espalhadas pelo mundo, foram apontados desafios como o financiamento e a importância da preservação da cultura macaense

 

A Fundação Casa de Macau (FCM) celebra 30 anos de existência e, a pensar na efeméride, organizou na quarta-feira um debate online intitulado “Os últimos 30 anos da Diáspora Macaense: evolução e desafios”, que juntou dirigentes da Casa de Macau espalhadas pelo mundo.

Foram apontados problemas comuns nestas instituições, apesar da distância geográfica: comunidade envelhecida, ausência de novos sócios, desafios na preservação da cultura macaense e ainda dificuldades na obtenção de financiamento.

José Cordeiro, presidente da associação Amigu di Macau Arts & Culture, disse que “poderá ser útil promover uma maior articulação entre instituições da diáspora e entidades de Macau, permitindo definir objectivos comuns”. O responsável refere-se ao Conselho das Comunidades Macaenses (CCM), que volta a reunir-se no próximo ano, ou ainda o Instituto Internacional de Macau.

O responsável salientou a importância da “coordenação de iniciativas orientadas para a preservação do património cultural macaense”, sendo que, “de entre as prioridades identificadas, destacam-se a valorização da gastronomia macaense e a preservação do patuá, dois dos elementos mais distintivos da nossa identidade colectiva e que merecem especial atenção nas estratégias futuras”.

José Cordeiro referiu também a necessidade de olhar “a evolução demográfica das associações e a atracção de novas gerações”. Júlia Carion, presidente da Casa de Macau no Rio de Janeiro, sublinhou “a redução gradual do número de descendentes” de macaenses. “Antigamente as pessoas tinham quatro, cinco, seis filhos, e hoje essa realidade mudou” o que “fez com que haja uma diminuição da participação associativa”, afirmou.

No tocante à questão financeira, Júlia Carion destacou que há muitos eventos não pagos, além de que não recebem subsídios, “a não ser o investimento dos próprios associados que pagam uma mensalidade simbólica”. Montante que “não cobre todas as despesas fixas e outras que a casa tenha, então temos limitações financeiras”.

Por esse motivo, a Casa de Macau no Rio de Janeiro “não consegue aumentar o número de eventos”, existindo “essa grande necessidade de reconstrução dos vínculos após a reabertura da Casa”, no contexto pós-pandemia.

No caso de Armando Santos, vice-presidente da Casa de Macau em Vancouver, disse que o objectivo é “manter o espírito macaense vivo, seja através das aulas de português, seja através do patuá, algo que não é fácil continuar”. É também feita uma aposta na gastronomia macaense, nomeadamente com aulas oferecidas aos sócios.

“Cerca de 70 por cento dos nossos sócios têm 50 ou mais anos, e como podem ver, não é fácil atrair membros mais jovens, mas fazemos os possíveis: com eventos ou música, porque precisamos deles para levar a Casa de Macau para a frente”, declarou.

Conselho, as expectativas

José Cordeiro referiu também as expectativas que deposita na realização de um novo encontro do CCM, que representa, para si, “uma das maiores e mais importantes estruturas de ligação entre Macau e a diáspora”.

“Poderá ser oportuno reflectir sobre o seu papel futuro e a possibilidade de reforçar a sua intervenção em áreas estratégicas relacionadas com a preservação cultural, o envolvimento das novas gerações e o fortalecimento das relações entre as instituições da diáspora, e não apenas em encontros.”

Além disso, o dirigente declarou que “a evolução das comunidades macaenses e os desafios actuais justificam uma reflexão abrangente sobre os mecanismos de funcionamento e representatividade do Conselho”. O objectivo seria “assegurar que continua a responder eficazmente às necessidades e expectativas da comunidade macaense global”.

Para o encontro de 2027, José Cordeiro pede o reforço “da presença de elementos que constituem referências da identidade da cultura macaense, nomeadamente a gastronomia e o patuá, frequentemente apontados como patrimónios únicos e distintivos da nossa comunidade”.

