Valério Romão

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

O corpo digital

Esta síndrome Mr. Hyde cibernético, pela qual um sujeito cordial na vida quotidiana se transforma num arruaceiro digital radica fundamentalmente na ausência de corpo que é a marca de água da presença da identidade nas redes sociais. Do corpo e da forma como este condiciona e define a nossa relação com outrem

Um adeus invisível

A s redes sociais vieram revolucionar a forma como fazemos negócios, como acedemos à informação ou como ouvimos música. Mas acabaram por...

O Verão há muito tempo

Em Agosto, como a maior parte dos emigrantes, regressávamos a Portugal. Com o carro carregado de parafernália electrónica, queijo Brie e brinquedos, empreendíamos a viagem de carro que durava dois dias e duas noites de Clermont-Ferrand a Tavira.

O peso do braço

É frequente ouvirmos louvores acerca do trabalho e dos méritos de quem sobe a pulso na vida com pouco mais do que o suor do rosto. Nem o Cristiano Ronaldo escapa às loas que se tecem sobre o esforço e as suas recompensas. Como o português de César Monteiro, Cristiano Ronaldo não nasceu Cristiano Ronaldo, tornou-se Cristiano Ronaldo. E isso fá-lo ainda mais extraordinário. Melhor que o Messi.

Agora, o regresso

Lembro-me de quando ganhámos o Euro. Vi o jogo com uns amigos nos kebabs do largo do Conde Barão. Os paquistaneses tinham instalado uma televisão uma televisão na esplanada e asseguravam um fluxo ininterrupto de cerveja do balcão para as mesas

A infância ao longo da vida

Escrever tornou-se para mim uma forma de tentar acercar-me do mistério. É o meu espaço possível. É onde encontro a infância, o outro, o exótico e o familiar, os meus mortos e os mortos alheios, aquilo que deixei pelo caminho e aquilo com que fui substituindo o que deixei.

Não dá mais

Desta vez foi o Bourdain. Sem que nada o previsse, decidiu fazer check out. Para nós, que assistimos à morte alheia do conforto do sofá, é incompreensível.

O ar do tempo

Não sei o que aconteceu à minha geração e às gerações que lhe sucederam. Provavelmente fizemos más escolhas; não devíamos ter cursado filosofia, literatura ou belas-artes. Deveríamos ter optado por percursos convencionais e seguros. Direito, porventura; gestão, economia, ciências exactas.

Uma crónica (quase) sobre bola

Como qualquer narcisista profissional, a gravidade do assunto não o melindrou um instante que fosse; a doçura do holofote apazigua qualquer tragédia. Tudo é forma, imagem, prestação, eu. Nada é conteúdo. Dir-se-ia do rapaz Bruno de Carvalho que seria possível vê-lo feliz da vida num velório desde que estivesse a ser filmado.

A serra

Os meus avós maternos moravam numa localidade com uma dúzia de casas, no algarve profundo, um sítio chamado Vale de Ebros (que sempre achei que se escrevia Vale de Zebros – porque era assim que o pronunciavam – até erguerem uma tabuleta à entrada)

Das matizes da paixão

Uma das razões pelas quais o amor continua a merecer a atenção dos poetas é a sua inesgotável capacidade de nos desassossegar.

Das consequências da tecnologia

Até os mais analógicos – por militância ou desconhecimento – têm presença em uma ou mais redes sociais.

Só dez por cento é verdade

"Olha, estava a pensar propor-te uma coisa: tenho visto os teus vídeos no Facebook, curto imenso da forma como tocas guitarra, acho que estás a ter a atenção que mereces e vais chegar muito longe. O meu primo tem um bar aqui onde vivo, é sensivelmente a uma hora de Lisboa, poderias vir cá um dia destes tocar, ficavas em minha casa, eu fazia-te o jantar e o pequeno-almoço, só tinhas de pagar as passagens, ia ser super divertido e era bom para te promoveres, o bar não é grande mas conseguimos ter lá na boa 30 pessoas se anunciarmos o teu nome com antecedência, e podes beber à pala.”

O autismo, ano a ano

No dia 2 de Abril é inevitável que vos fale de autismo. Tendo em conta de que o resto do ano carrego esse peso sem vos aborrecer por aí além, parece-me justo que hoje, apenas hoje, possamos fazer de conta que repartimos a carga

E depois disto?

Terminada uma trilogia que me ocupou os últimos cinco anos de vida, é inevitável pensar no que vai acontecer a seguir. No que vou escrever. Um romance é uma longa travessia solitária de resultados imprevisíveis que não enriquece ninguém – salvo raríssimas excepções.

A fábrica de radicais

Há regras que nunca passaram por uma fase de redação e de concordância e que, ainda assim, são comummente reconhecidas e implicitamente aceites. Uma delas, e de que damos conta todos os dias e cada vez mais expressivamente, é a que consiste na impossibilidade de ter uma conversa ou discussão minimamente civilizadas no Facebook.

Os nossos minúsculos virtuosos

O que existe, outrossim, é uma frequência no Mestrado em Sociologia na Universidade de Évora, na variante Poder e Sociedade.

Os sítios entre sítios

Um sítio onde tenhamos um vislumbre de nós mesmos. E, por vezes, os quartos de hotel são esse sítio, esse monastério possível da pós-modernidade.

A última morada

Quando voltaram, os coveiros vinham com marretas. À vez, como os trabalhadores dos caminhos-de-ferro enfiando tachas no solo, batiam com as marretas no caixão

A nossa primavera perpétua

Não é suposto fazer frio em Portugal. Nem calor. O nosso clima mediterrânico é, por definição, ameno.

A grande purga

Depois de semanas de bullying público – queimaram-lhe o carro, envenenaram-lhe o cão, grafitaram-lhe as paredes – o homem acorreu à polícia para pedir protecção.

Até chá!

Nos primeiros tempos deste Alcatraz alimentar só se ouve “passa-me o sal”. Mas como a fúria adelgaçante não poupa nada, até o sal deixa de ter sabor. É quando se resignam.

As muitas caras da morte

Não contente com o afastamento da morte, o homem moderno afasta tudo quanto possa estar remotamente ligado a ela: a velhice, a doença, a exaustão física e mental.

Regressar não é um conceito preciso

Aos poucos, deixei de ser um corpo estranho para passar a ser apenas mais um nerd sem óculos. Até aviar-me deixou de ser divertido.