Via do MeioO Sol Vermelho e a Tartaruga de Zhang Gui Paulo Maia e Carmo - 11 Ago 2026 Wu Wei (1459-1508), um pintor profissional de Nanquim que serviu na corte de três imperadores da dinastia Ming, é autor de uma pintura que encena uma persistente lenda que acompanha a figura do pintor Wu Daozi (activo c. 719-60), que fazia impressionantes pinturas murais na dinastia Tang. Nela se vê o pintor ainda com o pincel na mão, rodeado de três homens, um dos quais segura um tinteiro, que assistem atónitos ao momento em que a figura de um dragão que acabava de ser pintada na superficíe de uma rocha dela se solta e voa para o céu (rolo vertical, tinta sobre seda, 139,5 x 94 cm, no Museu Britânico). A arte de Wu Daozi, que o influente autor Zhang Yanyuan (c.815-c. 877) caracterizou, partindo da concepção literata da pintura, como «tendo pleno controlo do seu espírito concentrava-se no Um e assim trabalhava em harmonia com a Criação» podia rapidamente, na disponibilidade do olhar popular, dar lugar à irrupção do improvável maravilhoso. Das pinturas que hoje lhe são atribuídas e que se distinguem pela linha firme da pincelada chamada «cabo de ferro» ou «nuvem flutuante» não restam senão esfregaços, tayin, que confirmam a sua fama de perscrutador do inverosímil com um significado espiritual. Como aquele que está no Museu Britânico figurando uma cobra entrelaçada numa tartaruga negra (rolo vertical, tinta sobre papel, 142,5 x 79,5 cm), dois animais conhecidos por hibernar no Inverno e que juntos são Xuanwu, o popular e misterioso «guerreiro negro», que em pinturas colocadas em paredes de casas protegem os lares. A figura da tartaruga (gui) ou cágado, animais da família testudinata, são desde a mais remota antiguidade consideradas um bom augúrio, descritos em textos como a enciclopédia Erya (séc. 3 a. C.) ou o Huainanzi (antes de 139 a.C.) que conta como Nuwa, a deusa com corpo de serpente que criou a vida humana, cortou as quatro patas de uma tartaruga gigante dos mares para servir de suporte ao céu após um grande desastre cósmico. Zhang Gui, que terá vivido durante a dinastia Jurchen dos Jin (activo c. 1156-61) é identificado como o autor de uma surpreendente pintura de uma tartaruga com estranhos sinais daoístas na carapaça, que numa margem de água exala um sopro que subindo no céu se torna em nuvens auspiciosas. Na pintura figura uma «tartaruga divina», shengui ou «tartaruga espiritual», linggui (rolo horizontal, tinta e cor sobre seda, 26,5 x 53,3 cm, no Museu do Palácio, em Pequim) e como marca do seu prestígio, apresenta-se hoje com um carimbo da era da «talentosa mutação» do imperador Chenghua (r.1464-87) e está referida no «Catálogo da preciosa colecção do canal de pedra», Shiqu baoji, do imperador Qianlong. No céu, sobre a tartaruga, observa-se um sol vermelho como o sangue ou o fogo, capaz de afastar fantasmas ou espíritos malévolos, fazendo da própria pintura um talismã.