A oração de Su Xun diante de uma pintura

Su Shi (1037-1101), o irrequieto poeta da dinastia Song que caracterizaria a sua acidentada existência, semelhante a «um mero insecto flutuando na vastidão do Universo», em sucessivos ideais. Que, na liberdade da juventude o aproximavam do desprendimento daoísta, na clareza do meio da vida, do cumprimento do dever confuciano e na idade avançada o reconciliavam com a serenidade do desapego budista.

Segundo o seu pai Su Xun (1009-1066), devia toda essa agradecida intensidade vital a uma oração proferida diante de uma pintura. Como conta num texto escrito numa pedra e de que existe um esfregaço a tinta sobre papel no Museu de Arte de Princeton (rolo vertical, 74 x 33,2 cm) no décimo quinto dia do primeiro mês lunar do ano 1030, dirigiu-se ao mosteiro Yuju guan, a Norte de Chengdu (Sichuan) «trazendo uma oferta para parar uma dificuldade de ter filhos». Foi lá que viu «um retrato pintado com elegância e um especial trabalho de pincel representando o imortal Zhang xian», do qual se dizia que as orações realizadas diante dele seriam atendidas.

Logo ofereceu por ele um huang de jade, um artefacto em forma de anel usado pendente à cinta e que quando a pessoa que o usava se movimentava, produzia um agradável tilintar. A prece foi ouvida.

O retrato, que também faz parte do esfregaço, mostra a personagem do folclore daoísta, famosa por disparar o seu arco contra o negro «cão do céu» tiangou, que figura no Clássico dos mares e das montanhas, Shanhai jing, como uma força que, quando negativa, era capaz de comer o sol ou a lua causando eclipses e atemorizando crianças. Está sentado sobre uma rocha à maneira das personalidades budistas, só um pé tocando o chão, as vestes de mares e nuvens de um poderoso. À sua volta crianças; à direita uma, segura um ceptro ruyi, dois acocorados parecem brincar com o sapo de três pernas, o jinchan, o quarto segura um prato com pedrinhas redondas de que o quinto, de pé junto de uma árvore, segura uma na mão direita, na outra o arco de Zhang xian; no céu esvoaça o tiangou. Figuras de crianças tornaram-se muito populares nessa dinastia Song mas nunca deixariam de o ser.

Xia Kui (act. c. 1405-45) na dinastia Ming, faria uma inesperada inversão do auspicioso tema dos «cem meninos» que é preciso proteger, mostrando-os como se foram adultos. Mas no tempo de Su Shi, como escreveu num empolgante poema que compôs no meio da vida quando era governador em Mizhou (1074-76), parecia mais importante a protecção dos outros. Aí também refere um arco e um cão, o tianlang xin, «a estrela do cão celeste», o astro sirius que é o luzeiro mais brilhante no céu nocturno, entendido como um sinal de aviso à possibilidade de invasão pelas tribos do Norte. O poeta promete: «Assestarei o meu arco lavrado até à forma da lua cheia, farei pontaria ao Noroeste e acertarei na estrela tianlang.»

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