A bica de duas bocas

Abrisa marinha é sempre diversa. Com ela vem o sussurrar da proa, apartando as águas, e o ranger da madeira e do cordame que segura as velas enfunadas pelo vento. Os ouvidos e a experiência ditavam a rota no escuro da noite.

Wong Siu Ieng, deitada no convés, já há muito deixara de sentir a maresia e o cheiro do peixe. Olhava o céu. A seu lado, Lai dormia a sono solto. Estavam no convés, em baixo fazia demasiado calor. Olhando as estrelas não encontrava as da sua aldeia. A memória era vaga, curta. Lembrava-se que dormia na barraca palafita quando uma vozearia estalou e, subitamente, agarrada por braços poderosos e coberta por um grande lenço foi levada para um baloiçante bote, enquanto outras vozes chorosas se lhe juntaram. Após curta viagem, ainda coberta, foi içada para uma amurada de onde a levaram. Ainda ouviu tiros e o estalar do fogo nos bambus. Era a sua aldeia, pensou. Depois, um vazio de memória, um breu como o da noite que atravessava.

Lembrava-se de uma pequena praia onde, à vez, fundeavam juncos e onde contemplava, à distância, um perfil longínquo, habitado. Numa gruta, ao fundo da pequena praia, tinha o seu catre. Aí aprendera a manejar facas e espingardas. Os homens davam ordens, mandavam cozinhar peixe e arroz. Por vezes havia carne de porco ou galinha. Descobrira a existência de outras grutas, fendas na rocha banhadas pelas águas do rio.

paiol-da-flora
A maioria das outras crianças não crescera com ela. Por razões que desconhecia, fora adoptada por Lai Ma (mãe Lai) que, de cartucheiras à cintura mandava nos homens. Lai Chói Sán (Lai Montanha de Fortuna) tomara-a sob sua custódia e assim crescera. Os homens murmuravam que Lai Ma, ainda adolescente, tinha sido abusada por um bando e, como vingança, se tornara pirata, usando os seus homens quando a ela lhe apetecia, que era seca do útero. Talvez por isso a tivesse adoptado.

“Wei”, sussurrou a sentinela, “estamos a chegar!”. Wong Siu Ieng interrompeu os pensamentos. Com os outros, levantou-se, pegou mecanicamente na espingarda, afivelou a cartucheira e dois tanka foram descidos. Primeiro desceram os homens, depois Lai Ma e Wong Siu Ieng. O junco seguiu caminho.

O azul nascia no horizonte e aos poucos os olhos foram-se habituando. Estavam na nesga de rio de onde se acedia ao templo de Avalokiteshvara Kun Iam. Meteram-se os oito por uma rua traseira que dava para a vila de Coloane.

Esgueiraram-se para dentro de uma casa na Rua do Meio. Bastou um toque no portal para, do outro lado, se ouvir a tranca de madeira correr. Entraram para um pátio cheio de plantas, seguindo por um curto caminho de pedra que dava acesso à casa de tijolo cinzento que despertava com o raiar do dia. Lao Wing Man mandou servir canja numa enorme mesa redonda de tampo metálico. Os convivas, em silêncio, sorveram a sopa e comeram vorazmente o que traziam, fosse soi kau ou nabo frito. De quando em vez, olhavam para fora, o pé marítimo em cima do banco.

Lao Wing Man, reclinado, fumava ópio. De olhos semicerrados, esperava que acabassem o pequeno almoço. Lai Ma limpou os lábios com as costas da mão, pulso ornado de pulseira de jade e boca de dentes de ouro, e levantou-se.

“Tim-a Lao Sôk?” (então tio Lao?), interrogou a mulher pirata, dirigindo-se ao velho que lhe respondeu com um sorriso desdentado, lançando uma baforada de fumo: “Sempre o mesmo”. Virou-se e chamou A-Weng. O empregado curvou-se. “Traz as coisas”, disse o velho. A-Weng dirigiu-se a outro compartimento fora do olhar dos visitantes e voltou, entregando a Lao um conjunto de envelopes chineses e uma cesta de vime.

Lai Ma tirou de um dos envelopes notas enormes que verificou. Abriu a cesta de vime e espreitou para um montão de moedas. “Muito bem, Lao Sôk, bom trabalho. Ficas com as moedas” disse a mulher, perguntando de seguida “todos pagaram?”. O velho riu-se. “Claro, eles sabem que tem de ser assim” disse com a forma arrastada de quem quer, à maneira cantonense, vincar uma afirmação.

