Literatura | Sérgio Raimundo escreve em Macau sobre piratas chineses

Sérgio Raimundo, escritor moçambicano, vai estar no território durante um mês para escrever sobre a deportação de piratas chineses para Moçambique em 1910. Trata-se de um projecto desenvolvido no âmbito da terceira edição do Programa de Apoio a Residências de Criação Literária do Instituto Internacional da Língua Portuguesa

O escritor moçambicano Sérgio Raimundo está a realizar uma residência em Macau para preparar um livro de ficção cujo enredo parte da deportação, em 1910, de piratas chineses para o norte de Moçambique.

Em Julho de 1910, forças portuguesas atacaram a ilha de Coloane e libertaram dezenas de crianças que tinham sido raptadas por piratas de uma tríade chinesa. Oito cabecilhas foram depois condenados a 28 anos de degredo em Moçambique.

Os piratas foram deportados para a ilha de Ibo, no arquipélago das Quirimbas, para cumprirem “penas de trabalhos forçados longe das suas redes de influência”, explicou à Lusa Raimundo, que vive em Portugal desde 2020.

O escritor estará em Macau durante um mês, após ter sido um dos quatro seleccionados da terceira edição do Programa de Apoio a Residências de Criação Literária do Instituto Internacional da Língua Portuguesa.

“Eu parto de um personagem que é o principal nesse livro, que é um descendente desses piratas, mas nascido em Moçambique e que decide sair para Macau em busca das suas outras raízes”, disse Raimundo.

Coloane como pretexto

Mas o também professor, jornalista e cronista sublinhou que “não vai ser um livro histórico”, mas sim usar o episódio de Coloane “como pretexto para desenvolver vários outros assuntos”, incluindo a natureza do poder.

“Ainda vivemos uma espécie de uma madrugada colonial, ainda nos falta um amanhecer nosso, porque a estrutura de poder que temos é uma estrutura colonial”, disse o autor do livro “O colono preto saiu do guarda-fato”.

Raimundo publicou em 2023 “As ancas do camarada chefe”, um conjunto de crónicas que lhe valeram ameaças, sobretudo devido ao termo “camarada chefe”, usado para identificar as lideranças do partido no poder (Frelimo).

As palavras do escritor também foram utilizadas, como palavras de ordem, durante os protestos da juventude que se seguiram à morte em 2023 do ‘rapper’ Azagaia, um cantor de intervenção social.

Raimundo compara a deportação de piratas de Macau com o envio de “pessoas totalmente despreparadas, que só fizeram seis, sete meses de tropa” para combater a actual insurgência armada na província de Cabo Delgado.

Cabo Delgado (norte), rica em gás natural, enfrenta desde 2017 ataques de grupos associados ao Estado Islâmico, que provocaram mais de 6.600 mortos e 1,2 milhões de deslocados, segundo organizações internacionais.

Identidade ao barulho

Outro tema do livro será a identidade, uma questão que “todos os países falantes de português em África andam a discutir muito a questão” e algo que Raimundo já tinha abordado no romance “A Ilha dos Mulatos”.

A obra recebeu em 2019 o Prémio Literário da Imprensa Nacional Casa da Moeda Moçambique / Eugénio Lisboa, um galardão que visa homenagear o escritor moçambicano que lhe dá o nome. “Parece-me que estamos a voltar a um discurso que nos torna mais fechado, esta questão de pensar que é moçambicano quem tem uma cor da pele um pouco mais escura”, lamentou Raimundo, de 34 anos.

“Não é bem assim. Até a própria luta de libertação em Moçambique nos mostra o inverso. Tivemos dentro das fileiras dos nossos combatentes pessoas que eram de origem portuguesa”, recordou o escritor.

Esta é uma questão sem “respostas imediatas”, defende Raimundo, “principalmente num país como Moçambique e ainda mais num continente como África, onde não existe uma única identidade, são identidades”.

Subscrever
Notifique-me de
guest
0 Comentários
Mais Antigo
Mais Recente Mais Votado