Grande Plano ManchetePoesia | Editora portuguesa lança “China – Poemas do Erotismo Suave” Andreia Sofia Silva - 21 Set 2026 Serão os chineses dados à explicitação do sexo? No mais recente livro de poesia traduzida por António Graça de Abreu, “China – Poemas do Erotismo Suave”, a pergunta faz-se no passado e dá respostas afirmativas: na China antiga escreveu-se muito sobre sexualidade e amor carnal. Não faltam sequer poemas sobre o amor LGBT António Graça de Abreu acaba de assinar a tradução de um punhado de poemas chineses clássicos que remetem para uma temática muito pouco comum nos dias de hoje na hora de editar poesia chinesa: o erotismo. Quando falámos com o autor e, por lapso, referimos romantismo, do outro lado da linha a questão surgiu condimentada com algum humor: “Romantismo?” Não é de romantismo que trata o livro, mas sim de sexualidade e erotismo puro na forma de palavras. “China – Poemas do Erotismo Suave”, acabado de sair para as bancas com a chancela da editora Guerra e Paz, deixa desde logo antever uma pergunta: “Como era o amor e amar na velha China?”. O prefácio, assinado pelo próprio António Graça de Abreu, denota como, ao contrário do que se possa pensar, a sexualidade estava bem presente na vida da corte imperial e não era vivida com tanto pudor como se possa pensar. Desde logo porque, como se lê, “não nos podemos esquecer que a China escapou aos preconceitos sexuais do mundo judaico-cristão, por isso, a ideia de pecado, punição e culpa é alheia; exterior ao simples fluir do homem e da mulher por dentro do brilho ou da penumbra do tempo”. O livro apresenta poesia sobre esta temática, incluindo escritos de obras clássicas como é o caso de “O Sonho do Pavilhão Vermelho ou Hong Lou Meng”, de Cao Xueqin, editado em meados do século XVIII, na dinastia Qing. Não faltam ainda poemas de Li Yu, como “Ode do coração despedaçado”, “O modesto instrumento” ou “Da esposa do soldado para o marido ausente”. E o que dizer do poema “Os teus dois montes”, de Wang Shizhen, que deixa ao leitor uma imagem de deleite visual do narrador: “Os teus dois montes, como lótus cor-de-rosa, / iluminam o teu corpo, / na limpidez da tarde.” Trata-se, portanto, de uma obra que expõe “o tema do amor na China entre o homem e uma mulher, embora também tenha referências ao amor homossexual entre homens e com lésbicas.” DR Um dos exemplos de um poeta que retrata relações homossexuais é Wang Wei. O livro apresenta três poemas traduzidos da sua autoria, como “Canção da bela de Luoyang”, “Balada de Xi Shi” e “Poema mesclado”. “Recentemente descobriram que havia tendências homossexuais em Wang Wei, um poeta dos anos 700 [século VIII] e um dos maiores poetas da China, e que tem um amigo a quem dedica poemas maravilhosos, tendo também dois ou três poemas virados para o feminino.” O lugar da mulher António Graça Abreu segue uma certa linha cronológica nos poemas, começando pelo “Livro das Mutações ou Yi Jing”, tido como “o mais enigmático dos clássicos chineses” e que terá sido composto por volta do século X a.C. Sobre esta poesia tão antiga, o autor e tradutor traça a comparação com a poesia trovadoresca portuguesa, que começou a ser escrita a partir do século XII e que tinha também o amor e o romance como tema. Já nesses primeiros poemas chineses se notavam “muitas referências de natureza sexual”, pelo que se pode concluir que não havia pudor ou até timidez neste tipo de expressões. “[A poesia] não esconde praticamente nada. A própria participação da mulher no poema… ela está à espera de um companheiro galante e bonito para haver amor. Isso acontece logo nos primeiros poemas, mais ou menos eróticos, da velha poesia chinesa”, destacou. “Depois”, frisa António Graça de Abreu, “as coisas vão evoluindo e é preciso considerar [outras questões], que também tem a ver com Confúcio que, de algum modo, subalternizava a mulher, colocando-a uns degraus abaixo do homem, mas no budismo não”. Certo é que “praticamente até ao século XX a mulher teve sempre pouco valor” na poesia, sendo que, na verdade, “não há muita poesia de amor”. Isto porque a beleza feminina é evidenciada em muitos dos escritos, mas nem sempre há uma elevação da mulher em relação ao homem. “As mulheres eram compradas e usadas muitas vezes. Mas depois há o encantamento feminino, com as mulheres a serem comparadas com flores de lótus, há toda uma poética do amor… as mulheres