Qiu Jin – Poesia chinesa traduzida

踏青記事四章(其一)

Tàqīng jìshì sì zhāng (qí yī)

女鄰寄到踏青書 1, Nǚlín jì dào tàqīng shū, 來日晴明 2 定不虛。

Láirì qíngmíng dìng bù xū. 妝物隔宵齊打點, Zhuāngwù géxiāo qí dǎdiǎn, 鳳頭鞋子繡羅襦 3。Fèngtóu xiézi xiù luó rú.

Excursão primaveril, I

Da vizinha chegou um bilhete: amanhã, pisamos a primavera1. O céu há de abrir-se2 e a promessa não falhará.

Desde a véspera preparo os meus adornos:

fénix nos sapatos, seda bordada sobre o corpo3.

Notas

¹ Tàqīng (踏青), literalmente «pisar o verde», designa a excursão primaveril realizada no campo. A data variou segundo os costumes regionais e acabou por se associar sobretudo aos dias próximos do Festival de Qingming. A expressão converte a estação numa superfície percorrida pelo corpo e sustenta a imagem «pisamos a primavera».

² Qíngmíng (晴明) significa «claro e luminoso» e descreve o estado do céu. A grafia distingue-se de Qīngmíng (清明), nome do período e do festival primaveril dedicado ao culto dos antepassados e associado às excursões no campo. A proximidade gráfica e sonora faz ressoar esse calendário sazonal. O verso conserva como referência imediata a luminosidade do dia.

³ Fèngtóu xié (鳳頭鞋) era um tipo de calçado feminino cuja ponta trazia a forma ou o ornamento de uma fénix. A imagem pertence à cultura material feminina e introduz, nos próprios pés, uma ave associada à elevação, à dignidade e ao poder auspicioso.

Comentário

Este poema começa com um gesto mínimo, um bilhete que chega. A partir desse objeto, o poema organiza o futuro imediato, o corpo e a saída. A escrita da vizinha põe a composição em movimento antes de aparecer qualquer caminho.

A excursão primaveril constituía uma prática sazonal. O poema apresenta a primavera como uma matéria em que se entra e uma estação sentida sob os pés. A frase

«amanhã, pisamos a primavera» converte o renascimento da paisagem numa ação do corpo.

O bilhete atravessa a distância entre duas casas e cria uma passagem entre mulheres. A vizinha escreve. A destinatária recebe, acredita e prepara-se. Essa rede feminina torna possível a deslocação e sustenta uma pequena comunidade de desejo e confiança, formada ainda no interior das casas.

O segundo verso abre o céu sobre essa promessa. A claridade anunciada pertence ao tempo meteorológico e adquire um valor simbólico. Depois do interior doméstico e da espera noturna, haverá luz, espaço e movimento. A certeza da voz confere ao poema a felicidade breve de um futuro que parece inteiramente disponível.

Nos dois últimos versos, a atenção regressa ao quarto. A preparação da roupa compõe a mulher para entrar no mundo. Seda, bordado e adornos dão ao corpo uma presença escolhida pela própria mulher. A intimidade doméstica converte-se numa preparação para ocupar o exterior.

A imagem decisiva encontra-se nos sapatos. A fénix, ave ligada à elevação e ao renascimento, aparece precisamente onde o corpo toca a terra. A potência do voo passa

para os passos da mulher. O símbolo une a altura do mito ao chão de cada passo e confere ao movimento quotidiano uma dignidade inesperada.

Esta posição da fénix contém uma bela inversão. O emblema do voo desce até aos pés da figura feminina e acompanha a marcha. A transformação começa no contacto entre o corpo e o caminho e nasce da ação da própria mulher.

Lido à luz da vida posterior de Qiu Jin, o poema ganha uma ressonância particular. A autora tornar-se-ia revolucionária, defensora da educação e da emancipação das mulheres. Aqui, a liberdade assume uma forma íntima. Entra no poema através de uma amizade, de um convite e da decisão de sair.

