A Viagem a Qinghai como Novo Ponto de Partida – O futuro e a responsabilidade dos jovens macaenses

Por Manuel Silvério
- Analista independente de políticas públicas e desenvolvimento regional
(Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo)

Uma acção que ainda não terminou

A visita da Associação dos Jovens Macaenses à província de Qinghai, realizada entre 26 de Julho e 1 de Agosto de 2026, não foi apenas uma actividade de visita, nem apenas uma experiência para guardar em fotografias e recordações. O seu significado mais importante esteve em permitir que os participantes saíssem do ambiente familiar de Macau e entrassem em contacto directo com uma face mais vasta, profunda e complexa do País.

Durante vários dias, jovens macaenses e outros participantes percorreram uma parte profunda da terra da Pátria, longe das grandes cidades, dos centros financeiros e das paisagens urbanas modernas que nos são mais familiares. Sentiram de perto o planalto, a altitude, as longas distâncias, a diversidade étnica e cultural, a força da natureza, a segurança ecológica, os recursos estratégicos e a memória histórica de uma terra com muitos significados. Essas experiências recordam-nos que Macau, embora seja o lugar onde vivemos, é apenas uma parte do quadro geral de desenvolvimento do País.

Uma viagem desta natureza não deve ficar apenas nas fotografias e nos locais visitados. Uma viagem verdadeiramente significativa não deve terminar no regresso. O seu valor está em saber se consegue levar os participantes a pensar mais profundamente sobre o País, Macau, a sua própria comunidade e as responsabilidades futuras. Deve continuar, depois do regresso a Macau, como ponto de partida para reflexão, participação e responsabilidade.

Na noite de 12 de Agosto, num buffet macaense oferecido por Leonel Alves, os participantes da visita a Qinghai voltaram a reunir-se, num ambiente de partilha e reflexão, recordando também os laços de amizade criados ao longo da experiência. Estiveram igualmente presentes vários responsáveis do Gabinete de Ligação do Governo Central na RAEM, liderados pelo Director-Geral do Departamento de Coordenação, Qiu Yu, que acompanhara integralmente a delegação durante a visita a Qinghai.

Esse reencontro foi simples, mas significativo. Depois de um programa intenso, houve finalmente tempo para conversar com mais calma, recordar momentos da viagem, trocar impressões e perceber que a deslocação a Qinghai não terminou com a chegada ao aeroporto de Shenzhen, nem com o regresso de autocarro a Macau pela fronteira de Hengqin. Pelo contrário, outra viagem começou nesse momento: a de pensar, já em Macau, como devemos dar continuidade às lições recebidas nessa deslocação e responder às suas inspirações.

O alerta de Leonel Alves

Enquanto chefe da delegação, Leonel Alves afirmou que esta foi uma visita bem-sucedida. O sucesso não esteve apenas no cumprimento do programa ou na boa organização, mas sobretudo nas muitas lições recebidas ao longo do percurso. Recordou a viagem, as longas deslocações de autocarro, as conversas aprofundadas entre os participantes, o contacto directo com diferentes realidades da Pátria e até a sensação especial de viver quase “quatro estações” num só dia. São experiências que só se compreendem plenamente quando vividas de perto, e que ajudam a sentir, de forma concreta, a diversidade e a profundidade da cultura chinesa.

Leonel Alves manifestou também o desejo de que, no próximo ano, possa ser organizada uma nova deslocação deste género, permitindo que mais pessoas visitem outras regiões do País.

Mais importante ainda foi a mensagem que deixou aos jovens. Com um tom claro, sereno e firme, apelou aos jovens macaenses para compreenderem melhor a nova situação de Macau e tomarem consciência de que há responsabilidades que já não podem ser adiadas. Lembrou que não devemos ficar limitados ao nosso pequeno círculo ou aos interesses pessoais, mas antes alargar horizontes e pensar, com maior visão, na comunidade, nos interesses de Macau, no desenvolvimento, nos jovens, nos nossos filhos e no futuro das novas gerações.

Esta talvez seja a lição mais importante que Qinghai nos deve deixar.

Da memória à participação

Macau é uma cidade confortável, e isso é uma conquista que devemos valorizar. Mas o conforto também pode significar excesso de acomodação. Quando uma comunidade se habitua demasiado a ser protegida, corre o risco de perder iniciativa, estreitar horizontes e confundir a preservação da identidade com a simples preservação da memória.

