Novo filme de Tracy Choi, “Girlfriends” estreia hoje no MGM Macau: “É muito difícil ser realizadora em Macau”

Em “Girlfriends”, o seu novo filme e quarta longa-metragem da carreira, Tracy Choi criou uma espécie de alter-ego, através de uma personagem que, depois de estudar em Taiwan, vive em Hong Kong enquanto luta para financiar um filme. Em entrevista ao HM, a realizadora diz que quer continuar a fazer filmes em torno das mulheres e suas vivências. A estreia oficial de “Girlfriends” está marcada para hoje, às 19h30, no MGM Macau

Faz exactamente dez anos que estreou “Sisterhood”, e provavelmente Tracy Choi não iria imaginar que, uma década depois, o sucesso seria real, com cada vez mais reconhecimento internacional em relação à sua forma de fazer cinema. Depois de colocar, pela primeira vez, um filme de Macau no Festival Internacional de Cinema de Busan, com “Girlfriends”, é a vez de a realizadora local trazer o seu novo filme, a quarta longa-metragem da carreira, para a sua casa. A estreia acontece hoje na sala “Treasure Box” do MGM Macau, a partir das 19h30.

Conversámos com a realizadora antes da estreia da nova obra, que nos contou como começou a pensar no guião do filme durante o período da covid-19. “A história é sobre uma rapariga que cresceu em Macau, que estudou em Taiwan e que foi trabalhar em Hong Kong. Pensei nisso [no filme] durante a pandemia, porque não podíamos ir a lado nenhum e não tínhamos nada para fazer. Decidi escrever um guião sobre mim: uma rapariga de Macau a crescer, ver como ela cresce e como se encontra a si mesma, algo do género.”

O elenco faz-se de actrizes com as quais Tracy Choi já trabalhou, nomeadamente Fish Liew, Jennifer Yu, Elizabeth Tang, Ning Han, Natalie Hsu e Eliz Lao. “Uma delas já recebeu várias nomeações e até prémios em Hong Kong, incluindo o de melhor actriz [Jennifer Yu]. Desta vez, depois de quase dez anos, voltámos a trabalhar juntas. Acho que crescemos muito e foi como trabalhar entre amigas. Foi uma grande felicidade poder trabalhar com alguém que conheço bem. A química entre elas também é muito boa, porque são amigas na vida real.”

No caso de Natalie Hsu, foi nomeada para o prémio de “Melhor Actriz” na 43ª edição dos Hong Kong Film Awards, enquanto que Eliz Lao é uma actriz local, que até teve direito a um ciclo de cinema em nome próprio na Cinemateca Paixão. Eliz Lao fez filmes em Hong Kong e na China, tendo experiência em televisão e teatro, sem esquecer a formação em ballet.

Sobre a estreia de hoje, Tracy Choi destaca que “os filmes com a temática LGBT, ou histórias sobre o crescimento feminino, não são muito comerciais”. “Sempre que procurámos entrar em festivais, foi-nos dito que o filme não ia ter grandes vendas. Ainda assim, e mesmo que o filme não tenha grande sucesso comercial, esperamos alcançar mais público, e fazer com que mais pessoas conheçam o filme”, destacou.

“Girlfriends” foi rodado e produzido com fundos públicos, e filmado em 2024. Tracy Choi e a sua equipa também procuraram investimentos em Taiwan e Hong Kong. Depois do lançamento em Macau, a equipa prepara-se para novas estreias na região vizinha e em Taiwan.

Sobre a experiência recente em Busan, na Coreia do Sul, com “Girlfriends” a integrar a secção de competição “Vision Section”, Tracy Choi trouxe as melhores recordações. “Foi uma grande experiência estrear o filme lá. Foi o primeiro filme de Macau a ser exibido no festival, tivemos uma grande noite. O público também pareceu gostar e acabámos por ser convidados para ir a outros festivais, e isso foi importante para toda a equipa.”

Furar barreiras

O cinema de Tracy Choi reflecte um pouco o imaginário de Macau e as vivências femininas, mas também explora cenários emotivos de sentimentos de pertença, memória e recordações. “No que diz respeito às mulheres e às histórias de Macau, somos sempre representados pelos outros, como filmes de Hong Kong, ou da China. Muitas vezes somos representados por outros realizadores e não há muitas vozes de realizadores locais, especialmente no que diz respeito a mulheres. Então, como sou mulher, espero realmente focar-me na forma como as mulheres crescem aqui ou noutros lugares na Ásia, naquilo que as mulheres enfrentam. Nos meus próximos projectos espero continuar a focar-me nas maneiras como as mulheres enfrentam o mundo em diferentes situações”, disse.

Tracy Choi não esconde que “Girlfriends” tem uma temática assumidamente LGBT, enquanto que, nos seus filmes anteriores, não era tanto assim. “Talvez fossem mais sobre Macau ou [o sentimento] de irmandade, algo assim. Mas em ‘Girlfriends’ focámo-nos, principalmente, numa história de amor LGBT. Espero que seja um pouco mais comercial para um filme LGBT, e o caminho que escolhemos para contar a história é mais comercial. Espero que o público comum, e não apenas LGBT, também consiga sentir amor pelas pessoas LGBT e identificar-se com esse tipo de história.”

No caso de “Sisterhood”, a sua primeira longa-metragem, há referências à transição de Macau, em 1999, e de duas antigas massagistas, Sei e Ling, que passaram bons tempos juntas. Porém, anos depois, uma delas percebe o grande segredo da outra, numa amizade que ganha outros contornos.

As dificuldades sentidas

Apesar do sucesso que tem vivenciado, Tracy Choi salienta que “é muito difícil ser realizadora em Macau porque não há muitas produções”. “Mas não sou só eu, outros cineastas de Macau também estão a trabalhar arduamente para que aconteçam coisas. Procuramos outras maneiras [de sustento]: eu dou aulas e trabalho como produtora para fazer com que outras produções se concretizem. Esperamos, todos juntos, poder conquistar mais público e atenção, para que os próximos realizadores, e as produções em Macau, tenham um caminho um pouco mais fácil”, acrescentou.

A realizadora está ainda a colher os louros do seu quarto filme, mas já está a trabalhar na pós-produção de outra longa-metragem. “No ano passado também filmei outra produção, em co-produção com a China, e esperamos terminar antes do Verão e exibir o filme ainda no final deste ano.”

Tracy Choi nasceu em 1988 e estudou Produção Cinematográfica na Universidade de Shih Hsin, tendo crescido no bairro de San Kiu. “Sisterhood” foi o seu filme de apresentação que lhe valeu alguma notoriedade, nomeadamente depois de ter recebido o Prémio para a Escolha do Público, no Festival Internacional de Cinema de Macau. Tinha na altura apenas 28 anos.

Sobre este momento, recordou à Revista Macau: “Depois de me ter formado em Taiwan, regressei a Macau para trabalhar. Naquela altura, há cerca de dez anos, não havia cinema em Macau. Não havia produções locais a serem filmadas com regularidade. Isso não acontecia e nós aproveitámos a oportunidade que nos foi dada. Desafiei os meus amigos a juntarem-se ao concurso organizado pelo Centro Cultural, obter financiamento e filmar algo que tivesse um significado importante para nós. Foi também muito importante que a minha primeira longa-metragem pudesse estrear no Centro Cultural, porque foi algo que trouxe visibilidade à indústria cinematográfica local”, referiu.

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