Valério Romão

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Valério Romão, 1974, licenciou-se em Filosofia e é escritor, contista, dramaturgo, tradutor. Seleccionado como Jovem Criador nacional no início do século, tem diversos livros publicados e é um dos nomes sonantes da nova literatura em Portugal. Foi finalista do Prix Femina 2016.

Que faremos quando tudo arde?

Até agora, 62 mortos. É possível que sejam mais, consequência de um dos piores incêndios de que há memória. Que fazemos? O governo diz que a culpa é do calor e da trovoada seca. A oposição diz que a culpa é do governo e da péssima gestão dos recursos disponíveis. O governo diz que a culpa é das péssimas decisões que a oposição tomou quando era governo.

We are so so lost

Quase todos os indicadores pelos quais se mede o bem-estar e desenvolvimento humanos nos dizem que nunca tivemos tanto dinheiro, tanta tecnologia e tanta saúde.

Do turismo

O turismo chegou para ficar. Pelo menos enquanto Lisboa for a capital do cool e da luz de Byron, os portugueses o povo mais acolhedor da Europa e Portugal um país tão pacífico como ridiculamente barato.

As 72 virgens

As religiões que conheçam postulam, todas elas, um paraíso. Este cumpre a função de resolver da morte e da sombra que esta projecta sobre todo e qualquer homem, sem excepção.

A arma do conto

Diz-se amiúde que o conto não vende. É provavelmente das poucas afirmações sobre a qual existe uma concordância generalizada e transversal aos intervenientes da cena literária

Manual de terrorismo ontológico

Os dois rapazes entraram e sentaram-se. O autocarro estava estranhamente vazio, ao contrário do que seria expectável em hora de ponta

Da desmesurada importância dada à informação

A informação tem, por definição, um carácter neutro. Enquadra os factos, explica-os, mas escusa-se a tomar partido

Do obscurantismo

O recente surto de sarampo em Portugal fez com que a vacinação voltasse a ser discutida, sobretudo nas redes sociais. A vacinação é responsável pela erradicação, por exemplo, da varíola, que só no século XX matou cerca de quinhentos milhões de pessoas.

Cenas de um casamento

Uma amiga foi convidada para tocar piano num casamento e, embora a profissão dela esteja de facto ligada à música, recusou por achar não ter nem talento nem tempo suficiente para se preparar para a ocasião.

Da natureza da discórdia

Há duas semanas estava no Cais do Sodré a beber uma cerveja com amigos quando um homem, imiscuindo-se no grupo, me interpela acerca do assunto que discutíamos: o presidente Trump e a sua capacidade aparentemente inesgotável de fazer inimigos da esquerda à direita.

Da compreensão simplificada do autismo

O dia de ontem, 2 de Abril, é o dia mundial da consciencialização do autismo. O meu filho tem treze anos e, com apenas dois anos e meio, foi diagnosticado com uma perturbação do espectro do autismo.

Da arte de contar uma história

Walter Benjamin diz que os contadores de histórias se podem dividir, fundamentalmente, em dois tipos cujas raízes são tão antigas como a própria necessidade de contar uma história.

O problema dos clones

Um destes dias jantei com uma amiga, a Inês, e, a páginas tantas, ela confessa-me a sua relutância em ser teletransportada. “O teletransporte, a existir”, assegura-me, “não funcionaria como vemos nos filmes de ficção científica”.

A sabedoria do cão

Há poucas figuras históricas pelas quais nutra o interesse e a admiração que nutro por Diógenes, o Cínico.

Da indignatite contagiosa

Há umas semanas, um amigo partilhou um excerto do meu romance Autismo no Facebook. Uma pequena passagem do primeiro capítulo no qual uma das personagens expõe, atabalhoadamente, a sua visão amarga da vida e do amor.

As Incríveis Aventuras do Cabeçudo de Tunes

Há pouco tempo, numa daquelas conversas de café em que cada um dos intervenientes compete pelo troféu da história mais bizarra da noite, lembrei-me de uma personagem do Algarve, do meu Algarve da adolescência, pontuado pelo sol e pela praia

What’s new pussycat?

É frequente perguntarem-me, até em eventos de carácter literário, nos quais as perguntas tendem a ser sobre personagens, contextos ou sobre o papel da inspiração – seja lá o que isso for – no ofício da escrita – seja lá o que isso for – “então e os gatos, qual a importância dos gatos na sua vida?”

Os filhos dos outros

Na minha vida civil trabalho em informática, e não raras vezes tenho de ir a Barcelona, ora para resolver problemas específicos da empresa em Portugal, com ajuda dos meus colegas espanhóis, ora para assistir aos infindáveis monólogos motivacionais a que as pessoas, por inexplicável obstinação semântica, continuam a chamar “reuniões”.

A bizarria como fonte

Acontecem-me coisas estranhas em todo o lado. Para a maior parte das pessoas, a ingerência cíclica da bizarria nas suas vidas é, no mínimo, um indesejado impedimento de que se livram tão depressa quanto lhes é possível. Para um escritor, no entanto, o absurdo não interrompe a vida.