aparecem como sendo muito bonitas, muito estilizadas, com uma pele de seda, com um certo comportamento. Mas isso não é muito geral na poesia chinesa, e há muito mais poemas dedicados a outros letrados [mandarins] do que a mulheres que eles amaram.” António Graça de Abreu dá o exemplo do poeta Li Bai, também incluído na antologia, que viveu entre os anos de 701 e 762, e que tinha quatro mulheres. Porém, apesar destes lugares em que homens e mulheres eram colocados, havia depois algumas excepções na socialização. “A sociedade chinesa é muito curiosa nesse aspecto, porque tem períodos ou momentos de grande liberdade, em que se podia fazer quase tudo. O encantamento da mulher fazia parte da vida dos poetas, mas eles não davam tanta importância a isso como davam à amizade entre mandarins, por exemplo.” Ainda relativamente às possíveis comparações com a poesia trovadoresca, António Graça de Abreu destaca como podemos encontrar poemas muito parecidos com as Cantigas de Amigo. “Também há na China uma espécie de Cantigas de Amigo, mas é o homem que faz o poema, como se fosse a mulher a falar do companheiro.” Tal não quer dizer que não tenha havido mulheres a escrever poesia na China antiga, mas são casos muito pontuais. “As poetisas eram, muitas vezes, cortesãs, marginais na sociedade. Mas eram mulheres cultas, que tinham aprendido a escrever. Normalmente, as mulheres não sabiam ler nem escrever, mas as que faziam poemas na China, sobretudo na dinastia Tang, entre os anos de 600 a 900, eram cortesãs e, portanto, meio prostitutas”, explicou. Estas autoras “muito delicadas, dedicavam poemas inclusivamente aos poetas”. Tinham, portanto, “um núcleo de poetas com quem trabalhavam em amizade”. “Uma novidade” António Graça de Abreu assegura que esta obra “é uma novidade em Portugal porque nunca ninguém mexeu neste tema, a poesia erótica chinesa”. Este é, aliás, um resultado de muitos anos de pesquisa. “Entretive-me a comprar, ao longo destes anos e para fazer este trabalho, uma série de livros de poesia, inclusive dos Estados Unidos da América.” Relativamente a “O Sonho do Pavilhão Vermelho” é, para o autor, “um romance fabuloso, do século XVIII, um dos grandes romances da literatura universal, mas que está recheado de poemas e alguns eróticos”. “Já Mao Zedong dizia que cada chinês deveria ler cinco vezes o ‘Sonho do Pavilhão Vermelho'”, destaca. Houve uma época em que na China havia maior liberdade em termos de costumes, e Xangai “era o grande império da prostituição no Extremo Oriente, mas depois praticamente acabaram com a prostituição em Xangai nos anos 50, seguindo os princípios confucianos”. António Graça de Abreu escreveu no prefácio outra realidade muito comum nos anos da China imperial: as concubinas. “E que dizer da depurada prática sexual de mandarins e príncipes – afastados de qualquer idealismo romântico – que tinham à disposição inúmeras mulheres, esposas, concubinas, cortesãs e prostitutas para amar ou fingir o amor de amar?”. Graça de Abreu dá o exemplo de um poeta que, com 65 anos, comprou 10 concubinas. “Uma era a boquinha de cereja, e outra a cintura de salgueiro. Ele dizia que, com a cintura de salgueiro, era capaz de subir às árvores. Com 65 anos, está a ver? Portanto, o encantamento da mulher é uma constante em todas as civilizações, mas na China não se nota muito. Foi isso que tentei fazer nesta antologia, indo buscar poemas desde a era de Confúcio até aos nossos dias.” Na obra constam ainda notas sobre os períodos históricos a que remetem os poemas. Graça de Abreu diz ter procurado assegurar que os poemas “tivessem qualidade em português”, mantendo algum do ritmo do original chinês. “O poema tem de ter som, algumas rimas internas como tem em chinês. Como tradutor tenho de dar uma volta àquilo, para que fique bonito em português. É isso que me satisfaz, porque consigo dar algum valor ao poema, que, em português, fica com uma leitura agradável.” Esse é um dos desafios a que António Graça Abreu procura dar sempre resposta. “Se traduzimos mal o poema para português, ou se somos demasiado literários, estamos quase a assassinar o poema, e eu não quero isso, porque são poemas muito bonitos em chinês, com cor, sensibilidade, bom gosto. Ficamos a ver as pessoas à nossa frente”, rematou. Uma coisa é certa: este livro mostra “que os homens [chineses] sabem amar, e as mulheres também”, remata o autor.