26 Jun 2026

Inquérito | Diáspora macaense e luso-asiática mantém-se “robusta”

A diáspora de macaenses e luso-asiáticos espalhados pelo mundo continua “robusta e interligada”. Dados provisórios de um inquérito feito por Roy Eric Xavier, macaense e académico, revela que grande parte continua a residir nos Estados Unidos da América. O investigador levanta também algumas pistas sobre origens e percursos familiares a Oriente

 

Há muito que o académico Roy Eric Xavier, ligado à Universidade de Berkeley, na Califórnia, se dedica ao estudo a diáspora macaense e luso-asiática. No blogue “FarEastCurrents” são muitos os conteúdos divulgados, incluindo um inquérito à comunidade que tem agora novos resultados, ainda que o trabalho de recolha de dados termine no final deste ano.

Os números provisórios foram publicados no domingo no website, tendo Roy Eric Xavier concluído que “parece existir uma diáspora global robusta e interligada de comunidades luso-asiáticas e macaenses, actualmente em dez países e 200 cidades, que perdura há quase 500 anos”.

No que diz respeito à identificação cultural, 57,82 por cento dos inquiridos assumiu-se como macaenses, seguindo-se 21,21 por cento a identificarem-se como portugueses. Em terceiro lugar, com 12,05 por cento, as respostas apontam para a identidade euroasiática. Há ainda 7,8 por cento de pessoas a assumirem-se como chinesas, 5,67 por cento europeias e ainda 5,09 por cento luso-asiáticas.

Em termos gerais, “as pessoas que responderam são descendentes de eurasiáticos portugueses (luso-asiáticos), com raízes culturais em Macau, Hong Kong, Cantão, Xangai, Japão, Malásia, Tailândia, Indonésia, Timor ou outras [antigas] colónias portuguesas na Ásia”.

Ao “The 2024 Luso-Asian/Macanese Survey” [Inquérito Luso-Asiático / Macaense de 2024] responderam, para já, 40 por cento dos homens e 60 por cento de mulheres, sendo que 45 por cento tem entre os 18 e 64 anos e trabalham, enquanto 55 por cento tem 65 ou mais anos e já está na reforma.

Os Estados Unidos da América (EUA) são o país de residência mais recorrente destas comunidades, com 56 por cento das respostas, seguindo-se a Austrália, com 11,27 por cento, 8 por cento vivem no Canadá e Portugal 7,64 por cento. Em vários países europeus residem 5,24 por cento de macaenses ou luso-asiáticos, seguindo-se Macau com 5,09 por cento. Em Hong Kong há 3,27 por cento de pessoas que se identificam como macaenses e luso-asiáticos, seguindo-se 2,91 por cento no Brasil e 3,5 por cento no Japão.

As conclusões de Roy Eric Xavier sobre estes dados, ainda provisórios, apontam para o facto de cerca de metade dos inquiridos, 51 por cento, serem membros de “famílias numerosas com, pelo menos, 30 membros vivos, sendo que várias famílias, 18,4 por cento, são compostas por 97 a mais de 150 membros vivos”.

Legados que permanecem

Outra questão abrangida pelo inquérito prende-se com o facto de estas pessoas continuarem muito ligadas à sua própria história familiar, conhecendo os percursos que os seus pais e avós fizeram até ao lugar onde hoje vivem. São ligações, muitas delas, nascidas do comércio e viagens que os portugueses fizeram para Oriente desde meados do século XVI.

Dos inquiridos, 52 por cento disse ter ligações a Portugal, seguindo-se Goa, com 12,73 por cento das respostas, Macau, com 73,09 por cento das respostas, e ainda Hong Kong, em quarto lugar, com 52,36 por cento de inquiridos. Os macaenses e luso-asiáticos que participaram no estudo têm ainda raízes familiares em Xangai, 21,45 por cento, e Cantão, com 10,18 por cento.

Roy Eric Xavier conclui, portanto, que há “um número significativo, 84,12 por cento, que se identifica culturalmente como ‘macaense, português ou colectivamente como ‘luso-asiático’”.