Lai Ma virou-se para o grupo, mas dirigiu-se à rapariga. “A-Ieng, vamos dar uma volta. Traz o incenso”. Tirou os sapatos e ficou com o aspecto indistinguível de uma pescadora, pés chatos habituados a agarrar a teca do junco. Wong Sio Ieng desfez-se também da cartucheira, alisou a cabaia curta, manteve os sapatos de pano e ei-las, decididas, a encaminharem-se para o portão. Saíram de mãos dadas, os pauzinhos de incenso na mão e, na roupa interior, um bolso com sapecas. Caminharam sorridentes, seguindo em frente, passando por um templo ocidental. A aldeia ganhava vida à medida que crescia o dia. Passaram para a beira rio, onde palafitas davam para um terreiro arredondado. No chão, peixes secavam com sal. Um cão ladrou quando se cruzaram com um soldado sonolento, saindo de uma das barracas, ainda abotoando a farda.

No terreiro vazio, um pequeno altar no chão. Lai Ma acendeu o incenso, agachou-se e iniciou, muito baixo, uma cantilena em língua estranha, inspirando repetidas vezes enquanto balanceava o tronco para a frente e para trás. Depois, espetou os paus de incenso entre os outros e ergueu-se, levando A-Ieng consigo. Esta nunca se atrevera a perguntar o que tudo aquilo significava, para além da oração a um tou tei (deus do lugar).

Tomaram o caminho de regresso à casa de Lao Wing Man. Lai Ma reuniu os oito à volta da mesa e, sorvendo chá, anunciou que nessa noite partiriam para Macau.

Um olhar de espanto invadiu os restantes. “Mas… o que vamos fazer?”. Lai Chói Sán olhou para o que tinha feito a pergunta e, enigmaticamente, respondeu: “Retribuir…”. Recolheu-se a um catre, com Lao a dormir o sono do opiómano. Os outros também se acomodaram aqui e ali, preparando-se para a saída nocturna.

À hora combinada, pelo mesmo caminho, regressaram ao junco, que contornou a ilha. Do grupo, quatro passaram para outra embarcação de pesca, devidamente registada, que ancorou no Porto Interior, já passava das nove da noite.
Num bote, chegaram a terra. Por baixo das arcadas, dirigiram-se a um homem que fumava cachimbo de água. Lai Ma falou em hakka, o homem ergueu-se indolentemente e dirigiram-se para o templo de A-Ma. No largo, o homem entregou às duas mulheres um varão de bambu e duas cestas. Lai Ma entregou o tam kón a A-Ieng, que o poisou sobre as cestas, atando-o com cordas. Subiram a rampa do Quartel dos Mouros, cestos ao ombro, desafiando as autoridades ali estacionadas.

Foram subindo a estrada de terra batida, falando em hakka. A-Ieng procurava discernir alguma palavra, olhando o sentinela barbudo, que pouca importância deu ao trio. Avançaram até ao fim do caminho, subiram e desceram outro, e ei-los chegados a um templo ocidental com uma escadaria. Viraram à esquerda e entraram num casinhoto. O homem acendeu uma lamparina de óleo. Havia apenas um catre e uma mesa. Ao fundo, uma banca, um fogareiro a carvão e um abano. “Kan Sôk (tio Kan), preciso de ir até I Long Hâu (bica de duas bocas)”. Aquilo era zona guardada por fei tchâu lou (africanos, landins), avisou o homem. Lai Chói Sán sabia disso, “há vinte e um anos mataram o meu homem em Lu Wan (Coloane)…”. E por aí se ficou.

Kan Sôk, meditabundo, insistia que era muito perigoso. “A ousadia é sempre inesperada”, respondeu-lhe a mulher, olhando-o nos olhos. Acabou por concordar. Foram-se pelo escuro da noite.

A manhã daquele dia de 1931 rompeu demasiado cedo. Junto à bica de duas bocas, na zona da Flora, ao pé do Palacete da Flora, residência de Verão do Governador, uma forte explosão acordou a cidade. Num raio de 300 metros tudo ficou destruído. Registaram-se 41 mortos. Às 5:35 da manhã, inexplicavelmente, trinta toneladas de pólvora explodiram.

Muito se especulou sobre as verdadeiras causas deste terrível acidente, aventando-se até ter sido obra de pirataria. As autoridades porém, negaram.


Nota do autor: este texto, embora baseado em factos e personagens reais, é inteiramente ficcionado.