A composição apresenta quatro versos de sete caracteres. Shū (書), xū (虛) e rú (襦),

no final do primeiro, segundo e quarto versos, formam a rima do original. A repetição sonora acompanha a progressão entre o bilhete, a promessa e a roupa, unindo aquilo que chama a mulher ao exterior àquilo que ela prepara para partir.

O poema termina no limiar da manhã. O bilhete chegou, o céu promete abrir-se e a roupa está pronta. A liberdade possui já direção, companhia e corpo. Qiu Jin situa o começo da mudança nesse instante silencioso, junto de um par de sapatos à espera da manhã.

Referências

Qiu Jin (秋瑾). Qiū nǚshì yígǎo (秋女士遺稿) [Manuscritos póstumos da Senhora Qiu]. Organização de Gong Baoquan. Xiuguang She, 1910.

Qiu Jin (秋瑾). Qiū Jǐn jí (秋瑾集) [Obras reunidas de Qiu Jin]. Shanghai Guji

Chubanshe, 1979.

Ministério da Educação de Taiwan. Chóngbiān Guóyǔ Cídiǎn Xiūdìngběn (重編國語辭典修訂本) [Dicionário Revisto de Mandarim], entradas tàqīng (踏青) e fèngtóu xié (鳳頭鞋).

Huang, Yunte. «Nüxia and Footbinding: Forging the Female Knight-Errant». Chinese

Literature: Essays, Articles, Reviews, vol. 43, 2021, pp. 45–68.

Wang Li (王力). Shīcí gélǜ (詩詞格律) [Prosódia da poesia clássica e da poesia cí]. Zhonghua Shuju, 1977.

踏青記事四章(其二)

Tàqīng jìshì sì zhāng (qí èr)

曲徑珊珊 1 芳草茸,

Qūjìng shānshān fāngcǎo róng,

相攜同過小橋東。

Xiāngxié tóng guò xiǎoqiáo dōng.

一灣流水無情甚,

Yī wān liúshuǐ wúqíng shèn,

不送愁紅送落紅 2。

Bù sòng chóuhóng sòng luòhóng.

Excursão primaveril, II

Pelo caminho curvo, passos de jade1 roçam a erva tenra,

de mãos unidas, atravessamos a pequena ponte rumo ao nascente. Na curva, a água passa, alheia ao coração,

leva o vermelho das flores caídas e deixa em nós o vermelho da tristeza2.

Notas

¹ Shānshān (珊珊) pertence a um vocabulário poético antigo. Designa o tilintar de

pendentes de jade e, por extensão, o andar lento e gracioso de uma mulher. A tradição lexicográfica regista ainda o brilho límpido da pedra. O termo reúne som, luz e movimento, ressonâncias concentradas em «passos de jade».

² Chóuhóng (愁紅) associa diretamente «tristeza» e «vermelho». Na linguagem poética, a cor das pétalas recebe assim uma qualidade afetiva e aproxima-se do rubor feminino. Luòhóng (落紅), literalmente «vermelho caído», constitui uma designação convencional

das flores caídas. Qiu Jin coloca as duas expressões em paralelo e repete sòng (送), verbo que pode acompanhar uma partida ou entregar algo ao movimento da corrente. A

água leva o vermelho que caiu e deixa junto das caminhantes o vermelho capaz de sentir.

Comentário

Este poema prolonga o movimento iniciado na primeira composição. O bilhete, os adornos e a expectativa pertenciam ao interior da casa. Neste segundo poema, as mulheres entram na paisagem. O caminho, a erva, a ponte, a água e as flores recebem os seus gestos e dão forma à experiência da primavera .

O caminho curvo determina o ritmo do primeiro verso. A paisagem revela-se gradualmente, acompanhando a ondulação dos passos. A linha sinuosa oferece uma forma visível à liberdade das caminhantes. O passeio desenvolve-se através do desvio, da surpresa e da atenção aos sinais discretos do mundo natural.

