Entrevista MancheteGlenn Mccartney, professor universitário: “Existem desafios ao aumento de visitantes” Andreia Sofia Silva - 29 Out 2026 Docente da Universidade de Macau e especialista na área do Turismo, Glenn Mccartney foi orador da palestra “International Visitor Appeal: Putting Macao on the World Stage”, promovida ontem pela Câmara de Comércio França-Macau. Em entrevista ao HM, o académico diz ser importante “alargar o potencial de captação de turistas internacionais” O Governo tem investido recursos na promoção de Macau enquanto destino turístico para visitantes internacionais. Considera que este investimento está a produzir resultados concretos, ou é necessário fazer mais? Os visitantes internacionais representam cerca de 7 por cento do total. Falei, na minha apresentação, sobre a importância de fazer uma análise retrospectiva das últimas duas décadas, quando foram desenvolvidos esforços de marketing e promoção em mercados turísticos internacionais. A questão passa por perceber o que é preciso alterar, por exemplo, ao nível das mensagens transmitidas, dos produtos e serviços turísticos. É necessário reconhecer que nem tudo o que Macau tem para oferecer irá atrair ou despertar o interesse dos turistas internacionais. Dar a conhecer a cidade é uma coisa, conseguir motivar uma visita é outra. Como contornar esse problema de comunicação? É necessário identificar e avaliar, com estudos, os aspectos em que Macau se distingue na capacidade de atrair visitantes pela primeira vez, ou no incentivo de visitas repetidas, tendo em conta os factores que levam alguém a visitar a cidade pela primeira vez, e que podem ser diferentes daqueles que motivam quem regressa várias vezes. É, assim, importante dar prioridade às mensagens turísticas que funcionam e, em seguida, adequar recursos humanos e financeiros, a estratégia, formação e necessidades de marketing. É ainda fundamental o estudo da visibilidade e reconhecimento de Macau nos mercados turísticos internacionais que se pretende alcançar, incluindo a percepção da imagem da cidade enquanto marca turística. É importante realizar estudos junto de potenciais visitantes desses mercados para perceber o que os leva efectivamente a visitar Macau, seja por lazer ou em negócios. Esta abordagem pode fornecer dados valiosos para orientar futuras estratégias de promoção da cidade. Falei também da “comunicação integrada de marketing”, que engloba a diversidade de ferramentas e acções promocionais disponíveis. De que forma isso se relaciona com a realidade local? O desafio consiste em destacar Macau num contexto de elevada concorrência, tanto regional como internacional, marcado pela multiplicidade de destinos, imagens, mensagens e campanhas promocionais. Para isso, é necessário recorrer a abordagens criativas, como a criação de “narrativas” sobre a cidade, e avaliar os resultados alcançados. Outra ideia que abordou foi o possível aproveitamento da imagem cinematográfica de Macau para potenciar a cidade como destino turístico. Tendo em conta o número de filmes produzidos em Macau ou que utilizam a cidade como cenário, referi o sucesso do turismo cinematográfico noutros destinos, enquanto estratégia para atrair públicos internacionais. Mas também a importância de acompanhar as tendências do turismo internacional e de reagir rapidamente às mudanças. Por exemplo, o conceito de “coolcation” está em voga e atrai visitantes que procuram destinos com climas mais frios, uma tendência que Macau poderá aproveitar nos próximos meses, quando as temperaturas forem mais baixas. Sobre a internacionalização do turismo. Macau tem-se tornado, de facto, um território mais internacional, ou as coisas pouco mudaram na prática? Existem desafios ao aumento do número de visitantes internacionais, mas também há medidas concretas que podem ser tomadas para os ultrapassar. Que medidas destaca? A necessidade de definição de uma estratégia que permita concretizar os planos de Macau e mudar a perspectiva: em vez de perguntar “quantos turistas virão a Macau?”, devemos perguntar “como podemos transformar o crescimento da procura turística em visitas de maior valor, tanto em termos de despesa como de experiências, estadias mais longas, visitas repetidas e recomendações positivas de Macau através do passa-palavra electrónico (e-WOM [Electronic Word-of-Mouth])?”