O inquérito inclui também questões sobre o estado de saúde dos inquiridos. Assim, e uma vez que mais de metade dos que responderam têm 65 ou mais anos, “cerca de um terço, 31 por cento, refere vários dias de doença por mês, enquanto mais de um quarto, 27,6 por cento, refere stress e depressão contínuos”.

“Estas estatísticas são geralmente mais baixas do que a média para este grupo etário na maioria dos países e podem ser atribuídas a laços familiares mais estreitos entre as famílias macaenses”, destaca o académico e promotor do inquérito.

A quarta fase

Até à data, e desde 30 de Junho, participaram cerca de dez mil pessoas no inquérito que tem sido dinamizado por 13 Casas de Macau espalhadas pelo mundo. Este é o quarto questionário promovido pelo académico, sendo que o primeiro decorreu em 2012.

Roy Eric Xavier diz esperar que o “inquérito chegue a cerca de 150.000 pessoas, podendo aumentar substancialmente depois de ser publicado em boletins informativos e em vários sites de redes sociais”.

Pretende-se, com este trabalho, “determinar como os descendentes de todo o mundo mantêm as suas ligações familiares e identidades culturais”, sendo que a “informação sobre a dimensão das famílias poderá também conduzir a estimativas da população luso-asiática a nível mundial”.

As perguntas foram elaboradas ao longo de vários anos e revistas por investigadores do Instituto para o Estudo de Questões da Sociedade da Universidade da Califórnia, Berkeley, e da Escola de Saúde Pública da Universidade do Estado da Geórgia.

Recorde-se que, em 2021, estavam contabilizados 1,6 milhões de macaenses e luso-asiáticos em todo o mundo, segundo disse à Lusa, na altura, o autor, que dirige o Projecto de Estudos Portugueses e Macaenses na Universidade de Berkeley.

“Fiz estudos e pesquisas populacionais e colaborei com vários genealogistas e demógrafos e determinámos que há pelo menos 1,6 milhões de macaenses e luso-asiáticos espalhados pelo mundo, que olham para Macau como a pátria cultural”, afirmou.

Segundo o investigador, que pertence à comunidade oriunda de Macau em Hong Kong e depois se mudou para os EUA, tem ocorrido um desligamento das novas gerações. “Não acho que seja permanente, mas penso que há uma ruptura entre a velha guarda e a nova guarda que está a surgir”, apontou. “Entre a velha guarda, há uma suspeita de que as gerações mais novas não têm a afiliação nem o sentido de história que deviam ter”.

Em 2019, falava-se do surgimento de mais jovens que se identificaram como macaenses ou luso-asiáticos. Nesse ano, no portal “Far East Currents” descrevia-se “o ressurgimento dos jovens na comunidade portuguesa oriunda da Ásia”, uma vez que “mais de 66 por cento das respostas chegaram dos adultos empregados (idades entre 19 e 64 anos)”. Por comparação, em 2012 e 2013 “70 por cento dos inquiridos estavam reformados, tendo mais de 65 anos”, o que demonstrava que “gerações mais jovens poderiam estar mais conscientes da sua cultura e estão agora em maioria”.

Outra novidade no inquérito de 2019 era a ligação a bairros portugueses espalhados a Oriente. “Confirmámos que muitas famílias têm histórias de emigração ligadas a bairros portugueses de Goa, Cantão, Japão, Malásia, Singapura e Timor, sendo que a grande maioria tem laços com Macau, Hong Kong e Xangai, uma vez que a maior parte dessas zonas foram formadas antes e depois da Guerra do Ópio”, explicou o académico ao HM nessa altura.

Roy Eric Xavier descreveu que “as histórias de emigração das famílias apenas tinham sido teorizadas em 2013, mas agora temos provas de que os luso-asiáticos emigraram durante o período de 500 anos em que houve presença portuguesa na Ásia e Índia”.

