Sexanálise VozesO efeito da linguagem terapêutica nas relações românticas Tânia dos Santos - 24 Jul 2026 Há uma década, se alguém dissesse “o meu ex era claramente evitante”, provavelmente teria de explicar do que estava a falar. Hoje, essas expressões saltam com naturalidade de um jantar entre amigas e de uma legenda no Instagram para uma discussão a meio de um relacionamento. Vivemos a era da linguagem terapêutica aplicada à vida amorosa — e vale a pena parar para pensar no que isso está a fazer. Já aqui escrevi, noutra ocasião, sobre a forma como a teoria da vinculação saltou do consultório para o ecrã do telemóvel — como “ansioso”, “evitante” e “desorganizado” se tornaram categorias tão familiares como um signo do zodíaco, e como esse vocabulário, apesar de precioso quando bem usado, corre o risco de se transformar em sentença em vez de mapa. Pois bem: a vinculação é apenas um dos conceitos que saiu do jargão psicológico para o dia-a-dia. Nos últimos anos, temos assistido a uma verdadeira inundação de termos clínicos a colonizar a forma como falamos de amor; e é sobre essa vaga mais larga, para lá da vinculação, que quero agora escrever. O fenómeno não surgiu do nada. A popularização da psicologia através das redes sociais, sobretudo do Instagram e do TikTok, transformou conceitos que antes viviam confinados aos consultórios — teoria da vinculação, trauma bonding, gaslighting, “trabalho emocional” — em vocabulário do dia-a-dia. Existe, à partida, algo de positivo nesta democratização: nunca tivemos tanta gente capaz de nomear aquilo que sente. Nunca tivemos tanta gente interessada em compreender os processos humanos e interpessoais. Mas há um efeito que começa a tornar-se evidente na minha prática clínica: a linguagem da terapia está a ser usada pelos clientes no consultório, cada vez mais, não para aprofundar a intimidade, mas para lhe fugir. Uma forma de compreensão puramente racional que se desliga da realidade e da nuance e complexidade das relações. A quantidade de pessoas que afirma que teve relacionamentos “tóxicos” tem sido cada vez mais frequente. Há quem diagnostique o próprio companheiro como “evitante” ou “ansioso” — categorias retiradas da teoria da vinculação — como forma de explicar, e simultaneamente encerrar, uma discussão conjugal que talvez merecesse mais tempo e menos rótulos. Em vez de abrir espaços de complexidade humana, parece que os fecha. A linguagem terapêutica, nascida para promover a responsabilização e a compreensão mútua, corre o risco de fazer exactamente o oposto: transformar-se numa arma retórica de pouca capacidade analítica. Chamar “gaslighting” a qualquer discordância interpessoal esvazia o termo do seu significado original — uma forma grave e deliberada de manipulação psicológica — e torna mais difícil reconhecê-lo quando de facto acontece. Há também uma questão de estatuto social: dominar o vocabulário da terapia tornou-se, em certos círculos, um sinal de sofisticação emocional. Quem fala com fluência de “padrões intergeracionais de trauma” projecta uma imagem de auto-conhecimento, independentemente de esse conhecimento se traduzir, ou não, em transformação afectiva ou em formas mais empáticas de co-existir no mundo. E aqui está o cerne do problema: saber nomear uma dinâmica pode ajudar no processo de auto-conhecimento mas não é o caminho real para relações humanas mais conscientes. Para isso o trabalho de nomeação pode servir pouco – a capacidade de escuta activa não-julgadora revelam caminhos mais promissores de conexão afectiva. Em consulta, trabalho com casais que discutem conceitos psicológicos com brilhantismo académico e continuam, na prática, a repetir exactamente os mesmos padrões destrutivos de sempre. Nomear padrões pode também ser uma forma de evitamento, para não se conectarem com o mundo emotivo que vive de dinâmicas com mais nuance e complexidade. Do ponto de vista da intimidade e da sexualidade, a linguagem terapêutica, quando bem usada, pode melhorar a comunicação sobre desejo, consentimento e limites — e isso é uma conquista real, sobretudo para quem nunca teve vocabulário para pedir aquilo que precisa na cama ou fora dela. Mas quando alguém responde a “sinto-me pouco desejada ultimamente” com “isso soa-me a um problema de vinculação teu”, a conversa deixa de ser sobre a relação e passa a ser sobre a patologização. É uma forma subtil, e muitas vezes inconsciente, de desviar a atenção para os domínios mais emotivos impedindo uma forma mais conectada de diálogo. Não creio que a solução seja abandonar este vocabulário; a questão não está nas palavras, mas na função que lhes damos. Um bom teste, que sugiro para quem utiliza estes conceitos, é simples: a expressão que estou a usar aproxima-me do meu parceiro ou distancia-me dele? Estou a nomear um sentimento para o partilhar, ou a usar um termo clínico para evitar sentir? A psicoterapia não existe para nos dar um vocabulário de saída elegante das relações difíceis — existe para nos ajudar a permanecer nelas com mais consciência e menos defesa. Talvez o próximo passo desta tendência não seja falarmos menos como terapeutas, mas sim recordarmo-nos de que, os terapeutas devem ouvir primeiro. E talvez seja precisamente isso que falta, por trás de tanto jargão: a disposição real para ouvir o outro, sem pressa de o rotular. No fim, uma relação não se cura nem se compreende somente com um glossário. As relações são mais bem compreendidas com presença, honestidade e a coragem de dizer o que sentimos sem nos escondermos por de trás de palavras técnicas.