A identidade macaense não pode ficar apenas na nostalgia, na gastronomia, nos encontros ocasionais ou nas fotografias de família. Tudo isso é importante, mas não basta. Para uma comunidade manter vitalidade, precisa de preparar os jovens e as novas gerações, para que possam participar no tempo em que vivem.

Preparar os jovens não significa apenas convidá-los para cerimónias, almoços, recepções ou fotografias de grupo. Mais importante é ouvi-los, acompanhá-los, dar-lhes responsabilidades e criar oportunidades concretas para aprenderem, errarem, crescerem e servirem.

Na verdade, Macau já conta com várias associações e organizações que, através da prática, têm formado jovens membros: apoiando as suas iniciativas, envolvendo-os em actividades sociais, orientando-os para as necessidades reais da comunidade, dando-lhes oportunidades para aparecerem em diferentes espaços da sociedade e ajudando-os a ganhar confiança, experiência e sentido de responsabilidade. A comunidade macaense pode, e deve, retirar inspiração dessas experiências.

A formação dos jovens pode avançar com naturalidade, mas também exige método. É necessário criar oportunidades para que escrevam, falem, organizem actividades, apresentem ideias, participem em projectos, acompanhem os mais experientes, visitem o Interior do País, conheçam a Grande Baía, recebam delegações e aprendam a comunicar com diferentes sectores da sociedade.

Não se trata de formar jovens apenas para conservar uma memória cultural. Trata-se de lhes dar instrumentos para participarem nos assuntos de Macau de hoje.

A identidade macaense precisa de se renovar

A identidade macaense só continuará a ter vitalidade se continuar a ser útil, respeitada e reconhecida pela sociedade. Por isso, deve ser transmitida como herança, mas também exercida como competência.

Os macaenses têm a sua própria história, uma sensibilidade intercultural e uma experiência de convivência entre diferentes línguas, tradições e comunidades. Porém, estas vantagens só terão valor futuro se forem acompanhadas por preparação, disciplina, capacidade linguística, conhecimento do País, consciência cívica e espírito de serviço.

Hoje, a identidade macaense também não pode ser reduzida a uma fórmula única. Não significa necessariamente dominar a língua portuguesa, nem deve ser usada para criar falsas hierarquias sobre quem é mais importante ou mais autêntico. O essencial é que todas as vozes dispostas a contribuir para Macau e para esta característica própria da nossa terra possam encontrar o seu lugar nesta união.

Muitas vezes perguntam-nos: afinal, quantos macaenses existem? A resposta nem sempre é fácil, e talvez nem seja essa a questão mais importante. O que importa verdadeiramente é saber se ainda temos capacidade para manter esta característica singular de Macau, prolongar este património histórico e cultural, e fazer com que Macau continue a ser uma cidade chinesa diferente, aberta, plural e reconhecida.

O valor de uma comunidade não depende apenas do número dos seus membros, mas da qualidade da sua presença, da utilidade da sua participação e da capacidade de transmitir às novas gerações um sentido de pertença, responsabilidade e serviço. Se a identidade macaense continuar a ser uma ponte entre culturas, línguas, memórias e projectos de futuro, então, independentemente do número de pessoas, continuará a ter significado para Macau.

Os jovens são a chave do futuro

Entre os jovens macaenses, há alguns que já têm boas condições: são multilingues, abertos, com visão e capacidade para assumir maiores responsabilidades. Outros ainda precisam de ganhar confiança, sair do ambiente habitual e conhecer melhor Macau, a Grande Baía e o País. Ambos devem ser acompanhados. Ambos fazem parte do futuro da comunidade.

Naturalmente, não devemos interpretar em excesso, nem subestimar, a atenção, consideração ou oportunidades concedidas pelas entidades públicas. Como em muitas coisas na vida, o reconhecimento depende, em grande medida, do esforço individual e colectivo, da preparação, da utilidade e da capacidade de contribuir com seriedade.

A comunidade macaense não precisa de se colocar acima de ninguém, nem precisa de estar presente em tudo. Precisa, sim, de estar preparada, manter-se aberta e, quando for necessária, ter capacidade para servir Macau, sempre em harmonia e abertura com as outras comunidades que também fazem parte da realidade plural da RAEM.

