António de Castro Caeiro

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Doutorado em Filosofia, António de Castro Caeiro é professor universitário, ensaísta, tradutor e investigador, tendo por áreas de investigação a Filosofia Antiga, a Filosofia Contemporânea e a Fenomenologia.

Da noite para o dia

Um qualquer instante pode durar muitos anos. Um instante tem uma distensão temporal.

Cinco poemas de Georg Trakl traduzidos

Decadência, que suave ensombra a folhagem. / O seu amplo silêncio mora na floresta. / Em breve, uma aldeia pode inclinar-se, como um fantasma. / A boca da irmã sussurra nos ramos negros.

Decisão I

A partir de determinada altura, deixamos de ter aniversários. Fazemos anos todos os dias. Ficámos, de algum modo, à espera. O que era para nós um projecto vital pode ficar hipotecado.

Linguagem II

As formulações de Heidegger, em “A linguagem (Die Sprache)”, não são as mais fácil e directamente inteligíveis. Não são óbvias. A linguagem não é expressão, mas é chamamento

Linguagem I

A tese positiva que Heidegger diz ser a que resulta da inteligibilidade intrínseca da linguagem é formulada numa tautologia

Melancolia do fim

Mesmo sem possibilidades enormes ou oportunidades objectivas, filtra todo e qualquer conteúdo, sem excepção, com a compreensão da véspera auspiciosa do que aí vem.

Uma nota sobre o olhar. Para o João Paulo Cotrim.

Quando se produz uma alteração radical no modo de ver as coisas e no modo das coisas aparecerem, pode haver um abalo na normalidade habitável. Desde sempre na antiguidade que esta estranheza no modo de as coisas aparecerem foi traduzida na linguagem do espanto e da admiração, da reverência, até.

Raccord I

O que quer dizer que o meu olhar se perde nele como se perde no céu azul, deixando-me sem distância para a proximidade e o que está à mão

Sobre o pecado

Peter Sloterdijk descreve o discurso apostólico uma telecomunicação. E é telepática. “Já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim.” Tal como Paulo, Agostinho é constituído mensageiro de um conteúdo que não é humano. É embaixador de um reino que não está disponível

Sinais II

Tudo à nossa maneira, como queremos, a possibilidade de fazermos tudo o que nos apetece.

Sintomas I

Todo o conteúdo apresentado pode ser interpretado de diversas maneiras.

Diagnósticos II

Desde sempre o futuro se abriu e começou a contar em modo decrescente o tempo que já não temos para viver, as possibilidades que são obliteradas, a compreensão do maciço que se aproxima com o seu fim.

Diagnóstico I

Tucídides convida quem quer que o leia a percorrer tudo o que descreveu a partir dos testemunhos a que aludiu. E não ficará enganado. O sentido das suas formulações é diferente do dos poetas e do dos repórteres. Os poetas “cantaram” estes assuntos para lhes darmos crédito

Medicina e pensamento arcaico

O presente não é o resultado de uma percepção. Antes, há percepção, porque temos continuamente acesso ao presente.

Da medicina antiga II

Em “Sobre os ares, as águas e os lugares”, texto do corpo hipocrático, lemos a complexidade dos elementos que intervêm no diagnóstico médico.

Da Medicina Antiga Iª Parte

O perigo existe sem dúvida quando não temos percepção de fenómenos que são subliminares aparentemente.

Poesia de Georg Trakl

Ao anoitecer ouvem-se os morcegos trissar. / Dois cavalos pretos saltam sobre o prado / O ácer vermelho rumoreja. / Ao viandante aparece a pequena taberna à beira da estrada.

Ao domingo, ao fim da manhã

Viver com ruínas humanas afastam-nos de pessoas cheias de futuro, mesmo que saibamos o que a vida é. Mais tarde ou mais cedo, ninguém terá futuro

Barajas em modo de espera

Passou-me pela cabeça andar nos tapetes rolantes ao contrário. Mas não tive coragem. Houve muitos mais "cortados".

Poesia de Georg Trakl

À janela, em flores, regressam as sombras do campanário / E do ouro. A testa quente abrasa em repouso e silêncio. / Do ramo do castanheiro, uma fonte cai na escuridão- / E então tu sentes: É bom!, no esgotamento doloroso.

Colagens

Um texto sobre partes da carne e fragmentos. É do “corpo-aos-pedaços” de que se trata. “Este texto é feito de impressões, sobretudo visuais, que resultaram [da] infância”

Poemas de Georg Trakl

À janela, em flores, regressam as sombras do campanário / E do ouro. A testa quente abrasa em repouso e silêncio. / Do ramo do castanheiro, uma fonte cai na escuridão- / E então tu sentes: É bom!, no esgotamento doloroso.

O lugar das coisas

Os sistemas de rotina nem sempre coincidem de pessoas para pessoas. Basta perceber que há pessoas arrumadas e pessoas desarrumadas.

A Bela Cidade

A bela cidade   Velhas praças solarengas calam-se. No azul profundo e ouro imersas, Precipitam-se sonhadoras freiras doces, Para baixo das faias abafadas e sufocantes.   Das claridades castanhas das igrejas, Contemplam...