VozesDo oficial prussiano Amélia Vieira - 15 Jul 2026 Na intrepidez das guerras interrogamo-nos para sabermos das suas movimentações, só que a guerra é um exercício que está em mutação constante, a guerra é sempre intermitente e nenhum tratado de paz é garante de vida longa. A paz na terra deve-se sempre aos homens de boa vontade que são muitas vezes aqueles que a movimentam: um velho adágio nos diz isso mesmo «para fazeres a paz, prepara a guerra» D.H. Lawrence deu a este enunciado um romântico e inexpugnável processo marcial que requer análise entre servo e senhor, uma componente hierárquica cuja erotização nunca anda longe do instinto guerreiro e nos consegue blindar numa dimensão quase supersticiosa. Estamos a falar de seres com testosterona, composições que estão na génese humana da guerra, do sangue e da matança, hierarquias onde toda a História se plasmou. A compreensão do mundo passa pelo conhecimento da guerra quer queiramos quer não, e é mor saber que nada do nosso ser histórico a pode esquecer ou contornar. A esquerda moderna só perdeu a guerra por ter entendido que a ideologia, as causas fracturantes e os movimentos “woke” eram mais importantes que uma musculada preservação do estado social. Ao se esvaziar politicamente encontrou os velhos monstros intactos e agora bastante mais bravios por causa de épocas de descaso. A presente atitude missionária colidiu com a barbárie que ronca, não porque tivessem vindo de um outro mundo, mas porque o atavismo cavernoso esteve em guarda e nunca quis saber do progresso para nada. As suas leis são simples, as barricadas ferozes, que a antiga riqueza lhes veio da carne e dos ossos que tragam ainda como agentes eternos das cavernas. A noção social não lhes diz nada, são tribais, orgânicos, possantes, competitivos, com o córtex central atrofiado e vaidades de grupo do tempo em que apanhavam ouro do fundo da terra à dentada. O autor dá-nos a saber: é preciso anular muitos pequenos tiranos – resultado de uma grande soma de parcelas- para a anulação do tirano máximo, capaz de exercer-se no espaço de uma nação, em todo o mundo. Foi um grande aviso, uma anunciação certeira do que viria pouco mais tarde a acontecer quando da sua permanência na Alemanha, onde esse exercício permanente que as sociedades devem fazer parece sempre gorado pela fragilidade burguesa que se submete, atraiçoando assim toda a esperança de renovação. Tais erupções são sempre acompanhadas por aquilo a que hoje designamos por masculinidade tóxica, que tudo isto nos fala de um drama bem mais profundo de representação «O Führer mandava para a morte os seus homens mais belos. Era a única forma de possuí-los a todos» Há muito para entender nesta neurótica manifestação filtrada «o celibato faz luxurioso o sexo dos sacerdotes, pervertido, enlouquecido, e deles nascem as Inquisições». Nenhuma riqueza do mundo, nenhuma consciência socializante pode ser incorporada neste corpo de desejo que forjou as suas leis até ao delírio prazeroso da crueldade. A «felicidade na servidão» pode ainda ser comparável à «alegria no trabalho» e toda esta instrumalizante manobra vem de reinos antigos que não servem já o novo propósito andrógino e de transformação laboral. Esse pântano secou, e com ele foram cargas de servos encantados e senhores em solidão profunda somente interrompida pelos músculos jovens dos combatentes. É!- A guerra é o Diabo. Ela não se mantém igual na longa caminhada histórica, sendo ferozmente adaptável, seguindo caminhos que toda esta estirpe guerreira já desconhece, não valendo a pena alongar bandeiras da paz que todos temos as nossas guerras por fazer que vão no leito dos rios abrindo caminhos que nunca observamos por inépcia numa velha estruturaparalisante de funestos encantamentos. Muitos destes oficiais prussianos quando a derrota se lhes avizinhava, colocavam as suas luvas, esgrimiam as suas espadas, fardavam a rigor e iam para o campo de batalha com adversários de tecnologia avançada dando-se à morte como último ritual. Estes, D.H. Laurence não menciona, talvez porque fossem muito poucos. Estas composições e artefactos armilares que por aqui andam devem por isso ser considerados sórdida serventia, um jugo extemporâneo, pois que algo de muito mais portentoso está por vir. O sémen, o sangue, e o território que enaltecem, é um fermento azedo de práticas ancestrais diluídas no lodo das suas perversões. As tribos do futebol são bonitas e podem em seu treinamento e projeção unir Nações, e um dia quando tudo nos faltar, que sejam elas a tomar a dianteira para a estratégia defensiva das multidões. Só que a guerra agora é outra, e tanto faz que estrategas, blindados, competentes, sagazes, recrudescentes, misseis ou drones avancem, que perante o enunciado do crescente tecnológico, vamos todos perder. A guerra do futuro não gostará das nossas guerras – nós parecemos não gostarmos uns dos outros – Que todos temos guerras injustas. « O Homem que morreu» do mesmo autor.