25 Abr 2016

Solidão

José Plácido Meireles de Lima procurava afastar do pensamento as palavras que ouvia sobre o defunto, ali emoldurado por dezenas de flores. Pensava o quanto os vivos descobriam virtudes em todos quantos partiam, mesmo no pior dos safardanas.
Estavam na Sé Catedral. A igreja estava cheia e o colarinho de José Plácido, vestido de preto, empapava-se de suor. Mal humorado, ouvia os elogios ao falecido e o roçagar dos leques que aliviavam as senhoras dos calores de Agosto.
Ali estava porque era um hábito, mas tudo o irritava. Das poucas vezes que ia sozinho, aquando da homilia, o sacerdote subindo ao púlpito, ele e mais uns quantos saíam para fumar, ante o olhar reprovador de algumas consortes.
Olhou o caixão aberto e o rosto de cera, questionando-se sobre o que era a morte e como transformava a matéria outrora habitada. Habitada? Deu-se conta do que pensara. Sentia-se confuso sempre que pensava nisso. Entretanto começara o Pai Nosso. Todos se curvaram, cabeça baixa, rezando alto “Pater noster, qui es in cælis… “.
Plácido inspirou longamente, admitindo que não perdoava a quem o tinha ofendido. Olhou as “beatas” pelo canto do olho enquanto se alinhavam para a comunhão. “Está quase”, pensou, ansioso.
José Plácido de Lima tinha nascido de uma relação entre a cozinheira chinesa e o dono de uma casa respeitável. A desgraçada vivia no rés-do-chão da casa, entre garrafeira, lenha, sacos de arroz e outros víveres. Foi despedida e ele levado para o Orfanato Salesiano, onde o esperava mão leve, que lhe assestava por tudo e nada.
Era “filho natural” de um senhor que preferiu o anonimato, assegurado por uma generosa doação ao dito Orfanato. Ali entrou sem nome de baptismo.
Cresceu entre abandonados ou verdadeiros órfãos. A infância tinha sido rotineira, entre confissões, oratório, missas, reguadas, estudos de português, tabuada, arroz regado com sutate e, às vezes, alguma carne. Deram-lhe o nome de José, assim mesmo, sem mais. E os dias foram passando iguais. Sentia ser ninguém, nada, um acidente apenas.
Um dia, chamaram-no, juntamente com outros miúdos de oito e nove anos, para uma sala onde estava o padre director e um casal. Alinharam-nos contra a parede, cabeças baixas. Somente José apresentava alguns, poucos, sinais de mestiçagem. No orfanato chamavam-no fa-sang (amendoim) pelo formato do rosto. A senhora olhou, olhou, e foi adoptado. CAMARANG FASANG
Levaram-no de imediato vestindo o seu bibe encardido. Despediu-se do padre director e ei-lo a entrar, pela primeira vez, num automóvel.
Dona Cássia tratou de convencer o marido a perfilhá-lo. Arnaldo Figueiredo Meireles de Lima, causídico abastado, lá anuiu, e eis que a José lhe acrescentaram o nome de Plácido e o sobrenome Meireles de Lima.
José cresceu num casarão para as bandas da Flora, com jardim e pavilhão de Verão, palmeiras, canteiros de flores, entre criadas chinesas, tutores e visitas de abastados clientes que demandavam o saber do Senhor Doutor.
Aos doze anos foi para o Liceu, ali bem perto. Dona Cássia, porém, fazia questão que fosse de motorista, o que lhe valeu a galhofa dos colegas. O rapaz, no seu casaco azul escuro, calças brancas e sapatos a condizer, olhava para os outros de soslaio, os complexos engolidos. Ouvia remoques que ignorava. Aos quinze anos tinha crescido. Estava alto, o cabelo era negro, sempre bem cortado, ligeiramente ondulado. Os olhos eram muito amendoados como os de tantos outros. Aos dezasseis cresceu-lhe o buço, uma amostrazinha que lhe valeu um acréscimo à alcunha, camarang, por causa dos pelitos revirados em forma de camarão. Era o camarang fá-sang, que Macau sempre abundou em alcunhas.
Crescido, logrou namoriscar uma colega mais adiantada. A paixão foi mais forte e, certa noite, num quintal próximo do liceu, Josefina entregou-se-lhe. Os encontros repetiram-se. Colegas viram-no saltar o muro da casa dos Lopes e a notícia correu como um rastilho, galgou ruas, travessas e, num sussurro, chegou aos ouvidos de Dona Cássia e do marido. As reacções foram diversas. “É má-língua de Macau”, disse Dona Cássia. Arnaldo Figueiredo Meireles de Lima, não lhe respondeu, mandou o chauffeur pegar o Zé e levá-lo ao escritório.
Suaves pancadas soaram no gabinete de Arnaldo de Lima. Armantina, que trabalhava ali, anunciou a sua chegada pondo a cabeça dentro do gabinete. “Que entre”, rosnou Arnaldo de Lima debaixo da bigodaça encerada e de pontas reviradas. José Plácido introduziu-se no gabinete colado à parede, como uma sombra. O rosto estava lívido. “Dá licença, Pai?”.
Arnaldo de Lima pousou o charuto e olhou-o por cima das lunetas. “Com que então anda a completar a sua educação física a saltar muros, não é assim?”. A voz não se tinha elevado mas o tom não era encorajador. Levantou-se e um enorme estalo quase atirou o rapaz para o chão. E mais outro e ainda outro, puseram a cara de José Camarang mais rubra do que o de uma donzela.
“Você desapontou-me muito. Tinha planos para si, mas agora mudaram”, sibilou roucamente o causídico lisboeta, há muito radicado em Macau, sem deixar de fitar José com ar sério. ” Fica avisado que as saídas nocturnas acabaram, o Liceu acabou e virá todos os dias aqui para o escritório, aprender a ser útil. Começará amanhã. A D. Armantina dar-lhe-á que fazer! Em vez de bacharel irá para escriturário”.
O destino de Camarang fá-sang estava outra vez traçado.
Olhou novamente para o cadáver do Dr. Arnaldo Meireles de Lima. Um ódio ao morto nasceu inútil. Tinha-lhe dado oportunidade de aprender boas maneiras, torrá português, mas foi um desastre.
Passara anos numa repartição. Dona Cássia, convencida pelo marido, afastara-se. Daquele melro não viria coisa boa. “Falta de berço…”, suspirara rendida.
José Camarang, sem conhecer pai e mãe, lá foi roçando as mangas de alpaca junto de bacharéis e doutores a quem se procurou encostar para colher benefícios.
Os anos passaram e José Camarang contava o tempo para se aposentar. Sem grande sorte nos avanços aos bacharéis e doutores, chegara-se à Rua da Felicidade em busca de algum ricaço chinês precisado de um bilingue. Fora de horas conhecera algumas p’ei pá chai e tinha-se mesmo aventurado no Pátio das Galinhas, para servir os apetites dos convivas.
Camarang Fá-Sang ali estava. Perante o esquife, maldizia o destino, odiando tudo o que se virara contra ele. Olhava a sua vida, da qual era simultaneamente actor e vítima. Jamais conseguira resolver-se, conhecer-se, distinguir os seus sentimentos. Não sabia que fugia de se enfrentar. Faltara-lhe sempre lucidez para se compreender.
No quarto modesto que ocupava enrolou outro cigarro, acendeu-o ficando a olhar o fumo em ascensão, linhas rectas, serenas, verticais. Estava só, nascera só, perdido das origens, dor que carregava consigo, sentimento complexo esse. Pela janela olhou os escassos passantes. O tempo esfriara. Vestiu o camisolão. Sentiu-se mais aconchegado e, nesse aconchego, percebeu finalmente que ele, como todos, eram sós, e morreriam tão sós como nasceram. Sentiu alívio nessa incontornável verdade. Levou décadas para, enfim, perceber a sua singularidade e a similaridade com todos os outros. Na sua mente, algo embotada pela carga do passado, a vida passou a fazer um sentido que nunca lhe ocorrera. Os outros eram os outros, gente que invejara até esse momento. Sorriu, despiu o camisolão, vestiu o casaco mais forte, pôs o chapéu e, aliviado, fechou a porta do quarto alugado. Saiu para a rua e, pela primeira vez, respirou o ar fresco apaziguadamente. Um sorriso aflorou-lhe enquanto os seus passos se perdiam, encontrados.