É precisamente aqui que visitas como a de Qinghai têm um valor especial. Quando bem organizadas, não são turismo, mas formação humana, cívica e comunitária. Colocam os jovens perante diferentes cenários, permitindo-lhes adaptar-se, conviver, escutar, observar e compreender que Macau, embora seja muito importante para nós, é apenas uma parte de uma realidade nacional muito mais ampla.

Mas uma viagem, por si só, não basta. O verdadeiro desafio começa depois do regresso. Que conversas irão continuar? Que iniciativas irão nascer? Que jovens começarão a escrever, a organizar actividades, a estudar melhor chinês, a conhecer mais profundamente a história do País, a aproximar-se da Grande Baía e a pensar nos interesses gerais de Macau?

Se, depois do regresso, nada acontecer, a viagem será apenas uma boa memória. Se houver continuidade, tornar-se-á um investimento.

Transformar a experiência em responsabilidade

Macau precisa de investir melhor nos jovens. Esse investimento não deve limitar-se a bolsas, cursos ou visitas ocasionais, mas deve construir percursos de crescimento responsável. Os jovens podem começar por observar, depois ajudar; em seguida propor ideias, organizar trabalho, representar a comunidade e assumir responsabilidades. Nenhuma comunidade consegue renovar-se se deixar a geração mais nova eternamente à espera de uma autorização simbólica dos mais velhos. Mas, do mesmo modo, nenhum jovem cresce verdadeiramente sem orientação, exemplo e exigência.

Os mais velhos têm a responsabilidade de abrir portas. Os jovens têm o dever de entrar por elas com humildade, vontade de aprender e espírito de serviço. A comunidade não pode continuar apenas a falar dos jovens; deve começar a confiar-lhes tarefas concretas. Os jovens, por sua vez, também devem compreender que a visibilidade social ou política não é vaidade pessoal, mas responsabilidade perante a comunidade, Macau e o País.

Pensar nos jovens é também pensar nos filhos e nos netos. É perguntar que Macau queremos deixar-lhes. É perguntar se ainda terão espaço para viver, trabalhar, participar e sentir que pertencem a esta terra. É perguntar se a identidade macaense será apenas uma bela memória do passado ou uma presença viva no futuro da cidade.

A resposta não dependerá sobretudo dos discursos, mas das oportunidades concretas que conseguirmos criar, e também da vontade dos próprios jovens em as aproveitarem com seriedade.

Uma ponte que ainda se pode renovar

Qinghai ensinou-nos que o País é vasto, diverso, exigente e profundamente complexo. O reencontro de 12 de Agosto recordou-nos que esta aprendizagem deve continuar em Macau. A visita foi importante, mas a responsabilidade começa agora: transformar experiência em consciência, consciência em participação e participação em futuro.

Macau é a nossa casa. O País é o horizonte mais vasto que temos por trás de nós. Entre a RAEM e o Interior do País, a comunidade macaense pode continuar a ser uma ponte viva. Essa ponte deve ligar Macau à Grande Baía e a outras províncias e cidades do Interior, mas também ao exterior, especialmente ao mundo lusófono mais amplo e a outros países e comunidades com os quais Macau mantém laços históricos, culturais, linguísticos, afectivos e comerciais.

Preservar a identidade macaense não significa colocar uma relíquia preciosa do passado dentro de uma vitrina. Significa dar nova vida a uma herança única, flexível e profundamente ligada a Macau. Significa transformar memória em presença, identidade em competência e tradição em força para servir o Macau de hoje.

Este talvez seja o caminho mais acertado: permitir que os jovens macaenses conheçam melhor Macau, compreendam melhor o País, mantenham viva a ligação ao mundo lusófono e dialoguem com outras comunidades, sem se fecharem sobre si próprios. Só assim a identidade macaense poderá continuar a ter dignidade, utilidade e futuro.

Se a viagem a Qinghai nos ajudou a sair da estufa, então o regresso a Macau não deve levar-nos simplesmente de volta ao conforto anterior. Preservar a identidade macaense não é apenas recordar o que fomos; é preparar, com coragem e humildade, aquilo que ainda podemos ser. Esta responsabilidade exige a acção de cada um de nós.

Analista independente de políticas públicas e desenvolvimento regional
(Antigo dirigente público com experiência internacional, com longa dedicação às políticas públicas e ao desenvolvimento desportivo)

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