IN SITU | Seis instalações para pensar o uso de espaços públicos

Chama-se “IN SITU Placemaking Biennale” e, até domingo, traz diversas perspectivas de utilização de espaços públicos em Macau, em locais como o Pátio da Claridade ou a Praça Ponte e Horta. A iniciativa do CURB – Centro de Arquitectura e Urbanismo apresenta, a partir de hoje, workshops e seis instalações: “Letters to Macau”, “UnPlan”, “Multi-Place”, “Resonatorium”, “Furniture Where Life Begins” e “Where Time Crystalizes”

Num território exíguo como Macau, onde turistas e a população local deambula entre a história e o fulgor diário, nem sempre é possível imaginar outras utilizações do espaço público e comum a todos. Mas é precisamente isso que propõe o CURB – Centro de Arquitectura e Urbanismo, com uma nova bienal. A “IN SITU Placemaking Biennale” decorre entre hoje e domingo, trazendo seis instalações desenvolvidas por arquitectos ou artistas locais, bem como workshops que visam a conexão do público com estes projectos.

O programa é variado, mas as seis instalações centram-se na zona mais antiga da península de Macau. Depois de um período de submissão de projectos, não apenas de Macau, mas do estrangeiro, a curadoria da IN SITU decidiu-se por “Letters to Macau”, apresentado na Travessa do Aterro; “UnPlan”, no Largo de Santo Agostinho; “Multi-Place”, que pode ser visto no Largo do Lilau; “Resonatorium”, perto da praça Ponte e Horta; “Furniture Where Life Begins”, no Largo do Aquino; e “Where Time Crystalizes”, no antigo Pátio da Claridade.

O que esta bienal propõe é explorar o conceito de “placemaking”, ou seja, o debate em torno das várias opções para planear e gerir espaços públicos. Segundo uma nota do CURB, trata-se de um “projecto pioneiro” que não é “apenas um festival”, mas sim “uma conversa que envolve toda a cidade”.

O “placemaking” não é mais do que uma teoria em torno das ideias de melhoria da gestão do espaço público com uma abordagem multifacetada, em que a ideia é que todos se sentam e discutem o que é melhor para determinado lugar ou o que poderia ser feito face a uma realidade menos boa.

Durante este fim-de-semana, o IN SITU pretende que “as ruas e praças icónicas de Macau se transformem numa tela viva para o design, diálogo e imaginação colectiva”, com as seis instalações que “irão ligar e activar espaços públicos icónicos”, transformando-os em “espaços para reunir, reflectir e interagir”.

Projectos locais e não só

A bienal foi oficialmente inaugurada ontem, mas só hoje abre portas com diversas actividades. As sessões arrancam às 10h30 com “Where Time Crystalizes”, no Pátio da Claridade, seguindo-se, a partir das 11h, uma actividade de “placemaking”, no mesmo local, intitulada “Time Crystal Lab”.

No caso desta instalação, é desenvolvida por uma equipa local, oriunda do programa de mestrado em Design de Comunicação da Faculdade de Humanidades e Artes da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau. Trata-se de um grupo composto por Lei Mei Ian, Wang Shumeng, Jiang Xintong e Xu Huiyao.

“Where Time Crystalizes” é uma instalação “composta por nove formas cristalinas espelhadas e um tapete ondulante que evoca um rio de tempo”, sendo que cada cristal contém fotografias, fragmentos de vídeo e objectos do quotidiano, recolhidos na documentação da autoria de Jason Lei sobre o bairro, ainda antes da saída dos moradores.

Além disso, nesta instalação, as partes exteriores “reflectem a rua actual e os transeuntes, enquanto os interiores encerrados convidam os espectadores a espreitar vestígios do passado”. Pretende-se, com esta obra, conduzir “os espectadores a sentir o fluxo do espaço e a sedimentação da memória”, promovendo “a reflexão sobre a transformação do Pátio da Claridade, de comunidade habitada a espaço vazio, reconsiderando a relação entre pessoas, lugar e tempo”.

Hoje à tarde, a partir das 15h30, apresenta-se “Multi-Place”, no Largo do Lilau, da autoria de Yik Sze Wong, de Hong Kong. Esta instalação apresenta-se como “uma experiência espacial em resposta à mudança urbana”.

“Como podemos questionar e renovar os modelos estabelecidos dos espaços públicos? E como podemos incentivar o público a participar mais activamente na construção e na prática desses espaços? Durante muito tempo, o planeamento e a distribuição dos espaços públicos foram predominantemente conduzidos por designers. No entanto, as cidades são organismos dinâmicos e em constante evolução”, descreve a organização da bienal.