7 Abr 2016

Anónimos

Imprecisa, em 1986, uma notícia informava que um condutor de triciclo cometera suicídio pendurando-se no gradeamento da ponte Macau-Taipa

triciclos almeida ribeiroOperfil da cidade parecia benevolente na contraluz do sol poente. Com a ponta do pé, que recolheu de imediato não fosse haver um poço sem fundo, sentiu a água morna e o lodo do leito do rio. Sentiu repugnância. Decidiu pôr-se de novo a nado, duas cabaças atadas à cinta. Nadou até sentir um apoio sólido por debaixo da fina camada de lama. Parou no molhe, exausto.

À direita, na ligação da barreira de pedra, pescadores lançavam redes esticadas por quatro bambus. À esquerda, o vulto de uma igreja no cimo de uma colina. Olhou para trás, levou a mão à cintura e puxou a corda fina de fibra de coco. Foi puxando, encostado às rochas, receando os fachos de luz que um farol projectava. Por fim, a corda trouxe um saco de pano. Encostou a cabeça ao molhe e respirou fundo. Chegara. Lentamente, desatou a corda apenas pelo tacto e desembaraçou-se das cabaças. Com cuidado subiu as pedras do molhe. Os intermitentes lampejos do farol permitiram que visse os pescadores, bambus ao ombro, dirigirem-se para terra firme. Deitou-se, o saco fazendo de almofada, para que a roupa secasse, mas adormeceu, não soube por quanto tempo. Acordou sobressaltado, olhando um céu estrelado. Não sabia as horas. Levantou-se e decidiu que tinha de caminhar. Subindo dois degraus que o trouxeram para terra, vislumbrou perto umas árvores. Mais longe, contra o céu ainda escuro, erguia-se uma massa ainda mais negra.

