Hotel Timor

Hotel Timor (2025) é o último romance do escritor timorense Luís Cardoso de Noronha (n. 1958), há muitos anos residente em Portugal. A consistência da escrita de Cardoso, publicada em editoras portugueses, está mais do que confirmada. O que há aqui de novo é que este seu oitavo romance, fim anunciado de um ciclo dedicado a Timor, retoma muito do seu primeiro livro, do qual é, num certo sentido, uma reescrita: Crónica de uma travessia (1997), saído a lume quando o seu autor era representante da resistência maubere. Ficamos de facto com a sensação de encerramento de um ciclo de escrita em torno da questão nacional. É Timor, com seu imaginário, seus povos, línguas, passado e esperanças, que fica no primeiro plano dos seus romances.

Cardoso tem habituado os seus leitores a uma escrita estruturada, com muitas camadas, densa de referências. Fortemente autobiográfica, tem a coragem de incluir neste romance sucessos bastante duros da vida do autor, como o assassinato dum irmão seu, que terá desaparecido em pogroms entre partidos políticos rivais, formados após a retirada dos portugueses do território. É então a pulsão para o relato, o chamado récit de vie, entre a memorialização e a denúncia, que vinha logo desde o seu primeiro livro, que mobiliza internamente este Hotel Timor, metáfora da nação ainda em (re)construção, de hotel colonial a espaço em ruínas até voltar a ser renovado albergue. É justamente aqui que se veem hospedar o escritor e seu duplo, e um dos eixos do romance é precisamente essa questão do duplo. Nesta história há, aliás, vários. O timorense é também, ele próprio, alguém que continuamente se desdobra: um “original”, de feitura pré-colonial, e um outro que foi moldado pelas mãos do colonizador: “A relação fiel e verdadeira de um timorense é com os mate-bian [os mortos]. Depois Deus, Pátria e família, por esta mesma ordem, como era na época do Estado Novo e do Velho Império”. (p. 23) Aqui se nota a característica ironia do escritor.

O principal par de duplos é, porém, constituído pelo primeiro protagonista, que partilha muitas características com o autor empírico, mas não é ele. São dois regressos paralelos ao Timor de hoje: o de um escritor famoso que vem ser condecorado e outro de um modesto cantor de cruzeiros que vem à procura de uma amada perdida. É este último que começa por falar na primeira pessoa no romance, e é-nos dito que é ele quem tem escrito os romances do autor; este, o que não existe, ou que existe menos do que o outro. Ou seja, o real divide-se entre o que veio ao ser e o que ficou potencial, e é pelo que está na sombra que vêm a escrita e as demais coisas reais, o que implica uma conceção estética particular. Implica ainda um jogo de ocultamentos: diz-se uma coisa para esconder outra; esconde-se uma coisa para trazer outra à luz. Quem fala neste romance é, então, pura potencialidade, fantasma. É uma possibilidade de vida do escritor empírico que nunca se concretizou, pelo que sabemos: cantor romântico em cruzeiros. A realidade (escrita ou não) seria uma espécie de quiasmo entre esses dois planos. Se é, então, o duplo do escritor quem, na verdade, escreve os romances do autor que aceita ser medalhado, é porque ele é que é o escritor e, simultaneamente, um enviado dos antepassados. O autor é apenas um figurão a quem se podem atirar medalhas e apertar a mão em cerimónias. Os mortos e os fantasmas pertencem ambos ao mesmo mundo latente. Outra forma de dizer que não adianta medalharem o escritor, porque quem escreve os seus romances é a (sua) sombra, é o inconsciente, a deriva — que é outra forma de pôr as coisas para quem tais coisas não fazem sentido.

Ora, o mundo dos espíritos, das sombras, enfim, o mundo remoto das tradições animistas timorenses, bem presente em inúmeras referências em tétum e na própria lógica estruturante do livro, não é um folclore pitoresco que o envolve, mas uma coisa presente, atuante. Não esmoreceu no longo exílio de Cardoso: informa os seus livros, onde os mortos veem falar, como dizia Raul Brandão sobre os dele. Os mortos moldam a sua literatura a partir do outro lado, e ela serve de comunicação com eles. O mundo dos espíritos e o mundo dos vivos são como que dois braços comunicantes de uma ampulheta, ligados pela areia da voz.

