Perspectivas VozesA Europa e a Entropia da Ordem Internacional Jorge Rodrigues Simão - 26 Mar 2026 “In a world where order decays faster than it forms, survival demands not symmetry, but adaptability.” – Zygmunt Bauman A ordem internacional contemporânea caracteriza-se por uma complexidade sem precedentes, marcada por dinâmicas simultaneamente aceleradas e imprevisíveis. A tentação de recorrer a analogias históricas para compreender o presente é recorrente, mas frequentemente enganadora. Entre essas analogias, a evocação de um novo “Congresso de Viena” surge como expressão nostálgica de uma época em que a diplomacia parecia capaz de restaurar equilíbrios duradouros. Contudo, a realidade actual revela um ambiente profundamente entrópico, resistente a qualquer tentativa de ordenação estável. A Europa, enquanto entidade política, cultural e geoestratégica, encontrase no centro desta turbulência, confrontada com a expansão de conflitos, a erosão da sua capacidade de projecção e a necessidade urgente de redefinir o seu papel num mundo em transformação. Existe a necessidade de analisar criticamente a inadequação dos modelos diplomáticos clássicos face ao contexto contemporâneo, explorar as fragilidades estruturais da Europa perante a nova realidade da guerra e reflectir sobre a necessidade de uma cultura estratégica adaptada à imprevisibilidade global. A partir destas ideias é de afirmar que a sobrevivência política da Europa depende da sua capacidade de aceitar limites, assumir responsabilidades e desenvolver formas de negociação permanentes, flexíveis e não codificáveis em tratados definitivos. A entropia do sistema internacional exige paciência, resiliência e uma compreensão lúcida das próprias vulnerabilidades. O mundo actual distinguese de qualquer configuração histórica anterior. A globalização, longe de produzir uma ordem integrada, gerou um espaço fragmentado, onde actores estatais e não estatais competem, interferem e se sobrepõem. A proliferação de conflitos regionais, a interdependência económica assimétrica, a aceleração tecnológica e a circulação instantânea de informação criaram um ambiente onde a previsibilidade é mínima e a estabilidade, quando existe, é efémera. A entropia, enquanto metáfora, descreve adequadamente esta realidade pois tratase de um sistema em que a tendência natural é a desordem, e onde qualquer tentativa de impor uma estrutura rígida está condenada ao fracasso. A diplomacia tradicional, assente em equilíbrios de poder relativamente estáveis, fronteiras claras e actores bem definidos, revelase insuficiente. O mundo contemporâneo não admite geometrias de políticas fixas nem estratégias lineares. A multiplicidade de variáveis, a volatilidade das alianças e a rapidez das transformações exigem uma abordagem adaptativa, quase orgânica, em que a negociação é permanente e nunca conclusiva. Neste contexto, a ideia de replicar modelos históricos como o “Congresso de Viena” é anacrónica. Aquele encontro, realizado num período em que as potências europeias partilhavam uma visão relativamente homogénea da ordem e possuíam meios comparáveis, não encontra paralelo no presente. Hoje, a assimetria entre actores, a diversidade de interesses e a ausência de consensos mínimos tornam impossível qualquer tentativa de restaurar uma ordem estável através de um acordo diplomático abrangente. A evocação de um novo “Congresso de Viena” revela, mais do que uma proposta concreta, uma nostalgia por um passado idealizado. A crença de que um conjunto de líderes esclarecidos poderia redesenhar o mapa político global ignora a natureza profundamente distinta do mundo contemporâneo. Se figuras históricas como Castlereagh, Metternich ou Talleyrand vivessem hoje, dificilmente encontrariam espaço para aplicar os seus métodos. O sistema internacional não é um palco onde algumas potências determinam o destino do mundo; é um mosaico de actores interdependentes, frequentemente em conflito, e onde a autoridade é difusa. A própria noção de soberania, que sustentava a diplomacia clássica, encontrase fragmentada. Organizações internacionais, empresas tecnológicas, grupos armados, redes transnacionais e movimentos ideológicos disputam influência com os Estados. A ordem internacional não é apenas multipolar; é multidimensional. A tentativa de impor uma arquitectura estável num ambiente tão fluido é ilusória. A Europa, ao insistir em analogias históricas, revela uma dificuldade em compreender a natureza do presente. A sua tradição diplomática, embora rica, assenta em pressupostos que não se aplicam. A crença na possibilidade de uma paz duradoura, alcançada através de tratados definitivos, ignora que a estabilidade contemporânea depende mais da gestão contínua de tensões do que da sua resolução final. A negociação permanente, flexível e pragmática tornase, assim, a única estratégia viável. A expansão dos conflitos contemporâneos desde a guerra na Ucrânia às tensões no Médio Oriente expõe as fragilidades estruturais da Europa. Apesar de possuir uma longa tradição diplomática e um peso económico significativo, o continente revela uma dificuldade persistente em reconhecer a natureza da guerra moderna e em assumir as responsabilidades que dela decorrem. A retórica europeia, frequentemente inclinada para um moralismo abstracto, contrasta com a sua incapacidade material de sustentar posições firmes. Expressões como “paz justa” tornamse paradoxais quando não são acompanhadas de meios militares, estratégicos ou logísticos que permitam influenciar o curso dos acontecimentos. A Europa, envelhecida demograficamente, habituada a décadas de prosperidade e protegida por alianças externas, desenvolveu uma cultura política que privilegia o conforto e a estabilidade interna, relegando a defesa para um plano secundário. Esta atitude reflecte uma ilusão profundamente enraizada; a crença de que