Fu Shan, o Daoísta Protegido Pelo Traje Cor de Cinábrio

Jiang Shinian, também conhecido como Shennong, o «Agricultor Divino», patrono dos praticantes da medicina tradicional (zhongyi), é também conhecido como Yandi, o «imperador das chamas» e por aí capaz de controlar o «vento em chamas», o excesso de calor que provoca sintomas como tremores, confusão ou a febre súbita.
Na prática religiosa, esse «fogo no vento» é entendido como o fumo que resulta da queima de incenso ou papéis que levam até aos céus orações, ofertas ou mensagens para os deuses, antepassados ou espíritos. Esse fogo, figurado pela cor vermelha, é associado entre outras à imortalidade, às forças positivas de energia ou à protecção contra o mal.
Tonalidades da cor vermelha foram adoptadas de forma notória pelos imperadores da dinastia Ming que tinham Zhu, «vermelhão ou cinábrio» como seu nome de família. Um dos exemplos mais publicamente manifestos foi pintar de púrpura os muros da «Cidade imperial proíbida», Zijincheng, como forma de protecção dos ocupantes no seu interior ou atribuir às vestes dos funcionários letrados a cor do cinábrio.
Quando a dinastia caíu e para muitos literatos se tornou intolerável obedecer aos novos imperadores, alguns adoptaram as mais diversas e subtis estratégias de resistência. Um letrado do Norte que, na pluralidade dos seus saberes e vocações chegou a usar mais de trinta nomes de pincel, engendrou para si o nome Zhuyi daoren, o «Daoísta vestido de cinábrio» como se ao usar essa cor protectora, só reconhecia como única fronteira ou muro o seu próprio corpo.
Na vida comum chamava-se Fu Shan (1607-1684), nascido em Yangqu, Shanxi, e da recusa em servir os novos senhores, que prejudicaram o seu dia-a-dia, despontariam inúmeros talentos celebrados ainda hoje em dois jardins da cidade de Taiyuan, a capital provincial. E embora fosse de todos os literatos que o conheceram, reconhecidas as suas qualidades de calígrafo, pintor ou poeta, os mais próximos viam-no como praticante da medicina tradicional, em particular como conhecedor de doenças de senhoras.
Fu Shan preferia que a sua caligrafia fosse «grosseira, não habilidosa; feia, não sedutora; deformada, não fina; espontânea, não premeditada». E tal como em pinturas gostava dos formatos verticais longilíneos como se pode ver num dístico que está no Smithonian (tinta sobre papel, 226 x 45,5 cm) onde, reflectindo a sua dupla preocupação com o espírito e o corpo, escreveu:

«Se o espírito está tranquilo, a mente naturalmente alcança a distância;
Quanto mais o teu corpo está descontraído, mais da vida poderás apreciar».

É-lhe atribuída a criação de uma «sopa de oito tesouros», feita com oito ingredientes que restabelecia os mais debilitados. E, no entanto, quando foi obrigado a ir à corte em Pequim para o ritual de obediência à nova dinastia, atirou-se para o chão afectando incapacitante moléstia.

Caminhando na margem do rio, apreciando as flores, 6 (de 7):

O acesso à casa dos sogros de Huangsi
está repleto de flores por todos os lados,
São mil, dez mil flores pressionando
os ramos, de tão plenos, dobrados.
Repetidamente convidam as borboletas a ficar
constantemente a dançar,
Escuto os papa-figos: como são afinados
no seu delicado piar.

Du Fu (712-770)

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