Quarentena: uma narrativa

[dropcap]N[/dropcap]ascidos a bordo de um navio
em quarentena, ao fim de uns anos
engolfa-nos a ausência,
ansiamos um abraço de sangue.

A raros se concedeu – presumo
que a suborno – soltura.

O navio ficou ao largo
por um período a prumo,
que não cessa de indeterminar-se
e aí a língua é o algeroz
de onde pingam a esperança
e o alfabeto do inferno.

Divisamos de longe as luzes
da cidade, adivinhando até ao sabugo
os seus perfumes, a desabrida
floração dos cometas
no peito das raparigas,

o rasto de anfetaminas com que
os rapazes metem a terceira
e repelem os mortos.
Enquanto na nossa cabine
ou no desabrigado convés
tudo se repete, unânime, caliginoso.

Dás conta, já não batem os sinos
na cidade! Emudece a via
láctea nos salmos
que tingem o WhatsApp?

No dia da boda uma borboleta,
das que migra, transatlântica,
veio ressacar ao corrimão
do tombadilho e depois alumiou
as bordas da piscina
com a sua valsa imatura.
Tudo quanto vislumbrámos
das flores da costa.

Ocorre o amor
entre os convalescentes?
Tudo indica que o homem é capaz
de amar no próprio inferno,

embora a solidão na proa
não deixe de lembrar-nos
que nunca mergulharemos
duas vezes no mesmo vento.

Ancorados ao largo da alegria,
de quarentena,
o capcioso brinde final
destinar-te-á um breve
toque de clarim,
antes de amortalhado
numa bandeira o teu cadáver
ir lancetar o mar.

Mataste o tempo,
lendo a Oresteia e conviveste
com as deambulações de Ulisses,
também ele tardio e como tu
enleado nos novelos
da idade que ensimesma,
e já reconheces na enlanguescida
inteligência do antigo amante
de Circe o declinar da tua.

Estaria tudo bem se não visses
que os teus filhos
também nasceram a bordo
e como se lhes emaranha nas veias
uma bilha de gás e uma cabeça
de fósforo. Aí revoltas-te!
Apontas o canhão da proa e
inflamas o horizonte
com a tua veia derramada.

Alba. O barrete realça,
não esconde a cabeça de cachalote
do marinheiro que subiu à gávea.
Padeceriam igualmente os anjos
desse peso transbordante,
acima do pescoço rútilo?

Um veleiro airosamente descalço
adeja ao largo.

No rádio passam Zappa,
conduzido por Boulez
– tudo se desloca nos meridianos
aquosos. A quem devemos
a quarentena do planeta?

É tão escasso o pensamento,
nestas anfractuosas tonelagens
de ferro, que nos serve de guarida
contra o íngreme
entenebrecimento, contra
a cegarrega que nos atou,

é fugaz, mas dactilografa estrelas
à superfície das águas,
lépida doma dos néones,
e aí intuímos:
cada palavra é uma ilha
e procura arquipélago.

Saberá o urso que hiberna?
Não tem clímax a noite,
só tem ápice na queda.
A noite é o seixo que rola
no leito da tua vida; rola
para a foz ou para a nascente?

Alarma-te o enigma
do teu corpo e da tua sombra
bifurcarem na língua da cobra.
Como traduzir a inconciliável
corrente que os aparta
em amuos incandescentes,
não obstante partilharem
o que tolda no copo de gim?

Solução para o dilema: talvez
em terra, mas, entretanto, retido
em quarentena, apesar
de desconheceres a combustão
antropofágica da doença,
a dúvida que não cala encapela-te
os páramos do sangue.

A inocência é que te tramou,
enredou-te nas ramagens
da noite – embora na orla
das escotilhas já a luz da alba
se ice, vagarosa, e a algazarra
das cores se adiante, esta outra

luz é mais um alinhavo
frágil na bainha da mesma
e idêntica noite que te
ofusca, espectral.

Contudo, por décadas
a fio de quarentena
encrespada nos gargalos,
pode lá a escassez encaixar-se
nas tuas linhas de sombra:

basta ouvirmos o latido
de um cão na costa
e restituímos a pedra que sonha
à tepidez da mão que enxagua
a sua matéria exausta.

Transpira o navio contra
a quarentena, ondula.
Lês na fornalha de Dante
os glóbulos brancos do teu nome.
Quanto tempo demora o limbo
a fazer-nos compreender
que desenhar as letras
não nos emenda a escuridão?

Tanto que vejo, sem
adivinhar o quanto ensejo
no que vejo.
De quarentena, a vida
de nós não se aproxima
nem para a despedida.
Embora tudo indique
que o homem seja capaz
de amar no próprio inferno.

08/06/2018

13 Jun 2019