Este é, penso eu, o aspeto mais rico e dinâmico do livro. Outro, de não menor relevo, é o facto de as páginas do romance operarem uma inflação da memória num país espoliado de seu passado e memória, não só por ser nação recente, como pelos pesados danos do colonialismo e da invasão pelo seu vizinho. Numa terra onde escasseiam bibliotecas, o livro pretende construir uma espécie de biblioteca mínima de Timor através de citações e de referências, que reproduz a oratura dos seus povos. Pretende criar memória, processo muito necessário. É, assim, natural que seja também uma acumulação e uma revisão da própria biblioteca romanesca composta pelo autor, abundando as referências a toda a sua obra anterior, e que veem alimentar o jogo romanesco, como quando se refere à Pensão Buganvília, “a mesma onde se hospedou Catarina, a personagem fundamental do livro Requiem para um navegador solitário (…). Não tendo encontrado nenhuma pousada com esse nome, fez a reserva no Hotel Timor” (p. 19). A biblioteca serve igualmente para pôr a nu as fontes de que Hotel Timor parte e fazer das suas leituras vertente explícita da escrita.

Trata-se de um livro construído com base em falas curtas, pedaços de diálogo que funcionam como mote para inúmeras divagações, já que a narrativa em si é parca, apenas um esboço: duplos voltam a Timor ao mesmo tempo e com o mesmo passaporte, hospedados no mesmo hotel. Um deles é um cantor romântico que finalmente volta para tentar encontrar a sua amada; o outro é o escritor famoso. Esta história quase burlesca permite um mínimo de personagens e de cenas que espoletam recordações, falas internas e externas. O diálogo é, assim, modo de lançar um mote para uma deriva informe, ao modo loboantuniano, que enche todo o romance.

Parece, assim, haver vários narradores, também ao modo do autor de As Naus: o duplo do escritor, o seu irmão fuzilado, talvez ainda outros, que vão segregando recordações, episódios e fragmentos relativos às suas vidas, mas sempre em função de Timor. É Timor quem está por trás disto tudo e quem liga todas as vozes dispersas, e é assim que se percebe que o que é constante neste livro, sem nunca afetar a profundidade do seu entrelaçamento de várias tradições (timorense, portuguesa, lusófona, europeia) e de referências inúmeras da literatura e da música (Kadaré, Piaf, Dylan Thomas, Mia Couto), é a crítica irónica, mas bem-humorada, aos destinos de um Timor pós-colonial assolado pelo nepotismo.

A escrita é não só uma crítica de costumes, mas uma pequena grande vingança: pelos prémios que quase recebeu, pelas vidas outras que ele e a sua família poderiam ter vivido caso a história do seu país não tivesse sido o calvário que foi. Apesar de tudo, um Timorense escrever em português e ganhar prémios por isso (foi o que aconteceu com o autor, que recebeu o Oceanos em 2021), sobretudo tendo em conta que o português não é a sua língua materna, é obra. É, de certo modo, uma merecida vingança por Manufahi, talvez a única possível, pois é batalha ganha no terreno “espiritual” do colonizador, a sua língua. Sabemos que o escritor é descendente direto de liurais que participaram nessa última sangrenta sublevação contra Portugal, e que saíram a perder, a que se deu em 1912 na província de Manufahi. Mas a lança de seu neto cravou-se fundo no escudo que o Português tem usado para se defender pelo mundo: a língua.

Assim, por este domínio da língua e mestria narrativa, Cardoso tem já merecido reconhecimento. E não estranhemos que quem já publicou em grandes grupos editoriais, esteja agora em editoras independentes, certas vezes mais acolhedoras. O seu Plantador de abóboras havia saído na Abysmo, de João Paulo Cotrim, e sai agora este numa editora de nome anglófono, mas que publica sobretudo em língua portuguesa, a Poets and Dragons Society. É bom haver um escritor desta grandeza em editoras independentes, mas o livro, pejado de gralhas (até em nomes timorenses), merecia ter tido uma revisão, que visivelmente não aconteceu, e vai já em segunda edição.

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