Diáspora macaense | José Basto da Silva quer lançar Portal online

Chama-se “Portal da Diáspora Luso-descendente” e é da autoria do macaense José Basto da Silva. Ainda em fase de teste, o portal pretende ser “um repositório central acessível para a diáspora luso-descendente”, podendo vir a ser avaliado pelo Conselho das Comunidades Portuguesas e o Governo português para obtenção de financiamento

 

José Basto da Silva, macaense que reside em Macau, acaba de divulgar o seu mais recente projecto, ainda em fase inicial: o “Portal da Diáspora Luso-descendente”, que está ainda “em fase de demonstração”, sendo depois avaliado pelo Conselho das Comunidades Portuguesas e pelo Governo Português”, contou o próprio ao HM. A ideia é conseguir apoios financeiros que sustentem o projecto.

Anunciado na mais recente newsletter da Casa de Macau em Lisboa, este projecto online visa reunir dados sobre os macaenses espalhados pelo mundo fora, mas também de um ponto de vista mais dinâmico. Pretende-se, segundo escreve José Basto da Silva na newsletter, que o website se transforme “num repositório central e acessível para a diáspora luso-descendente, independentemente da geografia e da região horária, reunindo informação útil como serviços consulares, entidades associativas, oportunidades de negócio e ensino do português”.

Porém, podem também ser divulgadas informações sobre eventos, gastronomia, sendo que, nesta fase, o projecto carece de financiamento, bem como de gestão em termos de conteúdos.

“Mais do que uma base de dados, o Portal será um ponto de encontro virtual, onde os utilizadores podem interagir, fazer ‘networking’ e fortalecer a ligação inter-geracional”, escreveu José Basto da Silva. Pretende-se também que o projecto digital seja “um espaço de partilha de experiências e de mentoria, capaz de aproximar gerações e criar pontes entre comunidades”.

A ideia é também apostar em conteúdos multimédia, nomeadamente com vídeos, fotografias e podcasts, “dando voz e imagem às histórias da nossa diáspora”.

“A disponibilização deste Portal será uma ferramenta essencial para a preservação e promoção da língua e cultura portuguesas”, destacou o autor do projecto, além de “reforçar o sentimento de pertença, constituindo um impulso decisivo para a projecção da imagem de Portugal no mundo”.

Contactos em linha

O portal tem, para já, alguns contactos de embaixadas e postos consulares portugueses, nomeadamente em Macau e Hong Kong; Xangai, Singapura ou Japão, apresentando ainda um directório de associações ligadas à comunidade macaense que estão espalhadas pelo mundo.

Outra secção é “Lusophone Youth Network” [Rede da Juventude Lusófona], que visa a conexão “de jovens profissionais e busca de oportunidades de mentoria”.

Aqui, as possibilidades de contacto são muitas – Isabel Gomes, situada em Macau, escreveu: “Passei no exame HSK 6 na semana passada! Três anos de Mandarim em simultâneo com trabalho a tempo inteiro. Se alguns colegas lusófonos em Macau estão a aprender chinês, vamos iniciar um grupo de estudo. A língua abre, aqui, todas as portas.”

Além de contactos na área do ensino de idiomas, há também propostas com uma visão mais empresarial. Miguel Santos, de Hong Kong, escreveu: “Ofereço sessões de mentoria 1:1 para recém-licenciados que procuram entrar no mercado financeiro asiático. 5 anos na Goldman Sachs HK – feliz por partilhar o que sei. Esta comunidade já me deu tanto, é tempo de retribuir.”

Há ainda o testemunho de Ana Ferreira, de Singapura: “Acabei de concluir uma reunião incrível com o Conselho Empresarial Lusófono em Singapura. Aqui, as oportunidades para profissionais de língua portuguesa são notáveis. Estamos a organizar uma mesa redonda para o terceiro trimestre — envia-me uma mensagem privada se quiseres participar!”

Não faltam partilhas com um teor ligado à cultura portuguesa. “Bonita noite de Fado na Casa de Portugal em Tóquio no último fim-de-semana. A música de Amália Rodrigues a encher uma sala com piso de tatami em Shibuya — surreal e belíssima. Estas pontes culturais são mais importantes do que nunca”, escreveu, de Tóquio, Mariana Costa.

Na secção de multimédia também já existem alguns conteúdos disponíveis, nomeadamente um vídeo, disponível também no YouTube, sobre os 400 anos do ataque dos Holandeses, da Companhia das Índias Ocidentais, a Macau, a 24 de Junho de 1622, e que permitiu a manutenção das autoridades portuguesas no enclave no sul da China. O vídeo é narrado pela historiadora e antiga docente Beatriz Basto da Silva. Há ainda conteúdos multimédia sobre o grupo teatral em patuá Dóci Papiaçám di Macau, ou sobre comida macaense.

O que falta fazer?

José Basto da Silva já definiu os passos necessários para que o portal seja uma realidade. Em causa está um “projecto ambicioso” que visa a criação de um “comité de gestão”, composto pelas “entidades que assinaram o protocolo de cooperação: Conselho das Comunidades Portuguesas; Conselho das Comunidades Macaenses e o Instituto Internacional de Macau”.

Na visão do promotor do projecto, “é crucial que estas entidades façam chegar o Portal à diáspora, incentivando a participação activa na criação e actualização de conteúdos”.

Em termos de estratégia para o crescimento do projecto, “numa primeira fase o foco será a Ásia e as comunidades luso-descendentes da região”, existindo já um arquivo fotográfico online, no website, que serve para um primeiro contacto com o projecto.

José Basto da Silva entende que esta poderá ser “uma ferramenta para o futuro”, tendo em conta que “Macau mudou profundamente nas últimas décadas”, revelando “sinais de abrandamento”.

“Apesar das boas intenções e retórica do Governo da RAEM, pouco tem sido feito no sentido de alterar o status-quo da comunidade lusófona, sobremaneira no que toca aos jovens. Vivemos tempos diferentes: não só jogamos num campeonato diferente, como mudaram-se radicalmente as regras do jogo”, destacou.

Perda de identidade

Na newsletter da Casa de Macau em Lisboa, José Basto da Silva alerta para o facto de o território estar “paulatinamente a perder a sua identidade”, existindo “uma recessão que se instala progressivamente não só no território, como em toda a China”.

“O Executivo governa com os olhos postos nas questões de impacto imediato, sem uma verdadeira aposta na diversificação, na defesa das características únicas locais, e sem medidas concretas que envolvam e valorizem a comunidade local lusófona”, frisou, referindo-se ao actual Governo liderado por Sam Hou Fai.

Desta forma, José Basto da Silva destaca que deve existir uma maior união por parte de macaenses e outros luso-descendentes. “Urge unirmo-nos para reforçar e consolidar a nossa presença”, bem como “criar oportunidades e fomentar a intervenção ao mais alto nível, não só em prol da nossa identidade e afirmação no território, mas também na defesa da singularidade de Macau.”

José Basto da Silva lembrou como a preservação da identidade macaense está, inclusivamente, “em linha com o discurso do Presidente Xi Jinping”. Em suma, “o Portal não é apenas um projecto tecnológico: é um instrumento de união, de identidade e de projecção cultural”.

“Ao consolidar informação, criar redes e dar visibilidade às comunidades, abre caminho para que a diáspora luso-descendente se declare como protagonista na preservação e difusão da herança portuguesa”, rematou José Basto da Silva.

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