VozesDe novo o nevoeiro Duarte Drumond Braga - 29 Jul 2026 Pedro Eiras escreve, desde há algum tempo, livros que dão corpo à fronteira entre a investigação e a literatura. Nesses trabalhos, não se trata de fazer da obra alheia obra sua, mas mais de assumir as vozes alheias que constituem a obra própria, algo que já se notava em «Cartas Reencontradas de Fernando Pessoa a Mário de Sá-Carneiro» (2016), a ficção do achado, no Hotel de Nice, das cartas que Pessoa teria enviado a Sá-Carneiro entre julho de 1915 e abril de 1916, reconstituindo o lado em falta da correspondência. É o antecedente direto deste recente romance «Nevoeiro», editado pela Assírio & Alvim, título retirado de um dos poemas centrais de «Mensagem». De facto, o que aqui está em jogo é todo o nevoeiro (e não floresta) de enganos em torno da premiação desse livro de poesia nacionalista, projeto que Pessoa desde jovem acarinhava: esperanças, desilusões e mal-entendidos. O romance de Eiras — que, como declaradamente assume, investiga as relações entre o poder e a escrita («Decidi descrever um livro para investigar as relações entre a escrita e o poder», p. 25) — é ao mesmo tempo, enquanto peça crítica que também é, uma espécie de síntese de um processo simultâneo de atração e repulsa triangular entre três figuras da história de Portugal e os textos que estas produziram: Pessoa, Salazar e António Ferro. Por outro lado, ele inscreve-se naturalmente nos estudos pessoanos mais recentes: é não só informado e enformado por eles, mas é também parte deles, por também ser um ensaio ou, melhor dizendo, uma «investigação pessoana» — significativamente o subtítulo da obra. Recorde-se que, logo após a publicação de «Mensagem», e depois de não ter comparecido à entrega do prémio Antero de Quental que ganhou, ainda que em segundo lugar, Pessoa veio a lume – em 1935, último ano em que vive – em defesa da Maçonaria contra a proposta de lei do deputado ultramontano José Cabral, num artigo que fez esgotar o periódico e tornou o poeta subitamente famoso. Este é trabalhado por Eiras como um dos episódios desta narrativa, sendo no fundo o que mobiliza a própria relação de Pessoa e do seu livro de versos com textos-satélite em prosa e em verso, também do último ano, — o poema «Liberdade» e o artigo «Associações Secretas» —, e a ligação de tudo isto com Salazar e Ferro, que são aqui também escritores, produtores de ideologia e de escrita. O romance constrói-se, assim, pela via entreaberta que é o vazio dos textos, e que está entre os textos e os casos, os não-ditos. Leva mais longe o experimentalismo face às «Cartas Reencontradas», no sentido de uma mestiçagem genológica e de modos discursivos mais radical: é uma crítica que é um romance, um romance que é uma crítica. O livro faz várias coisas ao mesmo tempo, que se vão interpolando em capítulos: diário de um livro — da escrita de um livro —, cenas de um romance, considerações sobre uma investigação que são, elas próprias, a investigação. Como se a ideia fosse verificar se há algum livro – este livro – que resista, enquanto objeto simultaneamente estético e crítico, a essa visibilidade extrema de ter expostos inteiramente os pespontos da sua composição. Ora, isso é também, por outro lado, uma forma de ficcionalização, isto é: essa visibilidade, essa abertura é, ela própria, ficcionada. «Nevoeiro» é tudo isso em simultâneo: um livro e o seu próprio desdobramento num metalivro, mostrando como, quer na literatura quer no gesto crítico, a literatura se aponta a si mesma. Ao mimetizar discursos, falas, diálogos ou pensamentos de Pessoa, Salazar e Ferro, o romance heteronímico de Eiras como que heteronimiza tudo. Todos estes devem heterónimos desta escrita, sobretudo se lembrarmos o sentido lourenciano da heteronímia, que seria essencialmente os textos: os outros textos, ou os textos outros. Ao tratar aquelas três figuras em pé de igualdade formal, como vozes textualizadas, independentemente do seu estatuto histórico ou literário, Eiras produz um gesto que cruza radicalmente o político e o poético — reforçando a ideia de que Salazar e Ferro, aqui, são também escritores, sujeitos produtores e não apenas objetos de análise. Por outro lado, Pessoa não é apenas o poeta, mas também um político e um doutrinador, que entra em cena com «Mensagem», mas também com o altamente polémico artigo «Associações Secretas», publicado no Diário de Lisboa a 4 de fevereiro de 1935, com o qual logrou exibir, logo após a publicação do seu único livro autoral, o seu afastamento do regime. Contudo – e isto é muito importante –, não se trata de pós-modernamente mostrar que todas as posições são válidas, que tanto faz ser e escrever Salazar como ser e escrever Pessoa: Eiras toma partido claro por um dos lados dessa tríade, e em grande medida são os capítulos nos quais fala o autor-professor que afirmam essa tomada de posição. É certo que, em toda esta leitura, Eiras está a ler o passado com os olhos do presente — como aliás diz expressamente —, e não há nada de errado com isso, até porque outra coisa não seria possível: só temos os olhos do presente, nada mais. E o nosso presente é fascista, parece ser essa uma das principais mensagens do livro, desse modo duplicando o passado de há quase cem anos, também ele fascista. Diferentemente das «Cartas Reencontradas», há então aqui uma evidente posição política antifascista e mesmo descolonial — que envolve figuras do passado para falar do presente — e é essa a novidade mais evidente deste livro. Na verdade, o nevoeiro, que o leitor encontra no primeiro capítulo a tomar conta do país, a cobrir e a apagar os contornos de tudo, e que pode representar um Estado Novo ainda incipiente a começar a açambarcar o país, diluindo os seus contornos mentais, está talvez a reaparecer. Desta vez provavelmente não vai começar por lentamente lamber o Cais das Colunas, mas poderá entrar por outras portadas para de novo ressurgir e apagar, com a sua borracha, os contornos do que julgávamos seguro e definido.