Com “Multi-Place” propõe-se “explorar como os espaços públicos podem responder de forma eficaz às mudanças dinâmicas nas actividades urbanas e nas necessidades da sua utilização”, sendo que a instalação pretende servir “como um terreno experimental para explorar novas formas de espaços públicos, procurando utilizar modelos espaciais flexíveis para estimular a interação comunitária”.

Explorar o centro histórico

Amanhã, o dia da bienal começa também às 10h30, mas desta vez com a apresentação de “Resonatorium”, no Porto Interior, instalação da autoria de Lau Josephn On King e Lawrence Liu.

Tratando-se de uma equipa local, mas com ligações a Hong Kong, em “Resonatorium” a dupla resolveu inspirar-se “nos ecos e reverberações no interior das igrejas, bem como na imagem histórica da capela de madeira que outrora se erguia no local da Igreja de São Lourenço”.

Trata-se, assim, de uma obra que “constrói uma ressonância pertencente exclusivamente ao passado e ao presente do sítio”, sendo composta por módulos sonoros em madeira, “formando um espaço arquitectónico semi-aberto, no qual a própria estrutura se torna um corpo ressonante”. As sonoridades e a estrutura acarretam simbolismos ligados à Igreja de São Lourenço, o cais do Porto Interior, o bairro do Largo de Santo Agostinho, a Avenida de Almeida Ribeiro, sem esquecer “o futuro de Macau”.

A tarde de sábado fica reservada para uma instalação oriunda de Portugal, “UnPlan”, do atelier FAHR 021.3, criado por Filipa Frois Almeida e Hugo Reis. A partir das 15h30 pode ser visitada esta instalação temporária “concebida para oferecer uma nova perspectiva sobre o espaço público”, estando inserida “num tecido urbano denso, marcado pela circulação, vigilância e rotina”.

Desta forma, é uma “peça que introduz um momento de pausa, como um objecto simultaneamente familiar e estranhamente deslocado”, em que “em vez de prescrever comportamentos, propõe uma superfície aberta que convida a novas formas de planear, ocupar e imaginar”.

Domingo, é dia de explorar “Letters to Macau”, um projecto internacional da Chaal Chaal Agency (CCA), um colectivo de design e investigação fundado pelos arquitectos e investigadores Kruti Shah, da India, e Sebastián Trujillo-Torres, de Espanha.

Aqui pretende-se reinterpretar “o marco de correio tradicional da cidade como um dispositivo urbano de reflexão, correspondência e imaginação cívica”. Descreve a organização da bienal que “Letters to Macau” inspira-se “no vocabulário espacial estratificado de Macau, com portas lunares, pátios, becos e passagens de jardim, para criar uma estrutura simultaneamente familiar e reinventada”.

Desta forma, “os visitantes são convidados a escrever cartas dirigidas à cidade, partilhando memórias, desejos ou propostas de renovação”, sendo que “cada carta é depositada na estrutura, acumulando-se ao longo da Bienal e transformando gradualmente a instalação num arquivo cívico colectivo”.

Esta instalação foi construída a partir de dez painéis de contraplacado cortados por CNC, sendo a estrutura fabricada através de métodos simples e reversíveis, como o encaixe, a fixação e o empilhamento, que permitem uma montagem, desmontagem e reutilização rápidas. “Os seus planos interligados geram diferentes graus de abertura e de encerramento, enquadrando vistas longitudinais e transversais em resposta à verticalidade estreita do tecido urbano do Porto Interior”, descreve-se ainda.

Além das seis instalações centrais, esta bienal traz diversos eventos complementares. Hoje à tarde, entre as 16h e as 17h, decorre, na Ponte 9, o “Pressed Echoes of the Inner Harbour – Urban Flora Workshop”, sendo que entre as 18h e as 19h acontece, na praça Ponte e Horta, o “AAFK x Resonatorium Sound & Paint”. Amanhã, entre as 16h e as 17h, é tempo de acontecer o “Three Lamps of Inclusion: Culture Experience and Dialogue Workshop”, no Largo de Santo Agostinho, seguindo-se o evento “The City Breathes”, no Largo do Lilau. À noite, entre as 20h30 e as 21h20, é tempo de música e meditação com uma performance dos NÁV, no Largo de Santo Agostinho.

No domingo, tem lugar uma actividade de “placemaking” entre as 11h e as 12h no Largo do Aquino, intitulada “Love Me? Destroy Me!”, seguindo-se uma leitura colectiva em torno da instalação “Letters to Macau” entre as 16h e as 17h, na Travessa do Aterro Novo. A bienal termina com a actividade, entre as 18h e as 18h30, intitulada “Furniture Adoption”, no Largo do Aquino. O programa inclui ainda diversas visitas guiadas.

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