Evandro Carvalho, docente na UPM: “Há resistência à presença brasileira”

Depois de temporadas de ensino e investigação na China, o académico brasileiro e especialista em Direito Internacional Evandro de Carvalho reforçou os quadros docentes da UPM. Em entrevista, analisa as relações China-Brasil com Lula da Silva e denuncia “resistência” à maior presença brasileira no território

É professor na Universidade Politécnica de Macau (UPM) há pouco tempo, depois de um percurso académico na China. O que o motivou vir trabalhar para a RAEM?

Morei em Xangai durante três anos, de Fevereiro de 2013 a Dezembro de 2015. Essa foi a minha primeira temporada na China. Depois fui o que chamam de primeiro “Foreign Senior Expert” do Centro BRICS da Universidade de Fudan, também em Xangai. Tudo isso ampliou bastante a minha compreensão sobre a China. Voltei para o Brasil de 2016 a 2019. Deu-se a pandemia, fiquei no Rio de Janeiro, voltei em 2023 para Pequim para mais um ano académico. Quando voltei de Xangai, em Dezembro de 2015, encontrei um Brasil em processo inicial de desfiguração.

Em que sentido?

Ocorreu o “Impeachment” da Dilma Rousseff, com a acção gradual, mas rápida, da extrema-direita. Tivemos, nos anos da pandemia, o primeiro Governo de Bolsonaro, que politicamente entrou em atrito com a China e abraça o discurso de Trump, referindo-se ao “vírus chinês”. As pessoas estavam a desenvolver um trabalho, e no meu caso tinha um vínculo, que mantenho, com a Universidade Federal Fluminense, onde sou professor de Direito Internacional. Tinha ainda um vínculo à Fundação Getúlio Vargas, onde criei, em 2017, um centro de estudos sobre a China. Mas nos anos da pandemia, que coincide com os anos de Bolsonaro como Presidente, esses temas começam a sofrer uma certa hostilidade da população, de uma parte dos apoiantes em função desse combate político. Aí decidi passar um ano fora, em Pequim, para perceber o que estava a acontecer.

Acha que investigar a China era uma actividade pouco compreendida?

Em primeiro lugar, há um uso político interno do tema China. O alvo do Bolsonarismo, quando falava da China ou do comunismo, era, na verdade, a esquerda brasileira. A China acabou por ser um pouco “vítima” dessas disputas políticas internas. Já existia então uma visão muito estereotipada da China, cheia de preconceitos, muito herdada do período da Guerra Fria. Isso é até estimulado por Trump. Criou-se um ambiente complexo para se trabalhar com autonomia temas complexos. Digo sempre isto: ninguém explica a China em 130 caracteres, que era o slogan do antigo Twitter. A China é um tema com uma complexidade tão fascinante e desafiadora que qualquer afirmação sobre o país, em qualquer assunto, inclui sempre um “mas”, um “porém”. Num ambiente cada vez mais polarizado, não se permitem essas ponderações. Então voltei para a China para terminar o meu livro.

“China: Tradição e Modernidade na Governança do País”, lançado no ano passado.

Sim. Depois voltei para o Brasil e queria ficar algum tempo, e aí surgiu o convite do então reitor da UPM, Marcus Im. Hesitei se deveria vir, porque tinha comprado casa no Brasil há pouco tempo, mas acabei por aceitar.

Porquê?

Depois de ganhar o Prémio de Amizade do Governo Chinês, em 2023, comecei a perguntar-me como seria esse novo ciclo tendo em conta a nova realidade política no Brasil e a nível internacional. Isto porque o terceiro mandato [de Xi Jinping] é o momento em que vemos [uma mudança], na agenda, relatórios do Governo, Planos Quinquenais, uma mudança dramática. Isso era algo gradual, mas até a questão da tecnologia não era tão forte como é hoje. Pensava então no que ia fazer, e como ia ser o contexto do Brasil tão polarizado. Então o convite de Macau acabou por ser interessante, mas interessou-me também o projecto da Zona de Cooperação Aprofundada em Hengqin. Vejo também, naturalmente, a componente da língua portuguesa em Macau e pensei que seria uma forma de trazer o Brasil para essa agenda. Há aqui uma cultura jurídica portuguesa, embora as coisas estejam a mudar muito rapidamente. Enfim, pensei que podia ser o início de um novo ciclo, sabendo que o Brasil não é muito activo no Fórum Macau. Pensei que poderia ajudar nesse contexto todo. Como investigador também me interessa como vai ser esse processo de integração cada vez maior de Macau como a China.

E o que pensa desse processo?

É uma forma de dar um recado a Hong Kong, mostrando que as coisas em Macau estão bem, e também para Taiwan. Acho que o Governo Central quer que tudo isso dê certo em função desses contextos, tendo em conta a chegada do centenário da República Popular da China. O projecto da Cidade Universitária em Hengqin é fantástico. Tudo isso fez com que tenha vindo. Vivi e gosto muito da China, mas Macau é uma cidade pequena e tem as suas especificidades. Sempre quis, como investigador, entender isso.

