Lisboa | Casa de Macau é o último reduto da comida macaense

Com o encerramento do restaurante Patuá, os almoços quinzenais na Casa de Macau em Lisboa tornaram-se o último reduto da comida macaense na capital portuguesa. No dia da visita do HM, o almoço foi Porco Bafassá cozinhado por Maria João Ferreira. Entre sócios e amigos há quem sonhe transformar o espaço numa espécie de restaurante

Ao abrir a porta na casa cor-de-rosa na Avenida Almirante Gago Coutinho, em Lisboa, o cheiro emana da cozinha onde todos ajudam por amor à camisola. Tem sido assim todas as quartas-feiras, a cada quinze dias, na Casa de Macau em Lisboa, lugar que passou a ser o único a servir comida verdadeiramente macaense desde que o restaurante Patuá, também em Lisboa, fechou portas. O Patuá serve ainda refeições temporariamente, mas apenas até à próxima segunda-feira, numa parceria com o bar, restaurante e sala de espectáculos Damas, numa acção intitulada “Patuá Takeover”.

No dia em que o HM almoçou na Casa de Macau, o menu foi Porco Bafassá e rolinhos de massa de arroz com camarão para entrada. Pelo meio-dia a azáfama na cozinha já era muita, e apesar de a cozinheira ter sido Maria João Ferreira, membro da direcção da Casa, muitos braços ajudaram.

“Não posso dizer quem me ensinou esta receita, porque é um prato feito com muita frequência nas casas macaenses. Provavelmente aprendi em Macau com a empregada chinesa que estava em nossa casa. Sempre gostei muito de cozinhar, de maneira que a pouco e pouco comecei a fazer em minha casa.”

Há muito que a Casa de Macau tenta promover a gastronomia macaense. Não apenas com almoços com minchi aos sábados, como na organização de almoços semanais que contavam com a chef Justina do Rosário. A sua saída levou a direcção a decidir manter a iniciativa, para não perderem “projecção”.

“A Justina foi-se embora por questões de saúde e tivemos uma quebra bastante grande. Para o assunto não morrer, decidimos, em reunião de direcção, organizar os almoços quinzenalmente e não semanalmente, como fazíamos com a Justina. Tentamos respeitar as receitas macaenses.”

A Casa de Macau conseguiu aumentar o número de sócios no mandato de Carlos Piteira, de 180 para cerca de 400. “Não se pode dizer que temos um lucro grande, mas para nós é sempre positivo e temos alguma projecção.” Maria João Ferreira entende que “faz falta comida macaense” em Portugal. “Não há. Quando muito, há restaurantes a fazer minchi, mas não passa disso.”

Transformar a iniciativa quinzenal da Casa de Macau numa espécie de restaurante, com apoios, “seria excelente”, confessa. “Acho que todos nós desejaríamos isso, mas não sei até que ponto se poderá concretizar, não sei se a RAEM tem interesse em financiar uma iniciativa dessas. Mas seria fantástico, é um sonho de todos nós. Gostaríamos imenso de ter um restaurante em casa de Macau.”

“Conheci-os no Instagram”

Pelas mesas a azáfama é muita e, pelo meio de sócios e rostos habituais da casa, há quem tenha ido almoçar para descobrir os sabores desta gastronomia de fusão. É o caso de Pedro Carneiro, que gosta de explorar o que de novo existe em Lisboa, em termos culturais. “Sempre fui interessado na cultura macaense e tenho família que vive em Macau, e quis experimentar. Já tinha algumas referências da comida macaense. Tinha alguma curiosidade para ver como é feita cá, e o tipo de eventos que se fazem.”

Naquele dia, mostrou mesmo interesse em fazer-se sócio da Casa. Sendo conhecedor do restaurante Patuá, considera “fundamental” a existência destes espaços. “Há vários espaços associativos ou de restauração que estão a fechar, por diferentes razões, o que significa que qualquer comunidade ou espaço que organize eventos que permitem às comunidades estarem próximas umas das outras, é fundamental.” “Sempre fui interessado por comidas crioulas, que juntam várias culturas. É sempre engraçado ver como as técnicas, ou os ingredientes portugueses, são confeccionados de maneira híbrida com ingredientes asiáticos”, destacou.