Guó Jianjun atravessou lesto a estrada deserta, os braços apertando o saco contra o peito. Embrenhou-se na terra batida, sentindo a humidade sob os pés. Havia um cheiro que o fez recordar os campos que atravessara a cavalo. Agachou-se, concentrando os sentidos para entender a razão daquele odor. Discerniu uma barraca ao longe. Sapos coaxavam e mosquitos zuniam perto, numa sinfonia que lhe era familiar. Viu uma bananeira com fruta por colher. A fome apertava, comeu. De uma lata, bebeu água, mão em concha.

Lá para Oriente já clareava e uma luz acendeu-se na barraca próxima. Junto à bananeira, escavou rapidamente a terra húmida. Abriu o saco, retirou algo que colocou no buraco, e cobriu-o novamente. Colocou um pesado pedregulho por cima e alisou a terra. Olhou em volta. Precisava fixar o local antes de se afastar.

Amanhecia quando Guó chegou à cidade. Olhou em redor para se orientar. Encaminhou-se para uma rua. Tudo era novo aqui. Os edifícios recordavam-lhe vagamente Xangai, Tsingtao, mas aqui tinham um sabor que não sabia decifrar. Sobre jornais velhos, esteiras, caixas de papelão espalmado, viu gente a dormir debaixo de arcadas.

Guó Jianjun tinha servido Chiang Kai-shek desde os tempos de Xangai. Tornara-se um dos elementos de ligação entre o Generalíssimo e o chefe do Grupo Verde, Du Yusheng, a quem chamavam “Du, orelha grande”. O Grupo Verde era uma seita que fazia os trabalhos sujos para o Kuomintang. Chegara a major quando a debandada no seu regimento começou, depois das notícias de Nanjing. Pegaram no ouro que puderam, meteram-se a caminho, cada um por si, e deixaram Xangai para os japoneses.

Conseguira chegar a Ao Men. Era a última etapa. Pelo caminho, vira cadáveres que boiavam nos braços do delta. Tinha conseguido contornar os guardas japoneses, nunca largando o saco. Da ilha vizinha tinha olhado a cidade, mas não se atrevera a atravessar aquele braço de água porque lanchas patrulhavam junto aos juncos em descanso.

Ouvira tiros, vislumbrara caçadores que se entretinham a caçar. A sua Mauser C96 perdera-a na fuga. Tirara o uniforme e lançara-o a um poço numa aldeia abandonada. Caminhou até onde tudo era deserto e, na calada da noite, foi atravessando ilha a ilha. Quase desesperara.

Guó Jianjun, curvado, percorreu as arcadas. Passou por uma praça de traça ocidental. Procurou andar por ruelas, evitando expor-se. Meteu por uma viela, assinalada numa placa como Rua dos Cules e, ironicamente, desembocou na Rua da Felicidade. Desorientado, virou à direita, na Travessa do Aterro Novo. Encontrou uma casa de câmbios e de penhores. De cabeça ainda rapada, rosto sujo, preocupava-o não se fazer entender. Olhou em volta e entrou rapidamente, contornando um alto biombo vermelho. Olhou para cima, para o funcionário atrás das grades protectoras. Pôs a mão na cintura e retirou das calças um lingote de ouro bem amarelo, quase quadrado, com a inscrição 999 e, por baixo, 1000. Deveria ter de espessura um dedo.

O funcionário olhou a peça com ar de treinada indiferença. Olhou para Guó e, sem querer, tremeu. Guó Jiajun olhava-o com um olhar que há muito não tinha. Era um olhar frio, gélido, impiedoso. O homem retirou-se, e Guó ouviu-o falar com outro num dialecto desconhecido. O homem voltou, olhou de dentro da jaula. Disse-lhe algo em cantonense. Guó respondeu uó pu tong(1) . O outro pegou numa folha e escreveu com o pincel “o câmbio está a oitocentas patacas”. Guó olhou para ele e rosnou ” Huángjīn shì jīn” (ouro é ouro). Os olhos eram duas ranhuras. O homem voltou a conferenciar com o superior invisível. Aproximaram-se os dois e o patrão olhou, mirou, e, atarantado, gaguejou “ni shi, ni shi” (você é, você é…). Os olhos de Guó abriram-se mais, aquele rosto gordo não lhe era estranho. “Ni shi lu ma?” A frase era enigmática, pois lu tanto podia significar verde como corça. Guó sorriu, levou a mão direita ao externo, o polegar e o dedo mínimo abrindo-se ao máximo, o indicador e o anelar esticados e o dedo médio recolhido e deixou a mão escorrer lentamente até ao estômago.

