Miguel Carvalho, autor do livro “Por Dentro do Chega”: “O Chega atraiu tudo e um par de botas”

Há muito que o jornalista Miguel Carvalho investiga o Chega, o partido político de extrema-direita fundado por André Ventura. Convidado do Festival Literário “Rota das Letras”, Miguel Carvalho vem a Macau falar do livro “Por Dentro do Chega – A Face Oculta da Extrema-Direita em Portugal” e do crescimento dos populismos

Vai partilhar a sessão “Do Engano ao Populismo” com outro jornalista, João Miguel Tavares, que escreveu uma obra sobre José Sócrates. Que paralelismo encontra entre Sócrates e o Chega?

Acho bastante curioso que se tenha proporcionado o debate entre estes dois livros [“José Sócrates – Ascensão (1957-2005)” e “Por Dentro do Chega”]. Isto porque o próprio André Ventura assumiu, embora posteriormente tenha desmentido, mas está gravado, que votou em José Sócrates no primeiro mandato. Descrevo no livro a forma exemplar como Ventura, de alguma maneira, olha para si próprio em relação à própria persona política, nas características positivas que via em José Sócrates, no que diz respeito à ideia do político que veio mudar tudo e mais alguma coisa. Mas José Sócrates é uma figura odiada dentro do Chega, é, talvez, o político que o Chega mais refere para identificar os maus na política. Em muitos casos, Sócrates foi a motivação pela qual muitos aderiram ao Chega. Na minha investigação encontrei muitos militantes que chegaram a votar em José Sócrates, acreditando ser a melhor coisa que podia acontecer à política portuguesa.

O livro vai na nona edição em Portugal. Esperava essa reacção do público, tendo em conta o crescimento do eleitorado do Chega?

Há uma dimensão disto que, para mim, é um bocado irreal. Estamos a falar de um país como Portugal, que tem índices de leitura marginais, e já temos 36 mil exemplares de tiragem no total. Mas esta reacção do universo eleitoral do Chega, tanto de pessoas que já saíram ou que ainda lá estão, não é uma total surpresa para mim. Recebi imensas mensagens por e-mail ou Facebook de pessoas que, ou tinham saído do Chega ou que ainda lá estavam, mas que respeitavam o meu trabalho jornalístico, independentemente do que possam pensar de mim como cidadão ou das minhas convicções. Pessoas que estavam a ler o livro com espírito crítico. Sei de pessoas que leram o livro e saíram do Chega, e outras que continuaram. O livro é 90 por cento o Chega a falar de si próprio, e estou grato pelo facto de as pessoas continuarem a respeitar o meu trabalho jornalístico, independentemente da opinião que possam ter sobre mim.

O Chega é fruto de uma onda de populismos que tem surgido um pouco por todo o mundo. Não aprendemos nada com a história?

Isso não, e é claro a vários ritmos. Dedico o último capítulo à entrada das narrativas extremistas nas escolas e faculdades, e de como a narrativa do Chega está a contaminar, e a tornar cúmplice, uma geração que tem uma grande distância em relação ao 25 de Abril. Com base em testemunhos de professores e de outros profissionais, relato a presença cada vez mais frequente de alunos nas salas de aula a fazerem a saudação nazi, alguns que citaram partes do “Mein Kampf”, ou enveredaram por narrativas simplistas, a maior parte delas completamente falsas e baseadas na desinformação que grassa por aí. São jovens que estão a levar para a sala de aula coisas que julgávamos já estarem resolvidas. Mas isso acontece também porque algo falhou na escola, e se calhar Portugal não é caso único nesse aspecto. Talvez, em parte, justifique a ascensão dessas narrativas e movimentos. Sei também, pelo acesso à vasta documentação interna do Chega ao longo destes anos, que os professores são uma das classes profissionais com maior representação na militância do Chega, desde o ensino básico à academia. Temos aqui factores que estão a gerar um caldo muito preocupante em relação à entrada de ideias extremistas num universo que, em muitos casos, ainda nem sequer vota.

