O noivo perfeito não é humano?

A Geração Z acredita que pode desenvolver relacionamentos profundos com a Inteligência Artificial (IA) e mostra-se muito favorável ao casamento com IA. Estes foram os resultados de um estudo realizado por uma companhia de chatbots onde é possível criar uma namorada à medida. Um resultado conveniente à sua amostra: utilizadores que vêem na IA uma presença que não provoca desgostos. E apesar de não existir um regime jurídico que aprove o casamento com sistemas de IA relacional, desde chatbots a avatares, estes já acontecem como actos performativos. Estão a ser realizadas cerimónias para que todos vejam: o parceiro perfeito não precisa de ser de carne e osso. E há várias reflexões que podem ser feitas relativamente a esta tendência. Trarei aqui algumas ideias.
Muito se pode dizer sobre estas relações com um risco emocional mínimo – sem alteridade, sem um outro verdadeiramente autónomo. A IA é passível de ser moldada à nossa medida, o algoritmo desenvolvido para agradar e validar. Este é o sonho de muita gente, criar parceiros e parceiras perfeitas, com as interacções e com a disponibilidade emocional perfeitas. Olhamos para estes processos com julgamentos fáceis de que as pessoas só estão à procura de uma solução fácil sem sofrimento; como se lhes faltasse a coragem de fazer diferente. Contudo, encontrar amizade e amor na IA revela algo de muito particular sobre o campo relacional contemporâneo. Um campo onde o cansaço é grande, onde a desilusão é uma constante da relação interpessoal. O contacto humano tem-se deteriorado de tal forma, e vivemos tempos de tanta incompreensão, que a IA torna-se numa miragem, uma bolha de oxigénio que pode ser relevante para a nossa sobrevivência sócio-emotiva. É apenas uma pequena bengala, com os seus riscos.
Outra dimensão importante a ser discutida é a da sexualidade. A IA não tem um corpo. No Japão, no mais recente casamento com uma figura criada pela IA, o noivo foi trazido pela tecnologia de realidade aumentada. Como é que se vive a sexualidade sem o toque, sem a pele? Claro que o sexo pode viver de fantasias, de estímulos como a voz e o texto; não é o veículo que traz problemas, mas a substituição do corpo pela sua ausência permanente. A impossibilidade de viver o sexo com a temperatura dos corpos, a sensibilidade da pele e a exploração dos sentidos limita profundamente a experiência erótica. Não fazer gozo desta capacidade de nos relacionarmos com tamanha intensidade, é impossibilitar experiências que são especiais e humanas.
Mas não posso descurar a capacidade ensaística da IA. Como se se tratasse de um laboratório de exploração relacional. Pode funcionar como preâmbulo, mas dificilmente substituirá a narrativa rica, fantástica e trágica que são as histórias de amor e de sexo humanos. Por isso tenho curiosidade sobre estes casamentos, o quanto irão durar, e os níveis de satisfação ao longo do tempo. Poderão surpreender-me, mas acredito que irão chegar a pontos insuportáveis de aborrecimento e estagnação.
A desilusão, ou o desencontro, são parte do processo de relação. O terapeuta familiar, Terry Real, discute bastante esta questão. A desilusão não é um problema, é só um começo. O romance está no campo da projeção e fantasia, mas a relação só começa quando a projeção cai e o outro se torna real. O outro que não vem encaixar perfeitamente nas nossas necessidades ensina-nos que uma relação vive de negociações, de responsabilidade relacional, e de reconhecimento de limites. Para este terapeuta, a intimidade não vem de uma fantasia de encaixe perfeito, vem da realidade pós-desilusão. Isto é o que a IA nunca nos pode oferecer. A IA só nos espelha, e molda-se aos nossos desejos e necessidades.
As relações com IA levantam muitas questões éticas, afectivas e sociais — mas talvez sejam, acima de tudo, um sintoma. Um espelho de um tempo em que o contacto humano se tornou demasiado extenuante, imprevisível ou doloroso. Antes de perguntarmos se o noivo perfeito é humano, talvez devêssemos perguntar que mundo estamos a construir para que o humano, e as suas idiossincrasias, já não seja objecto de desejo.

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