VozesCamilo Castelo Branco, um necrófilo contemplativo Duarte Drumond Braga - 7 Jul 2026 Há quem diga que Camilo era necrófilo. O médico Egas Moniz, nobelizado criador da trepanação, consagrou-lhe uma peça de nosografia literária em 1925, A Necrofilia de Camilo Castelo Branco, numa altura em que os médicos se interessavam por estas coisas. E nosografias houve várias: de Camilo, de Eça, de Pessoa, seguindo a tradição do génio como forma de loucura. Há, de facto, contos sobre desenterramentos noturnos e caveiras guardadas em casa, que geraram um anedotário gótico em torno do autor de São Miguel de Seide. O conto Impressão Indelével foi publicado em 1842, quando Camilo tinha dezasseis ou dezassete anos e escrevia para o jornal Aurora do Lima, é uma carta a um amigo chamado Barbosa. O narrador conta que se apaixonou por uma rapariga tísica em Trás-os-Montes, a Maria do Adro. Foi para o Porto estudar, voltou, soube que ela morrera. O cunhado convida-o para uma exumação, por razões inexplicadas. O narrador foi, viu o cadáver, ficou doente. A história, como se vê, é quase nenhuma. O que há é a questão do que fica na mente depois de ver o que não se costuma ver e o modo como isso se transforma em escrita. «Sem presente, e frio às comoções do provir aquém da campa, o meu ser, a faculdade única, o órgão único da minha vitalidade é a memória», diz o narrador. A necrofilia que aqui se pratica não é a de Fialho de Almeida, que no seu conto A Ruiva (1881) pinta o desvirginamento de uma jovem morta por um coveiro mais atrevido. Em Camilo, é a mente como câmara escura, chapa de daguerreótipo à espera da imagem, laboratório da escrita, que interessa. E a imagem só pode ser a da amada morta que é bela e incorrupta como um texto O recém-cadáver, desenterrado por um alter ego de Camilo, guarda as feições de uma imagem, como as fotografias de mortos vitorianos. O daguerreótipo, com efeito, tinha sido inventado pouco antes, e nos anos quarenta do século XIX já não era novidade. Camilo sabia-o e concebe a própria escrita como revelação fotográfica: há que primeiro limar, delir a crusta dos sentimentos para, a frio, deixar tresluzir a imagem. A escrita é, assim, o próprio processo de revelação. Por isso tem o corpo de estar incorrupto — a decomposição seria como uma chapa velha, uma impressão falhada, uma memória que o tempo já comeu. Egas Moniz, em Camilo necrófilo, não percebeu que o autor estava a deixar passar uma teoria da literatura como prática necrófila. A necrofilia de Camilo é contemplativa, e é a única que a literatura admite: o amor pelo corpo imóvel, pela imagem fixada, pela impressão que o tempo não apagou. Quando abrimos um livro, começamos a afastar aquela areia solta dos cemitérios, escura e cheia de cacos e de restos de flores, que ainda não grudou bem à cara morta das nossas imagens. A literatura é o único ato necrófilo a que Camilo se permite — e que nos permite. Em tudo isto falarei mais e melhor no belo volume do Colóquio de Outono, sobre Camilo, que o Centro de Estudos Humanísticos da Universidade do Minho se prepara para lançar, organizado por Sérgio Sousa, da UM, e Ana Ribeiro, da UMINHO.