21 Ago 2024

Pelo menos 1,6 milhões de oriundos de Macau e luso-asiáticos espalhados pelo mundo

A diáspora oriunda de Macau e luso-asiática, que mantém viva “uma cultura única”, é composta por 1,6 milhões de pessoas, disse à Lusa Roy Eric Xavier, director do Projecto de Estudos Portugueses e Macaenses na Universidade de Berkeley. “Fiz estudos e pesquisas populacionais e colaborei com vários genealogistas e demógrafos e determinámos que há pelo menos 1,6 milhões de macaenses e luso-asiáticos espalhados pelo mundo, que olham para Macau como a pátria cultural”, afirmou o investigador.

“É uma cultura única, com elementos específicos”, caracterizou Xavier, indicando que um dos motivos pelos quais a diáspora macaense se mantém activa é não só a acção das Casas de Macau, mas também a dinâmica dos fóruns, websites e páginas nas redes sociais.

O luso-asiático, que publicou recentemente o livro “The Macanese Chronicles: A History of Luso-Asians in a Global Economy”, referiu que “as organizações tendem a incubar e proteger a cultura”.

No entanto, Roy Eric Xavier avisou para a necessidade de uma acção concertada mais activa para cativar os jovens. “As associações que é suposto atraírem a diáspora macaense não estão a fazer o seu trabalho”, considerou. “Têm um acordo com a China para cativar as novas gerações e manter as ligações culturais e potencialmente trabalhar em mais conexões de negócio, mas não têm ido atrás dos membros mais jovens, que são muito mais experientes em tecnologia”. “Não tem havido incentivos para irem atrás de novos mercados”, considerou, sublinhando que algumas organizações “têm sido mais bem-sucedidas que outras”.

Mudança de pele

Segundo o investigador, que nasceu na comunidade oriunda de Macau em Hong Kong e depois se mudou para os Estados Unidos, começa a haver um desligamento das novas gerações. “Não acho que seja permanente, mas penso que há uma ruptura entre a velha guarda e a nova guarda que está a surgir”, apontou. “Entre a velha guarda, há uma suspeita de que as gerações mais novas não têm a afiliação nem o sentido de história que deviam ter”.

Essa é uma das razões pelas quais publicou o livro que abarca oito anos de investigação e muitas entrevistas e faz um retrato da história de Macau, com destaque para o seu papel económico. “É para que as pessoas compreendam a sua história, dentro e fora de Macau”, afirmou. “Não é apenas para macaenses, mas para muita gente que quer compreender como esta região se desenvolveu e que oportunidades potenciais lá existem”.

23 Fev 2021

Macaenses | Inquérito da Universidade da Califórnia destaca mais jovens na diáspora 

Roy Eric Xavier, director do Projecto de Estudos Portugueses e Macaenses da Universidade da Califórnia, lançou este ano uma nova edição de um inquérito feito à comunidade macaense na Diáspora. Os resultados revelam “um ressurgimento dos jovens na comunidade portuguesa oriunda da Ásia”, quando antes os reformados estavam em maioria. O académico nota também um maior envolvimento destes jovens com as suas origens e mais interesse nas relações comerciais com a China, algo que não está a ser devidamente aproveitado

 

[dropcap]H[/dropcap]á novos dados da comunidade macaense e luso-asiática oriundos do inquérito desenvolvido no âmbito do Projecto de Estudos Portugueses e Macaenses da Universidade da Califórnia, liderado pelo académico Roy Eric Xavier. O professor universitário lançou uma nova edição do inquérito este ano, tendo feito algumas alterações face às questões colocadas em 2013.

Os resultados preliminares deste novo inquérito, disponíveis no website “Far East Currents”, revelam que houve um “ressurgimento dos jovens na comunidade portuguesa oriunda da Ásia”, uma vez que “mais de 66 por cento das respostas chegaram dos adultos empregados (idades entre 19 e 64 anos)”. Por comparação, em 2012 e 2013 “70 por cento dos inquiridos estavam reformados, tendo mais de 65 anos”. Tal “sugere que as gerações mais jovens podem estar mais conscientes da sua cultura e estão agora em maioria”.

Se os primeiros resultados, de 2012, falavam de uma comunidade na diáspora entre 149.240 a 155.764 pessoas, esse número aumentou para 1.687 milhão de macaenses ou luso-asiáticos em 35 países, e a contagem não fica por aqui, como disse Roy Eric Xavier ao HM.