O superior deu uma ordem ao funcionário, abriu a porta oculta para Guó subir, ni lai, lai (venha, venha). O outro ficou a contar enormes notas arroxeadas de dez patacas. Cem notas de dez.

Li Gangming reconhecera Guó. Como era pequeno o mundo. As memórias de Du Yusheng, o orelhas grandes, tinham atravessado Xangai até ali. Ambos eram sobreviventes da mais recente das tragédias na China. Ambos tinham receado o poder crescente de Mao e de Zhou Enlai. Os comunistas tinham-se separado dos do Kuomintang desde 1927, embora ambos tivessem combatido os japoneses. Aquilo era uma confusão. Apenas tinha sabido que os do Kuomintang haviam fugido, quando os japoneses entraram em Xangai.

Li levou Guó para outro compartimento, mirou Guó e pegando num pau com uma forquilha, depois de ter consultado uns papelinhos atados à roupa, tirou uma túnica e calças largas que lhe entregou.

O funcionário, agora reverente, entregou com as duas mãos um embrulho com as mil patacas. Foi buscar uma bacia de esmalte, água quente e entregou uma toalha para Guó limpar o corpo.

Meia hora depois Li Gangming e Guó Jiajun, agora apresentável, saíram e foram jantar. A guerra acabara, era tempo de se ajustarem algumas contas.

Guó passou a viver à grande, quarto no Hotel Central. Jogava com frequência. Li Gangming fora obrigado a fechar a casa de penhor, vendera a licença de cambista por bom dinheiro e partira para Hong Kong.

Aos poucos, a cidade foi-se despovoando dos refugiados. O mundo não parava. Muitos ficaram, adaptando-se ao pequeno burgo. As idas de Guó Jiajin ao buraco junto à bananeira pararam. Esgotara tudo, estoirara tudo numa febre autodestrutiva, numa raiva contra o destino. Vivia na miséria após alguns, poucos, anos de abundância.

Pedalava um triciclo, tez queimada do sol, longas barbas brancas, e corpo magro, ressequido. Falava sozinho.

Nos anos oitenta, um jornal noticiou, de forma vaga, um suicídio.

Era Guó Jiajun que havia desistido de viver. Durante a noite, o ex-major tirou o cinto, atou-o ao corrimão da ponte, enfiou a cabeça e deitou-se de barriga para baixo e deixou-se asfixiar. Morte anónima, a do condutor de triciclo.

3 Mar 2016

Nos idos anos 40

Saiu para a rua Central respirando o ar húmido. Era já noite. O dia tinha sido cansativo no Comando, mas decidiu não ir directo para casa. Mudara-se no Gabinete e vestia agora um fato de linho cinzento que o mainato entregara ao ordenança. Dispensou o carro. Desceu o troço que o conduziu à Almeida Ribeiro, olhando de passagem para a rua que levava ao Tribunal.

Baixou a cabeça, num cumprimento seco, quando o polícia mouro lhe fez a continência. Àquela hora, ainda não tardia, já o silêncio pairava naquela zona, iluminada por candeeiros de mercúrio, de uma luz crua, algo azulada. As escadinhas, anexas ao edifício dos Correios, estavam vazias. Apenas se distinguiam, mais distantes, uns vultos junto ao casarão na esquina com a Travessa de S. Domingos. “Mais refugiados a morrer de fome” pensou, enquanto acendia um Lucky Strike, suprimento que uma sombra lhe fornecera e que no mercado negro custava quarenta patacas.

Pôs os pensamentos e os escrúpulos de lado. Voltou à esquerda e entrou na Almeida Ribeiro. Ao chegar ao Senado, olhou para o Largo e para os escassos automóveis estacionados. De uma janela próxima, um erhu(1) gemia histórias antigas, enquanto um carro preto virava à direita, vindo de S. Domingos. Ferreira mordeu os lábios, irritado por ter dispensado o motorista.

Estugou o passo por instinto, passou pelo “Soi Cheong” que ainda se encontrava aberto. À porta, um jovem de olhos protuberantes cumprimentou-o: “Mom noiti sinhó”. Ferreira saudou-o com um gesto. Ali, a dois passos, do outro lado da avenida, erguia-se imponente o mais alto edifício de Macau, o Hotel Central do Comendador Kou Ho Neng e Fu Tak Iam, concessionários do jogo através da sua Tai Heng & Co. O Hotel tinha sido construído a pouca distância da ponte-cais onde o “Tai Loi”, o “Takshing” e o “Fatshan” atracavam. Os passageiros, nas três horas de agradável viagem desde Hong Kong, jogavam nos salões principais o “pai kao”, espécie de dominó chinês, indiferentes ao histórico mar, às ilhas e alforrecas que se patenteavam a quem ficasse no convés.

