Uma história de desconexão – e sobre onde os rapazes encontram comunidade

Desde a série Adolescente que se tem falado sobre a socialização de jovens rapazes e os perigos da manosphere: o canto da internet que enaltece um discurso misógino e anti-feminista. Andrew Tate, dos maiores influencers do género, acusado de crimes de tráfico humano e violação na Roménia e no Reino Unido, percebe que traz um discurso que ressoa na cabeça dos rapazes. Explorando as fragilidades do sistema neoliberal capitalista, de um mundo em pós-pandemia e de uma possível terceira guerra mundial, estes influencers lucram com as incertezas da vida – e dos rapazes que procuram respostas.

Muitos destes jovens chegam à manosphere através de perguntas feitas ao seu motor de busca favorito sobre relacionamentos, exercício físico ou dinheiro. Eles encontram propostas que são altamente aliciantes por serem simples e fáceis de compreender, e que mobilizam a frustração comum. As pessoas estão cada vez mais isoladas e, na procura de símbolos identitários, encontram um grupo que está igualmente frustrado por se sentirem não-vistos ou não-ouvidos.

Andrew Tate diz algo como “eu consigo dizer que a água é molhada”, i.e., ele consegue dizer o óbvio. Os discursos populistas justificam-se frequentemente com recurso ao senso comum — “eu estou a dizer o que toda a gente pensa”. Mas talvez seja mais útil compreender que, mais do que ideias, é o significado emocional que está a ser ressoado. As palavras vêm, por isso, depois: uma justificação a posteriori para danos aos quais o campo emotivo procura dar sentido e nome.

Há grupos de investigação e jornais que tentam aprofundar o que é atraente em todo este discurso que vê as mulheres como interesseiras e que compreende a igualdade de género como um perigo à masculinidade. Uma análise do conteúdo dos vídeos do Andrew Tate feito pelo The Guardian mostrou como o tema das mulheres não é o mais recorrente: o tema mais recorrente é o dinheiro. Mostram-se estilos de vida glamorosos e 40 carros de luxo. Reforçam que o respeito e visibilidade são adquiridos com dinheiro, em especial a atenção das mulheres. Esta é a mensagem principal. E muitos destes influencers depois oferecem cursos de como enriquecer instantaneamente ou em passos simples. Acoplado a isto estão ideias tradicionais de masculinidade, de que o homem tem de providenciar e ter sucesso, e num mundo altamente competitivo, as mulheres passam facilmente a ser vistas como uma ameaça.

Isto muda um pouco o olhar do fenómeno. Em vez de julgarmos todos os rapazes à beira do risco de misoginia por obra e graça do Espírito Santo, obriga a um olhar mais sistémico: que necessidades estão cronicamente por cumprir? Olhemos para o estado socio-económico actual, pelo menos no mundo ocidental, em que um curso superior já não é uma promessa de um bom emprego e de um bom ordenado, em que os jovens se vêem obrigados a ficar em casa dos pais porque não conseguem pagar uma renda, em que as interacções sociais são mediadas por ecrãs e a comunidade está esquartejada. As frustrações impõem-se e facilmente encontram espaços onde podem ressoar nestes ecossistemas digitais.

Estudos realizados mostram que os jovens, especialmente os que se aliciam por estes espaços, não têm muitas interações sociais fora do ecrã, e que sentem que nunca foram vistos ou compreendidos por ninguém. E este crescente isolamento, aliado a poucas perspectivas de futuro, é deveras preocupante. Estes estudos – por exemplo, como os realizados pela Equimundo, um centro para as masculinidades e justiça social – também exploram as formas como os jovens saem destes espaços digitais. Os relatos mostram que os rapazes arranjam namoradas, e percebem que a realidade social é bem diferente daquela inicialmente projetada. Também o aumento de interações reais com pessoas, em contextos de trabalho, tem o poder de reequilibrar uma visão do mundo que só consegue surgir em isolamento profundo.

Claro que nada é resolvido de forma assim simples. Mas o que as reflexões e investigação sobre o tema parecem mostrar é que há necessidades identitárias, de pertença e de comunidade que são profundas, e há um conjunto de factores que contribuem para isso. Desde as políticas socio-económicas vigentes, um estado do mundo em multi-crises, contextos familiares negligentes ou factores individuais que tendem ao isolamento. Talvez, se reconhecermos que o mundo está carente de conexão, alguma coisa possa mudar a partir daí.

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