História | Publicado livro “Sombras e Luzes do Império”, de Edgar Valles

Foi recentemente publicado o livro “Sombras e Luzes do Império”, de Edgar Valles, advogado e irmão de Ademar e Sita Valles, assassinados em Angola no período pós-independência. Ao HM, o autor revela estar a preparar um livro sobre o caso. Em “Sombras e Luzes do Império”, Edgar Valles relata a Angola antes de 1974

Edgar Valles acaba de lançar o livro “Sombras e Luzes do Império”, com a chancela da Gradiva, que relata “episódios – uns doces, outros amargos – da vida colonial e da ‘metrópole'”. A obra transfere para o papel as vivências do advogado, com sangue goês, nascido em Angola em 1953.

A “metrópole” que refere era o Portugal anterior ao 25 de Abril de 1974, quando havia um império colonial, que incluía Macau. Durante o Estado Novo, regime ditatorial que vigorou em Portugal entre 1933 e 1974, foram muitas as histórias de um império que passou por muitas crises antes de cair, incluindo 13 anos de guerra colonial.

Edgar Valles diz ser uma espécie de “filho do império”, no sentido em que é “fruto do império”. “Se os portugueses não tivessem chegado a Goa, a minha família não teria ido para Angola. Por outro lado, a minha infância e adolescência, foram passados em Angola. Se não fosse esse império, não estaria em Angola, e não teria estudado em Portugal”, frisou.

“Sombras e Luzes do Império” não tem cunho ideológico, nascendo de crónicas que Edgar Valles foi escrevendo na imprensa local portuguesa.

“O livro não tem pretensões ideológicas, nem pedagógicas. Relata apenas experiências vividas. Isto porque considero que, hoje em dia, os jovens têm acesso a muita coisa, a redes sociais, a televisão, a tudo, mas leem muito pouco. E procurei traduzir no papel histórias de vida em que não sou o personagem central, mas apenas a pessoa que assistiu a muitas situações.”

Segundo a sinopse do livro, descrevem-se “histórias verdadeiras e bem-humoradas, como o desembarque do primeiro-ministro Nehru numa praia de Benguela, que ali teria chegado de submarino e era procurado por tal infracção”.

Há ainda o relato “do lutador antifascista que se julga vigiado por um casal de agentes da PIDE a partir de um automóvel, quando, afinal, estes apenas estavam a utilizar o veículo para outros fins, por sinal atentatórios da moral dominante”. O livro contém também “histórias sobre as peripécias da luta política contra o regime”.

“Sombras e Luzes do Império” lança um convite ao leitor para “reflectir sobre estes relatos com a franqueza e profundidade que exigem, permitindo que as histórias contadas revelem não apenas a história de um tempo, mas também as ressonâncias que ecoam na nossa própria identidade”, descreve a mesma sinopse.

Um “modo de vida diferente”

O lado bom desse antigo império português era “o modo de vida”, recordou Edgar Valles. Se Portugal parecia um país sombrio, a viver numa ditadura, com separação de sexos nas escolas e baixo nível de vida, nas antigas colónias a vida tinha mais cor, apesar do regime político ser o mesmo.

“Nós, tal como acontecia em Moçambique, tínhamos praia, desportos náuticos, sol. No fundo, era um modo de vida completamente diferente do que existe aqui. Éramos muito abertos, os miúdos andavam de calções, e mesmo os adultos vestiam-se de forma muito simples. Tratávamos toda a gente por tu. Chocou-me, por exemplo, quando tinha 17 anos e vim para Lisboa, para a Faculdade de Direito, o facto de as pessoas não se tratarem por tu”, frisou.

Edgar Valles diz que este e outros episódios lhe causaram “impressão”. “É estranho, porque as pessoas daqui de Lisboa consideravam que nós éramos atrasados [os que vinham das colónias africanas], mas nós éramos mais avançados em muita coisa. Até tínhamos coca-cola, coisa que aqui não havia”, relata.

Edgar Valles diz ter percebido, já na adolescência, que pertencia a um império que acarretava uma certa ideologia e propaganda que não batiam certo com a realidade. “Despertei para isso antes de vir para cá. Mas, no fundo, há uma luta de contrários. Por um lado, havia aquele orgulho em ser português que eu cheguei a ter, do ‘Portugal de Minho a Timor’. Isto quando tinha uns 12, 13, 14 nos. Mas depois houve a constatação de que as coisas não eram bem assim. Isso, às vezes, é doloroso.”

Questionado sobre o seu sentimento de pertença, Edgar Valles diz que, quando está em Goa, sente-se goês. “Quando estou em Portugal, sinto-me português de Portugal.” Angola não entra nesta equação.

As “testemunhas de Jeová”

Edgar Valles chega a Lisboa em 1970 e ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, quando a luta estudantil contra o regime está ao rubro.

Aderiu ao Partido Comunista Português (PCP) e abraçou a luta anti-fascista, mas nunca foi preso pela PIDE. “A minha mulher foi presa e esteve seis dias em tortura de sono, em que a pessoa tinha de ficar de pé, e se se deitasse, era pontapeada. Também era chamada tortura da estátua. Só tive uma situação [de risco de prisão], mas não foi relevante: a 5 de Outubro de 1973 fazíamos sempre uma romagem ao cemitério do Alto de S. João, a polícia carregou e prendeu uma série de pessoas, e eu estive detido umas horas. Seríamos apresentados a julgamento por actividades subversivas, mas depois deu-se o 25 de Abril”.

Deixou o PCP anos depois da revolução, no contexto do assassinato da irmã, Sita Valles, aquando do movimento de 27 de Maio de 1977 em Angola, e também do irmão, Ademar Valles. Sita tinha pertencido ao PCP e quando é morta por forças ligadas ao partido angolano MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, o PCP nunca saiu em defesa da sua antiga militante e dirigente.

“Saí depois em 1977, quando isso aconteceu em Angola. Na altura acreditava naquilo tudo. Aquilo é fanatismo, como as Testemunhas de Jeová. Achávamos que a revolução estava a ir por água abaixo, e que o povo deveria revoltar-se e travar o capitalismo que se estava a implantar.”

A saída do PCP deu-se, precisamente, por considerar injusto o tratamento que o partido deu ao caso Sita Valles, que tinha sido uma das mais importantes dirigentes da UEC – União dos Estudantes Comunistas, quando era estudante de Medicina.

Edgar Valles acha, porém, que já é tarde para que as autoridades governamentais ou entidades partidárias se pronunciem sobre o caso. “Acho que já se falou bastante. Na altura, as autoridades deveriam ter tido outro tipo de postura, agora perdeu-se um pouco a oportunidade. É algo que as autoridades consideram um caso encerrado, infelizmente.”

A história de Sita Valles, e do próprio Edgar e Ademar, conta-se no livro “Sita Valles – Revolucionária, Comunista até à Morte (1955-1977)”, da jornalista Leonor Figueiredo.

Novo livro a caminho

A perda dos irmãos e o contexto político em que isso aconteceu será tema central de um novo livro. Sobre ele, Edgar Valles pouco quer revelar agora. “Vou escrever sobre o que aconteceu a seguir ao 25 de Abril.”

Ao reviver o passado, o autor não tem dúvidas de que foi o dia mais feliz da sua vida, mas teve desilusões com tudo o que aconteceu a seguir. “Houve muitas melhorias do ponto de vista económico na sociedade portuguesa, mas há um certo sentimento de angústia pelo facto de não se ter conseguido atingir estabilidade social. Acaba por haver uma liberdade muito formal, com algum controlo, porque é difícil publicar opiniões críticas. Há um certo desencanto na sociedade actual”, considerou.

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