O coronel parou defronte à entrada do Central. Respirou fundo e cruzou solene a Almeida Ribeiro para o feérico átrio Art Deco versão local, pintado a creme. Entrou no elevador e premiu o botão do primeiro andar. Subiu e o abrir da porta coincidiu com o intempestivo barulho de gente excitada, vozearia, risos e demais sonoridades de emoções diversas. Os homens das mesas de fan tan ou do tai siu e ku sêk usavam largas calças chinesas e confortáveis sapatos pretos de solas de feltro. Alguns deles atarefavam-se a retirar das cestinhas, que se suspendiam dos varandins do andar de cima, o dinheiro das apostas gritadas lá do alto. Deu uma volta, viu poucos conhecidos, tudo estava em ordem. Observou os seguranças nas suas túnicas, as pistolas cuidadosamente ocultas, abanando-se em largos leques de papel castanho e fumando cigarros enrolados à mão.

Aniceto Ferreira estava em pleno coração da vida nocturna de Macau que, apesar da guerra circundante, não parava.

Entre os diversos refugiados aqui aninhados, de Hong Kong, Xangai, Chung Shan e Foshan, entrados pelas Portas do Cerco antes do seu fecho pelos japoneses, havia também russos e russas brancas, fugidos desde há muito do distante Norte, em inenarráveis trajectórias de sobrevivência. O modo como toda esta gente vivia, era, na maioria dos casos, desconhecido. O Governo acolhia os que podia. As mulheres de guerra, para sobreviver, convergiam para os locais de diversão nocturna, fossem belezas de Xangai ou de Vladivostok. Outros dedicavam-se a tarefas de respeitáveis profissões. Os anónimos dos anónimos iam morrendo à fome pelos cantos, desistindo da luta, exaustos de tanto fugir.

vista de Macau

A cidade era um enxame silencioso de gente em sofrimento. A população local, compassiva mas impotente, procurava ajudar como podia, partilhando o dispensável.

Ferreira tornou ao elevador, esperou e, desta vez, premiu o botão do quinto andar. Saiu para outra atmosfera. Uma orquestra de metais tocava as canções em voga. Foi abordado por uma jovem que lhe ofereceu tickets, cartões que permitiam ao comprador fazer par com as dançarinas que se vislumbravam sentadas ou na pista. O resto era ajustado durante a dança.

Olhou do pequeno vestíbulo para o salão. Não era muito tarde, mas já lá se encontravam oficiais japoneses bebendo mao tai, acompanhados por damas que lhes enchiam os copos. Mais além, para a direita, vislumbrou duas mesas com chineses, alguns envergando fatos tradicionais, outros, com negros cabelos luzidios de brilhantina, vestiam à ocidental. Ferreira lamentou estar sozinho, sem nenhum dos seus agentes mais conhecedores do meio. Parecia que tinham convergido para ali todas as facções em conflito, no oásis de tréguas, mesmo assim frágil, que era Macau. Não sabia distinguir os do Kuomintang e os Comunistas. Os das seitas já sabia que andavam de cabaia curta e calça larga. Tudo isto lhe passou pela cabeça em escassos segundos. Agora não podia recuar, tinha de entrar.

Parou perto da mesa dos oficiais japoneses. Acendeu um cigarro, mas queimou-se com o fósforo e fez um esgar. Um dos oficiais japoneses sorriu, abriu a sua gunto(2) com a mão esquerda e, mostrando um pedaço da lâmina, passou o dedo, sorrindo sempre. Sem desviar o olhar de Ferreira, fez cair o sangue no mao tai e bebeu. Levantou o copo e, entre as gargalhadas dos outros, gritou kampai(3). O coronel sentiu o rubor subir-lhe ao rosto, desviou os olhos e afastou-se em direcção às mesas da direita, onde os ocupantes, se tinham tornado tensos a olhar os nipónicos. Ferreira engoliu a provocação, sabendo que qualquer resposta seria um rastilho curto para uma confrontação. Havia os colaboracionistas dos japoneses, havia as seitas, estava lá todo o mundo. Aquilo era um barril de pólvora embalado ao som de uma orquestra. Em 1941 os americanos entraram na guerra, em 1943 os japoneses tinham rompido a neutralidade de Macau, atravessando as Portas do Cerco, na tentativa de apreender um navio mercante britânico. A polícia enfrentara-os, mas estes causaram 20 baixas e Macau foi forçado a tornar-se protectorado nipónico, com oficiais destacados como conselheiros. Ferreira odiava-os entranhadamente.

Sentou-se numa mesa vazia. Bebeu de um trago o CRF que pedira e pensou ter sido sábio não extremar posições. A contenção custara caro ao seu ego, mas pelo menos não se viria a arrepender. Estava certo que os aliados venceriam. Pearl Harbour tinha sido em 1941 e já se estava em 1944.