“Devo enfatizar que isto é apenas uma estimativa, mas baseada em dados e corroborada por académicos desta área de estudos, que acreditam que os números são bem mais elevados do que antes”, disse.

De entre os inquiridos, 16,57 por cento dizem ser portugueses, enquanto que 61,14 por cento dizem ser macaenses. Apenas 20 por cento afirma ser euroasiático.

Origem nos bairros

O inquérito de 2019 mostra ainda que 66 por cento dos inquiridos vivem nos Estados Unidos, enquanto que 24 por cento vive no Canadá, Austrália e Europa (muitos deles em Portugal) e os restantes 9 por cento no Japão, Filipinas, Macau e Hong Kong. Além disso, “mais de 72 por cento afirmaram que têm laços familiares com Macau, sendo que 63 por cento têm ligações com Hong Kong”. “Mais de 52 por cento têm antecedentes em Portugal, e mais de 33 por cento com Xangai”, além de que “de forma significativa, em mais de 27 por dos casos os antecessores são oriundos de Goa, Cantão, Japão, Malásia, Singapura e Timor”.

Para Roy Eric Xavier, esta é outra novidade trazida pelo inquérito de 2019: a de que há muitos descendentes de bairros portugueses espalhados pela Ásia.

“Confirmámos que muitas famílias possuem histórias de emigração ligadas a bairros portugueses de Goa, Cantão, Japão, Malásia, Singapura e Timor, sendo que a grande maioria tem laços com Macau, Hong Kong e Xangai, uma vez que a maior parte dessas zonas foram formadas antes e depois da Guerra do Ópio.”

Roy Eric Xavier aponta que “as histórias de emigração das famílias apenas tinham sido teorizadas em 2013, mas agora temos provas de que os luso-asiáticos emigraram durante o período de 500 anos em que houve presença portuguesa na Ásia e Índia”.

Por explorar

Estes jovens, descendentes de famílias macaenses ou luso-asiáticas, “são profissionais, na sua maioria, da área empresarial, tecnológica, medicina, finanças, Direito ou investimentos”, entre outros. Isto faz com que exista um potencial nas relações com a China e Macau que não está a ser devidamente aproveitado, aponta o académico.

“Quero determinar qual é o potencial das relações empresariais na China através de Macau. Em investigações anteriores descobri que muitos jovens na diáspora, entre 19 e 54 anos, têm cargos de topo na área empresarial, tecnologia e finanças, medicina e educação. Este é um ponto fulcral da diáspora que o Conselho das Comunidades Macaenses em Macau tem virtualmente ignorado, ao focar-se apenas nas gerações mais velhas que participam nos Encontros a cada três anos.”

Neste sentido, o inquérito deste ano apresenta uma pergunta sobre o número de familiares que trabalham em empresas com ligações à China. “Cerca de 37 por cento afirmaram que fazem esse trabalho, mas numa outra questão, 59 por cento expressou interesse em saber mais sobre oportunidades internacionais de negócio e culturais relacionados com os portugueses da Ásia”, pode ler-se.

Para Roy Eric Xavier, “o potencial para desenvolver relações comerciais, por exemplo, deveria ser mais clarificado, sobretudo desde que as regiões administrativas especiais continuam a beneficiar de protecção que não estão garantidas em muitas cidades portuárias da China”. “Este potencial tem sido ignorado por muitas das organizações de Macau, mas tem vindo a tornar-se muito reconhecido na diáspora”, frisou.

Além disso, o académico nota um maior interesse não só na preservação da história, mas também na transmissão de valores aos descendentes. Aqui, as redes sociais assumem um importante papel. “Os sítios no Facebook de portugueses da Ásia aumentaram de cinco, em 2013, para 27 em 2019. Muitos dedicam-se a diferentes temáticas, tal como a comida, história, língua, fotografias ou histórias de família”, aponta o inquérito.