a paz é o estado natural das relações internacionais. Durante décadas, o continente viveu sob a protecção de estruturas de segurança que lhe permitiram desinvestir na defesa e concentrarse no bemestar social. A ideia de que a guerra poderia regressar ao continente europeu parecia inconcebível. Contudo, a realidade mostrouse implacável. A guerra não desapareceu; apenas se deslocou, transformou e regressou sob novas formas. A dificuldade europeia em lidar com a nova realidade da guerra está intimamente ligada a factores demográficos e culturais. A Europa é um continente envelhecido, com populações habituadas a elevados padrões de vida e pouco dispostas a aceitar sacrifícios. A defesa, enquanto responsabilidade colectiva, perdeu centralidade no imaginário político. As Forças Armadas são frequentemente tratadas como instituições isoladas, com funções que vão desde a protecção civil até à participação em missões humanitárias, mas raramente como instrumentos de guerra efectiva. Esta dissociação entre sociedade civil e defesa cria um paradoxo pois a Europa exige segurança, mas hesita em assumir os custos associados. A cultura política dominante valoriza o indivíduo acima da comunidade, o bemestar acima do dever e a estabilidade acima da preparação para o conflito. Esta mentalidade, embora compreensível num continente marcado por duas guerras devastadoras no século XX, revelase inadequada num mundo onde a força continua a desempenhar um papel central. A crise estratégica europeia não é apenas militar; é cultural. A incapacidade de reconhecer a guerra como possibilidade real impede a formulação de políticas coerentes. A Europa encontrase, assim, num estado de vulnerabilidade estrutural pois possui interesses globais, mas carece de meios para os defender; proclama valores universais, mas não dispõe de instrumentos para os projectar; deseja estabilidade, mas não controla os factores que a ameaçam. A quase fusão entre a guerra na Ucrânia e os conflitos no Médio Oriente ilustra a interdependência dos sistemas regionais contemporâneos. O que antes eram teatros de guerra relativamente autónomos tornouse parte de uma dinâmica global, onde decisões tomadas num ponto do globo repercutem noutros. Esta interligação revela não apenas a complexidade do sistema internacional, mas também a incapacidade das grandes potências incluindo os Estados Unidos de controlar plenamente os acontecimentos. A hegemonia americana, embora ainda significativa, encontrase sob pressão. A multiplicidade de crises simultâneas, a ascensão de novas potências e a fragmentação interna dos próprios Estados Unidos limitam a sua capacidade de intervenção eficaz. Para a Europa, esta realidade é particularmente preocupante. Durante décadas, o continente confiou na protecção americana como garantia última da sua segurança. Hoje, essa dependência revelase arriscada. A incapacidade das grandes potências de delimitar os seus próprios envolvimentos militares cria um ambiente de incerteza permanente. A Europa, situada geograficamente entre múltiplos focos de tensão, tornase especialmente vulnerável. A ausência de uma estratégia autónoma, combinada com a dependência de aliados externos, coloca o continente numa posição de fragilidade que contrasta com a sua ambição de relevância global. Face a este cenário, a Europa necessita de desenvolver uma nova cultura estratégica, capaz de responder à entropia do sistema internacional. Esta cultura deve assentar em três pilares fundamentais que são a lucidez, responsabilidade e adaptação. A lucidez implica reconhecer a realidade tal como ela é, e não como se deseja que seja. A guerra, longe de ser uma anomalia, continua a ser um instrumento político utilizado por múltiplos actores. Ignorar esta evidência é condenarse à irrelevância. A Europa deve aceitar que a defesa é uma componente essencial da sua existência política e que a paz exige preparação, não apenas desejo. A responsabilidade exige que o continente assuma o seu papel no sistema internacional. Não basta proclamar valores; é necessário defendêlos. A Europa deve investir na sua capacidade militar, reforçar a coordenação entre Estadosmembros e desenvolver mecanismos de resposta rápida que lhe permitam agir de forma autónoma quando necessário. A dependência excessiva de aliados externos é incompatível com a ambição de autonomia estratégica. A adaptação implica desenvolver formas de negociação permanentes, flexíveis e pragmáticas. Num mundo entrópico, a estabilidade não é alcançada através de tratados definitivos, mas através da gestão contínua de tensões. A Europa deve abandonar a ilusão de que é possível restaurar uma ordem estável semelhante à do passado e aceitar que a sua sobrevivência depende da capacidade de navegar a incerteza. Assim, a ordem internacional contemporânea caracterizase por uma entropia estrutural que desafia os modelos diplomáticos clássicos e exige novas formas de pensamento estratégico. A Europa, confrontada com a expansão dos conflitos, a crise demográfica e cultural e a incapacidade das grandes potências de controlar plenamente os acontecimentos, encontrase num momento decisivo. A nostalgia por um novo “Congresso de Viena” revela uma incompreensão profunda da natureza do presente. O mundo actual não admite soluções definitivas nem arquitecturas estáveis; exige negociação permanente, paciência estratégica e uma aceitação lúcida dos próprios limites. A sobrevivência política da Europa depende da sua capacidade de desenvolver uma nova cultura estratégica, assente na lucidez, responsabilidade e adaptação. O continente deve reconhecer que a paz não é um dado adquirido, mas um equilíbrio frágil que exige preparação, investimento e compromisso. A entropia do sistema internacional não pode ser eliminada, mas pode ser gerida. E é nessa gestão paciente, pragmática e contínua que reside o futuro da Europa.