Também Gonçalo Lamy, de 19 anos, quis ir provar o Porco Bafassá e levou consigo dois amigos. O estudante da Universidade Nova de Lisboa viajou até Macau há dois anos graças a uma parceria entre a sua escola secundária e a Escola Secundária Luís Gonzaga Gomes. “Gostei muito de Macau e quis experimentar estes almoços. Conheci-os no Instagram, comecei a seguir. Achei um ambiente bastante familiar e fomos muito bem-recebidos. É engraçado ver as pessoas a encontrarem-se aqui”, destacou.

A voz da tradição

Na televisão vê-se a TDM, o canal chinês. Pelos corredores, trocam-se dois dedos de conversa enquanto o almoço não está na mesa. No dia da reportagem, o jornalista português Ricardo Dias Felner, autor do podcast “O Homem que Comia Tudo”, e cronista do semanário Expresso, também se encontrava à mesa para descobrir aquele lugar de comida macaense genuína.

Disso percebe Manuel Fernandes Rodrigues, macaense de gema e autor de diversos estudos sobre a gastronomia da sua comunidade. Sócio e participante habitual das actividades da Casa de Macau, os almoços quinzenais servem para matar saudades.

“Em Lisboa não há restaurantes que façam comida macaense, e a Casa de Macau é o único sítio que conheço que faz comida genuína”, contou.

“A Casa de Macau já teve workshops semanais de gastronomia. É difícil manter um restaurante por uma razão muito simples: como se vão arranjar cozinheiros? A população de Macau que reside em Portugal tem uma idade avançada e as novas gerações não se interessam tanto por esta profissão. Ser cozinheiro já não é um modo de vida.”

Manuel Fernandes Rodrigues conhece as histórias que vivem no meio de sabores de cada prato. Explica-nos que a comida macaense tem origem em Malaca, que os portugueses conquistaram em 1511 e por onde passou grande parte do comércio feito na Ásia.

Questionado sobre se as autoridades de Macau deveriam apoiar este projecto gastronómico quinzenal, para que se sirvam refeições de forma mais frequente, Manuel Fernandes Rodrigues diz que seria importante tal acontecer. “Pessoalmente, acho que sim [que deveria haver apoios]. Mas as autoridades de Macau têm as suas prioridades, e não sei se o projecto da comida de Macau está nessas prioridades. Na minha óptica, deveria estar.”

O macaense entende que se deve apostar na divulgação que explicasse devidamente “o que é a comida macaense, porque não se resume apenas a receitas”. “Há muito mais, como a história dos macaenses, que têm a sua maneira de ser, e por detrás de cada receita está isso tudo.”

O almoço, acompanhado com xarope de figo, fechou com gelatina de agar-agar com chocolate. “Em Macau há dois tipos de gelatina de chocolate. A versão chinesa é menos rica, porque só leva o chocolate diluído em agar-agar, e esta leva leite normal ou leite condensado, portanto, tem mais doce”, explica Maria João Ferreira.

Miguel de Senna Fernandes, presidente da Associação dos Macaenses, também almoçou pela Casa de Macau. Ao HM, fala das dificuldades que é apoiar financeiramente estes projectos que vivem de acções voluntárias, mas que expandir os almoços quinzenais para um projecto mais regular seria importante.

“Não são fáceis os financiamentos. Mesmo em Macau os financiamentos passam por um escrutínio mais rigoroso. Desde que as instituições ligadas a Macau tenham condições de estudar possibilidades de subsidiar este ou aquele projecto, porque não? Nos tempos em que nos encontramos, a boa vontade tem um preço. As coisas custam dinheiro, o tempo que se dá a isto tem o seu preço, e é fundamental que se criem condições para este projecto seja uma realidade. Caso contrário, é mais uma coisa que acaba.”

Miguel de Senna Fernandes “lamenta” que o restaurante Patuá tenha fechado, assumindo que fazem falta espaços que mantenham a gastronomia macaense na comunidade. “A gastronomia macaense mantem-se nas casas. Há muitos macaenses que estão em Lisboa e seguem a sua própria comida com muito orgulho. É fundamental que se continue a pensar em termos comunitários. A Casa de Macau, por si só, não consegue fazer tudo, e é preciso boa vontade das pessoas”, concluiu.

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