. No fundo, trata-se de converter o crescimento do número de visitantes em crescimento das receitas dos sectores do turismo e da hotelaria. Deve-se compreender as experiências e expectativas actuais dos visitantes de Macau, obtendo informações valiosas que contribuam para a definição de uma estratégia de atracção de turistas internacionais. Ao abordar a importância da colaboração entre sectores público e privado, referi a possibilidade de criar um grupo de reflexão dedicado ao turismo. Como iria funcionar esse grupo? Poderia reunir um pequeno grupo de pessoas com diferentes competências, conhecimentos e experiências, onde poderiam estar representantes do Governo e resorts integrados, especialistas em planeamento urbano, geógrafos, peritos em turismo, economistas, ambientalistas, líderes comunitários, operadores de transportes, profissionais da hotelaria, entre outros. A partilha de recursos e conhecimentos permitiria aumentar a eficiência e orientar melhor as acções, ou ainda ajudar a interpretar políticas públicas, aconselhar sobre a sua formulação e os seus potenciais resultados, bem como criar condições para partilhar estudos e estratégias com a comunidade e com os setores público e privado. O Governo tem demonstrado vontade de criar zonas pedonais. Considera que têm sido eficazes? Como podem ser desenvolvidas de forma sustentável e articulada com o resto do território? Tem-se discutido, em Macau, o conceito de “cidade de 15 minutos”, com um modelo de planeamento urbano que iria permitir aos residentes chegar ao trabalho ou escolas em 15 minutos. Este conceito também poderia ser aplicado aos turistas. As zonas pedonais podem, sem dúvida, desempenhar um papel importante neste modelo e beneficiar pequenas e médias empresas (PME) ao aumentar a circulação a pé. Também podem ser introduzidas iniciativas inovadoras, incluindo espaços comerciais temporários (pop-up) ou acções de promoção de eventos culturais e desportivos na cidade. Outra possibilidade seria criar espaços interactivos temporários nas zonas pedonais, envolvendo residentes e turistas em actividades que reforcem a participação comunitária e enriqueçam a experiência dos visitantes. Perante qualquer iniciativa deste género, devemos ouvir as opiniões dos interessados, testar soluções-piloto e recolher comentários e sugestões. É o que está a ser feito, por exemplo, com o actual regime de licenciamento de esplanadas em Macau. Além da restauração, as zonas pedonais podem proporcionar experiências imersivas através da decoração dos espaços, da instalação de exposições de arte e elementos culturais, da realização de espectáculos ao vivo e da articulação com grandes eventos organizados noutras partes da cidade. Também falei do desenvolvimento de uma economia nocturna e factores que podem influenciar o seu crescimento. Então, as zonas pedonais poderiam integrar esta estratégia, com a criação de mercados nocturnos, restaurantes, bares, lojas e estabelecimentos de venda de lembranças, concertos e actuações culturais ao vivo. Mas falei também, na apresentação na Câmara de Comércio, da importância de reforçar a investigação. Falta sustentação de políticas? [Importa] Fundamentar as decisões em dados concretos. Isto aplica-se à avaliação dos impactos e resultados de diferentes iniciativas turísticas, como eventos desportivos ou culturais, mas também a questões como a capacidade de carga turística, a mobilidade, os recursos humanos, a formação e as necessidades de recursos. A investigação poderia incidir sobre diferentes perfis demográficos de visitantes, distinguindo entre quem visita Macau pela primeira vez e quem regressa, procurando perceber se os turistas tencionam voltar e recomendar o destino a outras pessoas, que conteúdos publicam nas redes sociais, quais os seus padrões de despesa e como avaliam a experiência ao longo de toda a sua jornada enquanto clientes. Outro ponto fundamental é o das infra-estruturas e da acessibilidade, que deverão integrar a estratégia de atracção de visitantes internacionais, incluindo o desenvolvimento aeroportuário. Um dos desafios consiste em alargar o potencial de captação de turistas internacionais além do Aeroporto Internacional de Macau, aproveitando também as possibilidades oferecidas pela rede de aeroportos da Grande Baía, que inclui o Aeroporto Internacional de Hong Kong, o Aeroporto Internacional de Guangzhou Baiyun, o Aeroporto Internacional de Shenzhen Bao’an e o Aeroporto de Zhuhai Jinwan. [É importante pensar] na forma como se pode ter mais articulação com o sector hoteleiro de Hengqin, que poderia beneficiar a estratégia de atracção de visitantes internacionais.