Uma das ideias que sai do seu livro é que não podemos falar de um eleitor tipo do Chega.

Não é fácil para mim [fazer essa definição]. Não sei, neste momento, quem é o eleitor típico do Chega porque varia imenso consoante a localização geográfica e orientações políticas. Ou seja, o Chega atraiu tudo e um par de botas, digamos assim. Numa fase inicial foi buscar gente oriunda dos partidos que estavam mais próximos de si ideologicamente, nomeadamente o PSD e o CDS. Fui muito para o terreno, entrevistei centenas delas, e é agora verificável com estudos realizados sobre o comportamento eleitoral que o Chega conseguiu atrair gente de várias opções ideológicas no passado, desde o PCP ao Bloco de Esquerda. Houve muitos eleitores tradicionais do Partido Socialista que passaram para o Chega. O partido é disruptivo até em relação ao próprio sistema tradicional dos partidos.

Em que sentido?

Acredito que um eleitor ou um militante de um dos partidos tradicionais até pode discordar do líder em determinada altura ou discordar do programa numa determinada fase, mas se está nesse partido e se vota nesse partido, é porque está minimamente confortável, digamos assim, a 70 ou 80 por cento com o seu ideário. Ora, o Chega não funciona assim, e veio romper com tudo isto. Temos de imaginar o Chega como uma espécie de restaurante onde há o chefe Ventura que inventa uns dez pratos, com aquelas ideias que sabemos de cor e salteado, sobre a imigração, a comunidade cigana, a castração química de pedófilos, e depois este universo eleitoral escolhe três ou quatro pratos que lhe dizem mais respeito, em função do seu percurso pessoal e profissional, ou das suas frustrações, ou da sua comunidade, até. Por exemplo, é fácil encontrar gente do Chega que até não concorda nada que André Ventura faça o discurso que faz sobre a comunidade cigana, mas já concorda quando ele justifica a necessidade de não haver educação sexual nas escolas, porque isso só serviria para ensinar as crianças a masturbarem-se. Aí já acreditam e acham que é um combate que vale a pena. Cada caso é um caso e nunca encontrei um partido tão atomizado e individualizado a esse nível.

Fez, há uns anos para a revista Visão, uma investigação sobre o macaense Vitório Cardoso, ligado ao PSD, mas visto em manifestações do Chega. É um exemplo de alguém que se aproximou do Chega vindo de um partido tradicional?

Tudo o que conheço dele e das suas afirmações públicas, algumas delas, entretanto, apagadas, e tudo o que fui lendo ao longo dos anos sobre a expressão pública do seu pensamento político, torna-o obviamente uma figura mais próxima do Chega do que propriamente do PSD, mesmo sendo este PSD o que é, sem grande lastro ideológico. Não me espantaria, portanto, que pessoas como o Vitório se sentissem muito mais confortáveis num partido como o Chega do que naquele onde supostamente militam.

Na diáspora portuguesa o Chega também tem crescido. Como explica este fenómeno, tendo em conta que falamos de um partido com um discurso anti-imigração?