Como acha que ficam as relações entre a China e o Brasil com a vitória de Lula da Silva?

Torci pelo Lula. A primeira volta foi uma grande surpresa para o Lula e todo o campo progressista, pois as sondagens diziam que estava à frente com uma pequena margem. O primeiro Governo de Jair Bolsonaro foi, politicamente, um desastre nas relações com a China. Do ponto de vista económico, a balança comercial continua a crescer até hoje. Se Flávio Bolsonaro tivesse ganho, haveria um esfriamento na participação brasileira nos BRICs. Mas há aqui uma questão interessante. Penso que existe no Brasil o consenso, tanto à direita como à esquerda, de querer que o país tenha um maior papel ao nível das relações internacionais. O que muda é a abordagem.

Como?

Para a esquerda é através do fortalecimento dos BRICS, do Novo Banco de Desenvolvimento, do G20. Para a direita é o G7, mas preservando os BRICS. Para uma certa extrema-direita ou uma direita mais, digamos assim, “americanizada”, essa inserção é tanto maior quanto for a conexão do Brasil aos EUA, o que não acredito que seja o melhor caminho. Tudo o que foi dito por Flávio Bolsonaro e o seu irmão Eduardo, e até pelo próprio pai, mostra como o Brasil teria um Governo alinhado, para não dizer submisso, aos interesses americanos.

Falou na ligação afastada entre o Brasil e o Fórum Macau. Como explica isso? Pode haver uma mudança?

Essa é uma pergunta que faço até agora e não tenho resposta. Para a ter ia precisar de uma pesquisa profunda, não sei quantas entrevistas. Mas essa é uma das coisas que estou a pensar fazer, ajudar na compreensão desse problema. Converso com pessoas, diplomatas do Brasil, e percebo que a presença de brasileiros em Macau é muito pequena. Esse é um factor importante, porque também não há muita procura ou ideias, ou até pressão de interesses junto do Consulado brasileiro. Já ouvi outro factor, é que a diplomacia brasileira encarou o Fórum Macau como uma espécie de entrada na China, mas numa área que o Brasil acha que a China não se deveria meter, ou envolver tanto, que é a CPLP. Outro ponto que também me parece importante é o facto de as relações de parceria entre Brasil e Macau serem muito baixas, tanto na área do comércio como no ensino superior. Mas também são baixas porque as pessoas e as autoridades de Macau têm uma compreensão mínima sobre o Brasil. Não vão lá, acham que é um país com uma violência insana nas ruas, com tiroteios. Há uma série de preconceitos, e assim fica difícil. Além disso, as redes de relacionamento e de compreensão do mundo estão muito ligadas a essa relação Macau-Portugal, o que é normal. Acho que essa situação não é boa para o Brasil nem para Macau, não é boa para o Fórum Macau e até para a presença da língua portuguesa. Mas acho que há também uma certa resistência, de uma parte dos portugueses, à presença brasileira em Macau. Isso também precisa ser investigado.

Como explica essa resistência?

Talvez pela concorrência, porque ainda há aquela conversa de que o português do Brasil não é o português de Portugal. É um conjunto de factores e tudo isso tem de ser tido em conta. Há uma certa resistência dos portugueses e depois há os brasileiros que acham Macau pequeno e sem muito interesse. E entende-se que a China criou o Fórum Macau para entrar num território que não era bem aquele que deveria ter. Cada lado tem as suas questões. Mas acho que o Brasil deveria aproximar-se mais de Macau.

Como?

Para quem estuda a China é muito importante perceber esse lado da história das relações com Portugal. O Brasil tem a sua complexidade, é um país de muita emigração, e no Sul há mais italianos ou alemães do que brasileiros, e Portugal nem entra nesse radar. É interessante andar aqui de autocarros e ouvir português, ver anúncios em português. É um activo que a China soube utilizar. Não se fez o regresso da administração do território e apagou-se tudo o que era português – a China não fez isso e foi muito inteligente. E é um erro o Brasil colocar os dois pés atrás em relação à China e ao Fórum Macau. O Brasil podia caminhar lado a lado com Portugal e a China, fazer projectos conjuntos, ser mais activo.

Quando fala da resistência de portugueses, fala de quem concretamente? Da comunidade portuguesa, do Governo em Portugal?

Talvez a comunidade portuguesa, pessoas que estão aqui há muito tempo. Do Governo português, não sei. Não podemos generalizar sobre estes assuntos, mas quando ouvimos uma história de um brasileiro, e tendo em conta comentários que ouço, percebo que há coisas que têm de ser esclarecidas. Acho que o Brasil é um vector de fortalecimento do idioma português. O Brasil faz muito pouco, quase nada, na promoção do idioma português. É Portugal que envia professores para cá e para universidades da China, e é importante que isso seja dito. A política de promoção da língua deve-se uns 90 por cento a Portugal, o que é formidável. O Brasil meio que lava as mãos.

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