“Esta tendência é uma indicação de que a nova geração de luso-asiáticos e macaenses estão agora envolvidos e interessados em passar mais informações para as novas gerações”, frisou Roy Eric Xavier.

O inquérito vai continuar a manter-se online “de forma indefinida”, com os resultados a serem publicados periodicamente “para acompanhar as mais recentes tendências”. Roy Eric Xavier explicou ainda que a edição deste ano do questionário foi desenvolvida “para chegar a gerações mais jovens na Diáspora que estão a tornar-se mais conscientes da sua etnicidade e que estão a tentar obter mais informações”.

“Retirei uma pergunta sobre se a pessoa deixou ou não de viver na Ásia, uma vez que a maioria nasceu noutro lugar. Também eliminei uma questão sobre línguas, e especificamente sobre a capacidade para falar o patuá, mas irei usá-la no futuro. Contudo, mantive as questões relacionadas com a idade e localizações actuais, bem como a dimensão das famílias ou os diferentes lugares no mundo de onde são oriundos os antepassados”, explicou Roy Eric Xavier.

Nestas alterações, “foi feita uma tentativa para ter um panorama mais claro de como são as novas gerações em termos demográficos e culturais”, adiantou.

10 Set 2019

Macaenses | Inquérito da Universidade da Califórnia destaca mais jovens na diáspora 

Roy Eric Xavier, director do Projecto de Estudos Portugueses e Macaenses da Universidade da Califórnia, lançou este ano uma nova edição de um inquérito feito à comunidade macaense na Diáspora. Os resultados revelam “um ressurgimento dos jovens na comunidade portuguesa oriunda da Ásia”, quando antes os reformados estavam em maioria. O académico nota também um maior envolvimento destes jovens com as suas origens e mais interesse nas relações comerciais com a China, algo que não está a ser devidamente aproveitado

 
[dropcap]H[/dropcap]á novos dados da comunidade macaense e luso-asiática oriundos do inquérito desenvolvido no âmbito do Projecto de Estudos Portugueses e Macaenses da Universidade da Califórnia, liderado pelo académico Roy Eric Xavier. O professor universitário lançou uma nova edição do inquérito este ano, tendo feito algumas alterações face às questões colocadas em 2013.
Os resultados preliminares deste novo inquérito, disponíveis no website “Far East Currents”, revelam que houve um “ressurgimento dos jovens na comunidade portuguesa oriunda da Ásia”, uma vez que “mais de 66 por cento das respostas chegaram dos adultos empregados (idades entre 19 e 64 anos)”. Por comparação, em 2012 e 2013 “70 por cento dos inquiridos estavam reformados, tendo mais de 65 anos”. Tal “sugere que as gerações mais jovens podem estar mais conscientes da sua cultura e estão agora em maioria”.
Se os primeiros resultados, de 2012, falavam de uma comunidade na diáspora entre 149.240 a 155.764 pessoas, esse número aumentou para 1.687 milhão de macaenses ou luso-asiáticos em 35 países, e a contagem não fica por aqui, como disse Roy Eric Xavier ao HM.
“Devo enfatizar que isto é apenas uma estimativa, mas baseada em dados e corroborada por académicos desta área de estudos, que acreditam que os números são bem mais elevados do que antes”, disse.
De entre os inquiridos, 16,57 por cento dizem ser portugueses, enquanto que 61,14 por cento dizem ser macaenses. Apenas 20 por cento afirma ser euroasiático.