Esse lado está menos tratado no livro, porque na altura não houve condições para aprofundar o tema. O Chega tem, desde logo, uma grande mobilização da parte de alguns empresários portugueses na diáspora. Na França e Suíça isso é por demais evidente. Há, portanto, grandes empresários que se puseram ao serviço do partido e de André Ventura, usando os seus recursos para levarem o máximo de pessoas a votar. O Chega desmentiu, disse que não tem nada a ver com estas organizações, e que se tratam de iniciativas individuais, mas a verdade é que mesmo nas eleições legislativas, em Genebra, o Chega foi o único partido que conseguiu colocar propaganda eleitoral nas caixas de correio. Isto reflecte outro aspecto, que é o facto de o PS e PSD estarem há demasiado tempo confortáveis, em alguns países, com o voto imigrante. Ou seja, como habitualmente dividiam os eleitores entre si, não se preocuparam muito com a literacia política e mediática de um vasto sector da imigração. É preciso lembrar que 90 por cento dos portugueses radicados nos países mais importantes da imigração portuguesa não foram votar, e isso é muitas vezes justificado pelo facto de sentirem que Portugal os esqueceu. E depois há outra questão, que é o facto de gente que mesmo tendo emigrado em circunstâncias muito difíceis para fugir à miséria, a verdade é que com o seu trabalho conquistaram um determinado estatuto e consideram hoje que qualquer imigração, mesmo sendo a dos seus irmãos portugueses, é prejudicial. Notei muito isso nos Açores, por exemplo, onde se começam a gerar conflitos familiares e de amizade. Isto, do ponto de vista psicológico, é bastante complexo de desmontar.

O deputado José Pereira Coutinho, que venceu as últimas legislativas em Macau, comparou-se a André Ventura. O presidente do Chega é visto como uma espécie de estrela da política que quase serve de referência para outros?

Sim. Já é claro que o partido teria muitas dificuldades em manter a força política que tem hoje sem André Ventura, que é alguém que domina a linguagem mediática há muitos anos, muito antes do Chega. Ele tem o domínio avassalador da comunicação e sabe simplificar, obviamente escudado em muitas mentiras e falsidades. Escrevo isto desde 2020, o Chega é, essencialmente, um projecto de poder pessoal. Ventura submeteu o Chega ao culto do líder, e o partido é hoje, com toda a certeza, menos livre do que era no início.

Com menos crítica interna?

Havia, apesar de tudo, determinadas correntes e pessoas com pensamento próprio, que independentemente ou não de estarem de acordo com a generalidade das propostas que o partido oferecia, eram capazes de subir ao palco num congresso e fazer uma crítica à direcção. Tenho sérias dúvidas de que isso aconteça no próximo congresso do Chega. Os acórdãos do Tribunal Constitucional são avassaladores sobre a falta de democraticidade interna, e [isso acontece] por instinto de sobrevivência, já que André Ventura raramente permitiu dar [palco] a outras pessoas. Há estudos recentes que demonstram que André Ventura transformou o Chega numa liderança muito idêntica à do regime norte-coreano. Pode-me perguntar, se amanhã ele for embora, obviamente que o Chega se irá manter. Sofre um grande abalo, mas continuamos a ter a grande questão, tal como tivemos nos Estados Unidos: não foi pelo facto de Donald Trump ter ficado quatro anos de fora da Casa Branca que deixou de existir. Aqui temos o mesmo problema, não será pelo facto de Ventura ir embora que o “Ventura Country” deixará de existir, é preciso dar resposta aos anseios e às frustrações que geraram esse “Ventura Country”. Se isso não for feito, esse “Ventura Country” vai à procura de outro Ventura.

Ventura vai ser primeiro-ministro em Portugal nas próximas legislativas? Com ou sem maioria absoluta?

Se houver uma crise política novamente, estou convicto que o Chega tem altas possibilidades de ser Governo. Mas a verdade é que há sinais de desgaste na narrativa do Chega. Do eleitorado que aderiu em força logo no início, há sinais de que encontrou outro tipo de motivações. Entre as eleições autárquicas, e a primeira volta das presidenciais, e isso não foi muito falado, o Chega perdeu cerca de 100 mil votos. São eleições muito diferentes, mas 100 mil votos também não se perdem assim. E a verdade é que o Chega tinha, em relação às últimas autárquicas, uma altíssima expectativa que, mesmo com três câmaras municipais ganhas, não se veio a confirmar. A verdade é que, se não houver, no imediato, uma alteração do ciclo político, o Chega terá mais dificuldades em chegar ao Governo.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado
Inline Feedbacks
Ver todos os comentários