A expressão «passos de jade» confere aos corpos uma luminosidade mineral. O jade pertence à tradição chinesa como matéria de beleza, delicadeza e valor moral. O seu brilho atravessa aqui a erva tenra e deixa uma impressão sonora, como se os ornamentos das mulheres ressoassem no caminho. A primavera adquire uma presença tátil. A erva roçada pelos passos torna-se o primeiro lugar de contacto entre o corpo e a estação.

As mulheres avançam de mãos unidas. O gesto exprime proximidade e amparo, enquanto converte a amizade numa imagem corporal. A união acompanha-as desde o caminho até à travessia da ponte. Cada uma participa no movimento da outra.

A ponte ocupa o centro da composição e assinala uma mudança de espaço.

Atravessá-la rumo ao nascente aproxima as caminhantes da luz que inaugura o dia. O leste reúne a primavera, a juventude e a possibilidade de renovação. A travessia adquire assim a delicadeza de um rito de passagem.

A água introduz uma transformação no tom do poema. A sua curva responde à curva do caminho, embora pertença a uma ordem diferente. O caminho acolhe os passos das mulheres. A corrente segue o seu próprio curso e recebe apenas aquilo que já caiu. A expressão «alheia ao coração» converte a água numa figura do tempo, contínua e indiferente à duração dos sentimentos.

O último verso concentra a imagem decisiva da composição. O vermelho divide- se entre as pétalas levadas pela corrente e a tristeza que permanece nas caminhantes. A

cor circula entre a natureza e o corpo feminino. Nas flores, anuncia a beleza chegada ao instante da queda. Nos rostos e nos afetos, guarda a consciência dessa perda.

A repetição do vermelho cria uma breve correspondência entre as mulheres e as flores. Ambas pertencem à primavera e à sua fragilidade. As pétalas entram na corrente. A tristeza permanece no corpo e converte a passagem das flores em memória. O mundo exterior e a emoção partilham a mesma cor.

A amizade oferece uma forma de permanência dentro dessa paisagem móvel. As mulheres conservam o contacto das mãos enquanto a água dispersa as pétalas. O poema aproxima assim dois movimentos. A corrente separa e transporta. O gesto humano reúne e acompanha.

A composição apresenta quatro versos de sete caracteres. Róng (茸), dōng (東)

e hóng (紅), colocados no final do primeiro, segundo e quarto versos, formam uma rima muito nítida no mandarim contemporâneo. A proximidade sonora reúne a erva tenra, o nascente e o vermelho. O espaço do passeio, a direção da travessia e a cor da perda encontram-se ligados pela própria música do poema.

A excursão decorre entre duas curvas. A primeira pertence ao caminho percorrido pelas mulheres. A segunda pertence à água que leva as flores. Entre ambas ergue-se a pequena ponte, lugar suspenso onde a amizade atravessa o tempo da primavera. A imagem final conserva as caminhantes de mãos unidas, com o vermelho da tristeza guardado dentro delas.

Referências

Qiu Jin (秋瑾). Qiū nǚshì yígǎo (秋女士遺稿) [Manuscritos póstumos da Senhora Qiu]. Organização de Gong Baoquan. Xiuguang She, 1910.

Qiu Jin (秋瑾). Qiū Jǐn jí (秋瑾集) [Obras reunidas de Qiu Jin]. Shanghai Guji

Chubanshe, 1979.

Ministério da Educação de Taiwan. Chóngbiān Guóyǔ Cídiǎn Xiūdìngběn (重編國語辭典修訂本) [Dicionário Revisto de Mandarim]. Entradas shānshān (珊

珊), xié (攜), sòng (送) e luòhóng (落紅).

Wang Li (王力). Shīcí gélǜ (詩詞格律) [Prosódia da poesia clássica e da poesia cí]. Zhonghua Shuju, 1977.

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