Origem nos bairros

O inquérito de 2019 mostra ainda que 66 por cento dos inquiridos vivem nos Estados Unidos, enquanto que 24 por cento vive no Canadá, Austrália e Europa (muitos deles em Portugal) e os restantes 9 por cento no Japão, Filipinas, Macau e Hong Kong. Além disso, “mais de 72 por cento afirmaram que têm laços familiares com Macau, sendo que 63 por cento têm ligações com Hong Kong”. “Mais de 52 por cento têm antecedentes em Portugal, e mais de 33 por cento com Xangai”, além de que “de forma significativa, em mais de 27 por dos casos os antecessores são oriundos de Goa, Cantão, Japão, Malásia, Singapura e Timor”.
Para Roy Eric Xavier, esta é outra novidade trazida pelo inquérito de 2019: a de que há muitos descendentes de bairros portugueses espalhados pela Ásia.
“Confirmámos que muitas famílias possuem histórias de emigração ligadas a bairros portugueses de Goa, Cantão, Japão, Malásia, Singapura e Timor, sendo que a grande maioria tem laços com Macau, Hong Kong e Xangai, uma vez que a maior parte dessas zonas foram formadas antes e depois da Guerra do Ópio.”
Roy Eric Xavier aponta que “as histórias de emigração das famílias apenas tinham sido teorizadas em 2013, mas agora temos provas de que os luso-asiáticos emigraram durante o período de 500 anos em que houve presença portuguesa na Ásia e Índia”.

Por explorar

Estes jovens, descendentes de famílias macaenses ou luso-asiáticas, “são profissionais, na sua maioria, da área empresarial, tecnológica, medicina, finanças, Direito ou investimentos”, entre outros. Isto faz com que exista um potencial nas relações com a China e Macau que não está a ser devidamente aproveitado, aponta o académico.
“Quero determinar qual é o potencial das relações empresariais na China através de Macau. Em investigações anteriores descobri que muitos jovens na diáspora, entre 19 e 54 anos, têm cargos de topo na área empresarial, tecnologia e finanças, medicina e educação. Este é um ponto fulcral da diáspora que o Conselho das Comunidades Macaenses em Macau tem virtualmente ignorado, ao focar-se apenas nas gerações mais velhas que participam nos Encontros a cada três anos.”
Neste sentido, o inquérito deste ano apresenta uma pergunta sobre o número de familiares que trabalham em empresas com ligações à China. “Cerca de 37 por cento afirmaram que fazem esse trabalho, mas numa outra questão, 59 por cento expressou interesse em saber mais sobre oportunidades internacionais de negócio e culturais relacionados com os portugueses da Ásia”, pode ler-se.
Para Roy Eric Xavier, “o potencial para desenvolver relações comerciais, por exemplo, deveria ser mais clarificado, sobretudo desde que as regiões administrativas especiais continuam a beneficiar de protecção que não estão garantidas em muitas cidades portuárias da China”. “Este potencial tem sido ignorado por muitas das organizações de Macau, mas tem vindo a tornar-se muito reconhecido na diáspora”, frisou.
Além disso, o académico nota um maior interesse não só na preservação da história, mas também na transmissão de valores aos descendentes. Aqui, as redes sociais assumem um importante papel. “Os sítios no Facebook de portugueses da Ásia aumentaram de cinco, em 2013, para 27 em 2019. Muitos dedicam-se a diferentes temáticas, tal como a comida, história, língua, fotografias ou histórias de família”, aponta o inquérito.
“Esta tendência é uma indicação de que a nova geração de luso-asiáticos e macaenses estão agora envolvidos e interessados em passar mais informações para as novas gerações”, frisou Roy Eric Xavier.
O inquérito vai continuar a manter-se online “de forma indefinida”, com os resultados a serem publicados periodicamente “para acompanhar as mais recentes tendências”. Roy Eric Xavier explicou ainda que a edição deste ano do questionário foi desenvolvida “para chegar a gerações mais jovens na Diáspora que estão a tornar-se mais conscientes da sua etnicidade e que estão a tentar obter mais informações”.
“Retirei uma pergunta sobre se a pessoa deixou ou não de viver na Ásia, uma vez que a maioria nasceu noutro lugar. Também eliminei uma questão sobre línguas, e especificamente sobre a capacidade para falar o patuá, mas irei usá-la no futuro. Contudo, mantive as questões relacionadas com a idade e localizações actuais, bem como a dimensão das famílias ou os diferentes lugares no mundo de onde são oriundos os antepassados”, explicou Roy Eric Xavier.
Nestas alterações, “foi feita uma tentativa para ter um panorama mais claro de como são as novas gerações em termos demográficos e culturais”, adiantou.

10 Set 2019