A súbita aparição de Silva no salão interrompeu os pensamentos de Aniceto Ferreira. Parecia procurar alguém, mas tendo encontrado o chefe, encaminhou-se na sua direcção, sempre com a mesma expressão. O Silva nascera e crescera em Macau e, na polícia, era um dos homens da sua confiança. Conhecia todos os meandros, sabia distinguir as facções, reconhecia as hierarquias das seitas, entendia a noite onde tudo acontecia.

Silva, pedindo licença, sentou-se. Ali não eram obrigatórias demasiadas formalidades. Ferreira perguntou se havia novidades.

“Se dá licença, sugiro sairmos daqui já. Houve um pequeno incidente…” disse Silva, oferecendo um cigarro, cigarreira de prata aberta. “O que houve?” perguntou Ferreira, incomodado por não ter trazido o revólver. Por cima do ombro viu entrarem mais dois dos seus homens, que se sentaram numa mesa perto da entrada, um deles chamando o empregado. Este inclinou-se, ouviu, aquiesceu e foi-se com a bandeja vazia.

Silva respondeu que explicaria depois. Levantaram-se e saíram da sala sem incidentes. Aguardaram o elevador e a vendedora de tickets saudou Silva com um tradicional “Vai embora tão cedo, Si Sing Sáng?”

Os seus outros dois homens seguiram-no silenciosamente. Fechadas as portas, saudado o comandante, o Silva confidenciou: “Meu comandante, um homem caiu lá de cima e matou um condutor de triciclo. Não é bom estar aqui”. Ferreira ouviu, imaginando mais um desgraçado a atirar-se à rua depois de perder tudo ao jogo. Morte era coisa que não faltava. Todos os dias se encontravam cadáveres pelas ruas ou vielas, mortos de fome ou assassinados. As facções guerreavam-se surdamente nas sombras da frágil trégua.

À saída, um dos acompanhantes à frente e o Silva e colega a ladearem Aniceto, viraram à direita, dirigindo-se para a Rua dos Mercadores. Na outra rua que ladeava o Hotel, a rua Oeste do Mercado de S. Domingos, uma ambulância recolhia os restos da tragédia tornada quase banal.

Caminharam em silêncio até ao mercado. Àquela hora e com o racionamento, poucos vultos se viam. Chegados à esquina da Travessa do Soriano, o Silva disse aos outros: “Podem ir, eu acompanho o comandante”. Silva sabia que protegendo o comandante ganharia ascendente sobre este. A comunidade militar era pequena e o incidente poderia criar embaraços desnecessários. “Meu comandante, não se preocupe, nós tratamos disto. Vá descansar”. Tinha tudo preparado e, assim que desembocaram junto à entrada do mercado, um carro insuspeito acolheu Aniceto Ferreira. “Boa noite meu comandante” despediu-se Silva. Dentro reconheceu o seu motorista. Aquele Silva era competente como o diacho, porém tinha artes de o apanhar sempre em contrapé e ser-lhe útil. Como teria ele sabido do seu paradeiro, perguntou-se. Sentiu-se vigiado.

O carro seguia agora pela Praia Grande, em direcção à Av. da República. A-Leong, o motorista, conduzia sem uma palavra. Aniceto olhava o breu onde alguns tancares(4) e sampanas(5) aguardavam a maré vaza. Sentiu um vazio e questionou-se sobre o sentido do seu papel ali. Não dominava o chinês, as sombras não lhe eram familiares como eram aos seus subordinados, que conheciam as faces e as máscaras das diferentes facções. Sentiu-se enredado numa teia de guerra onde precisava, verdadeiramente, dos seus homens para agir.

Suspirou, cruzou os braços e deixou-se conduzir, disposto a não lutar contra o que o ultrapassava. Como militar, tinha informações do mundo e do modo como a Guerra do Pacífico se desenrolava. Soubera que as tropas nipónicas estavam a sofrer pesadas baixas e tinham começado os voos dos kamikaze(6) contra os navios americanos na região. Era o último recurso. Porém, isso não invalidava o seu sentimento de impotência e o modo como tinha de se forçar por ignorar o que via pela cidade. A noite engoliu-o no conforto da casa e, com a ajuda de uma garrafa, mergulhou no sono do esquecimento.

No centro da cidade, e porque não era só o comandante que tinha informações, a noite ficou marcada pela morte de colaboracionistas japoneses. Começava lentamente a raiar o dia do fim do conflito.


(1) Violino chinês
(2) Sabre militar japonês
(3) Brinde em japonês, significando “copo seco”.
(4) Tancar, bote muito ágil com remo na popa.
(5) Sampana vem do chinês sám pán, três tábuas, largura de três tábuas.
(6) Vento divino.

25 Fev 2016