China beneficia cada vez mais do regresso de cientistas formados no estrangeiro

O número de cientistas chineses que regressam do estrangeiro aumentou mais de 40 vezes em menos de duas décadas, contribuindo para a crescente presença da China na investigação científica de elite, segundo um estudo divulgado pela Universidade de Stanford.

O número anual de investigadores que regressaram à China passou de 31, em 2004, para 1.409, em 2022, totalizando quase 10.000 cientistas durante o período analisado, mais de metade proveniente dos Estados Unidos.

A investigação, divulgada pelo Stanford Center on China’s Economy and Institutions (SCCEI), um centro de estudos da Universidade de Stanford especializado na economia chinesa, concluiu que o regresso destes investigadores está a contribuir não apenas para a produção científica individual, mas também para melhorar o desempenho dos colegas e instituições onde passam a trabalhar.

“Os cientistas que regressaram alimentaram a ascensão da China na ciência”, lê-se no relatório, intitulado “Brain Circulation and Knowledge Creation: Evidence from Elite Chinese Scientists”.

O estudo foi realizado pelos investigadores Shihang Ru, Heiwai Tang, Bernard Yeung e Xinbei Zhou e analisou mais de 600.000 artigos publicados entre 2003 e 2022 em algumas das revistas científicas mais selectivas do mundo, nas áreas da química, física e ciências da vida, além de várias publicações científicas generalistas.

A amostra abrange mais de 1,2 milhões de investigadores ligados a cerca de 65.000 instituições. Os autores consideraram como “regressado” um cientista de origem chinesa cuja afiliação profissional passou de uma instituição no estrangeiro para outra na China.

Durante o período analisado, a proporção de artigos publicados nas revistas científicas selecionadas com pelo menos um autor baseado na China passou de cerca de 4 por cento, em 2003, para 27 por cento, em 2022.

Mais citações

O peso científico da China aumentou também quando medido através das citações recebidas pelos trabalhos publicados: a percentagem atribuída a cientistas chineses baseados na China aumentou de cerca de 2 por cento para 25 por cento do total nas áreas analisadas.

Para os autores, isto significa que a crescente presença chinesa “reflecte cada vez mais influência real, e não apenas volume”.

O estudo identificou ainda efeitos sobre os investigadores que já trabalhavam na China. “Colaborar com um investigador regressado proporciona um impulso duradouro ao trabalho dos próprios cientistas locais”, segundo o relatório.

Entre cientistas que já tinham colaboradores internacionais antes de trabalharem pela primeira vez com um investigador regressado, a qualidade da investigação, medida através de um indicador baseado em citações, aumentou cerca de 8 por cento no ano dessa primeira colaboração e aproximadamente 15 por cento três anos depois.

Segundo os autores, os resultados sugerem que a melhoria resulta de capacidades específicas trazidas pelos regressados, entre as quais “conhecimentos especializados, familiaridade com o funcionamento das revistas de elite e acesso a redes internacionais”.

“Até os cientistas que nunca trabalham com um regressado beneficiam de ter mais deles por perto”, realça o documento.

A China começou a lançar programas específicos de recrutamento de talentos no estrangeiro em 2006, incluindo o programa Mil Talentos, em 2008, e uma iniciativa semelhante destinada a investigadores mais jovens, em 2011.

“O valor de recrutar cientistas de volta ao país reside apenas parcialmente na produtividade dos próprios regressados”, indica o relatório. “Uma parte substancial resulta da forma como a sua presença transforma os laboratórios, as colaborações e as culturas de investigação à sua volta”, acrescenta.

3 Set 2026