Armazém do Boi | “Ambiente sonoro” de Macau contado por Berend Strik

Com que sons se faz Macau? Foi a esta pergunta que o artista holandês Berend Strik quis responder. A resposta surge agora com uma nova exposição a inaugurar hoje no Armazém do Boi, no antigo Matadouro Municipal, e intitulada “Stolen Light – Drawing the Sounds of Macau: Berend Strik”. Em entrevista, o artista diz, por exemplo, que o “som do cantonês é muito peculiar”

O Armazém do Boi inaugura hoje, a partir das 18h30 no antigo Matadouro Municipal, três exposições que nascem de residências artísticas feitas em Macau. Uma delas é a do artista holandês Berend Strik, protagonista da mostra “Stolen Light – Drawing the Sounds of Macau” [Luz Roubada – Desenhando os Sons de Macau], que esteve no território durante um curto período a perceber de que sonoridades este é feito.

A curadoria está a cargo de Liu Gang, tratando-se de uma mostra que traz uma panóplia de apresentações artísticas, com Zoe Tam Hio Tong a dar voz à música apresentada e Yasmijn Karhof no vídeo, num percurso desenhado entre a Santa Casa da Misericórdia de Macau e os casinos. A sinopse desta exposição revela que a “história de Macau não é apenas escrita pelos casinos modernos, mas está profundamente envolvida com narrativas de destino e escolha”.

“Durante a residência no Armazém do Boi, o artista holandês Berend Strik traduziu a paisagem sonora distinta da cidade – do som dos corredores dos casinos até aos sinos do centro histórico – em quinze partituras gráficas”, revelando-se um pouco da história de Macau e das próprias línguas que fazem parte do território.

Questionado, em entrevista ao HM, como o território se revela nesta mostra, Berend Strik explica que “escolher olhar para Macau pode ser comparado à história de um casal que se apaixona”.

“No fundo, todas as pessoas têm a mesma estrutura: nascemos e depois morremos. E, quando morremos, já não temos nada com que nos preocupar, é simplesmente o fim. Mas enquanto estamos vivos, temos de fazer o nosso melhor para tornar possíveis coisas belas e para concretizar aquilo que desejamos. No livro ‘City of Broken Promises’ [Cidade das Promessas Quebradas], há um casal cuja história começa com o amor e se torna complicada. Entretanto, acontecem coisas extraordinárias, e vão continuar a acontecer. Macau revela-se através da história de um casal ali viveu.”

Esta história acaba por contar também “a história da evolução da cidade”, numa narrativa “composta por 32 desenhos e apresentada em forma de libreto”. É aqui que Zoe Tam interpreta o libreto através do canto, “acompanhado por movimentos muito delicados”.

Berend Strik considera que este projecto pode revelar Macau ao público sob uma perspectiva diferente, desde que as pessoas “dediquem tempo a apreciar a actuação de Zoe Tam e observem com atenção os trabalhos têxteis e os desenhos expostos nas duas paredes”. Isto porque, no conjunto, “o projecto transmite uma forma de estar que combina humor, beleza e experiências significativas”.

Diversidade por entender

Berend Strik nasceu em 1960 na Holanda, vivendo actualmente em Amesterdão. Segundo uma nota do Armazém do Boi, o seu trabalho foca-se essencialmente no “significado das imagens”, sendo que “o som e a música mantiveram-se presentes em toda a sua carreira como um tema contínuo”.

Nas suas mãos as imagens são transformadas através dos tecidos e bordados, ganhando novas perspectivas e mensagens. No contacto com as sonoridades de Macau, o artista destaca como “as máquinas de jogo produzem sons por todo o lado, mas a questão está em criar um significado mais contextual para esses sons”.

“O som do cantonês é muito peculiar e parece difícil de compreender. Por vezes, é intenso, agudo e alto, parece que nada é aquilo que significa. Aprender verdadeiramente a língua exige muito mais tempo”, referiu.

“Sempre pensei que os sons são mais universais do que a linguagem. Basta pensar nos sons das máquinas de jogo. Escrever esses sons em inglês não significava que pudessem ser transcritos em cantonês. As línguas são muito diferentes. Pelo que percebi, não existem palavras ou sons que possam ser escritos em cantonês da mesma forma que em inglês. O cantonês tem mais tons diferentes do que o inglês. Foi assim que aprendi que, em cantonês, também é preciso ter aulas sobre os tons, para além de aprender o significado das palavras”, referiu, quando questionado sobre a paisagem sonora que encontrou na RAEM.

Para Berend Strik, “a diversade cultural torna tudo ainda mais complicado”, sendo que “uma cultura complexa e diversificada precise, talvez, de mais tempo e não possa ser apressada, e essa é a parte positiva”. Neste sentido, “Macau parece precisar de mais tempo para assimilar todas essas diferenças”.

A possibilidade de fazer uma residência artística em Macau surgiu depois de um projecto em Pequim. “Há cerca de 15 anos quis alargar horizontes e decidi, através de um amigo, que poderia ir para Pequim. Havia uma fábrica de madeira que tinha sido reconvertida por Sam e sua família, juntamente com a minha amiga Nina van Zinninnq Bergmann, criando-se um espaço específico para artistas no interior da fábrica. Eu fui a cobaia.”

Nascia assim o “W.O.W”, um “espaço dedicado a designers, artistas e arquitectura”, onde Berend Strik conheceu Liu Gang, artista e curador deste projecto agora revelado no Armazém do Boi. Outra mostra hoje revelada é a dos artistas Gu Wenjia e Pan Zishen, intitulada “Doube Helix: Macau Folded”, com curadoria de Zhang Ting.

Aqui, existe a metáfora da dupla hélice e da teoria da “dobra” de Gilles Deleuze, recursos usados para analisar as movimentações culturais em Macau. As obras dos dois artistas apresentam, assim, perspectivas de passado e de futuro, em conjugação.

O tríptico de exposições encerra-se com “Love in the South — In Limbo”, de Fang Lu & Arie Kishon, com curadoria de Wang Jing. As três mostras podem ser visitadas até ao dia 24 de Novembro de forma gratuita.

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