Futebol |Selecção feminina de Macau com toque português

Sara Kei Fonseca é barbeira de profissão e Ana Sofia da Silva trabalha em ‘design’, mas estas duas portuguesas têm algo em comum: lideram a nova geração de jogadoras de futebol de Macau.

Sara Kei jogou pela selecção de futebol feminino de Macau desde o primeiro jogo oficial da equipa, em 2014, uma derrota por 11 bolas a zero contra a ilha de Guam e lembra-se bem do dia em que ela e as companheiras conseguiram a primeira internacionalização.

“Foi um jogo muito difícil. Éramos todas novas no futebol de 11. Eu tinha acabado de chegar de Portugal, onde só jogava futsal. Senti-me super perdida em campo, também não me senti preparada fisicamente, lembro-me bem de estar a jogar, mas assim que olho para o relógio só tinham passado 10 minutos”, descreve à Lusa. “Tive que abrandar o ritmo para conseguir acabar a primeira parte. Não me recordo muito, mas sei que essa viagem foi uma ‘wake-up call’ para melhorar o meu cardio”.

Barbeira de profissão, portuguesa residente de Macau, e camisola 10 da selecção, Sara Kei é agora uma das figuras de renome do futebol feminino local. No entanto, tem ainda por viver uma vitória ou até a felicidade de marcar um golo pela equipa da cidade semiautónoma, actual 175.ª no ranking da FIFA. A meio-campista portuguesa espera conseguir marcar pela selecção de Macau um dia, algo que, se acontecer, “será um momento de muito orgulho”.

“É sempre um privilégio jogar pela selecção. É uma oportunidade única, tento sempre dar o meu máximo”, acrescenta. Sara Kei capitaneou a Associação Desportiva e Recreativa Académica de Macau (ADRAM) na conquista do primeiro campeonato feminino de futebol de 11 no território, realizado apenas no ano passado.

Apesar da ausência de jogadores portugueses na selecção masculina de futebol de Macau, as jogadoras portuguesas continuam a ser peças importantes da selecção feminina de futebol da cidade chinesa semi-autónoma.

A FIFA proibiu em 2024 os jogadores das selecções do território sem passaporte de Macau – apenas atribuído a cidadãos chineses com estatuto de residente permanente – de representarem o território. No entanto, algumas jogadoras que possuem passaporte de Macau e Portugal continuam a contribuir para uma selecção que só começou a competir em jogos oficiais há 12 anos.

Jogo limitado

Ana Sofia da Silva, colega de equipa e de selecção de Sara Kei, admite que Macau tem “limitações, quer em termos de infraestruturas, como poucos campos de futebol, quer em termos de jogadoras”. Portuguesa nascida e criada em Macau, saiu do território no ano da transferência de soberania para a China, em 1999, e voltou em 2009, passando a jogar pela selecção em 2015.

“Quando tinha à volta de 13 anos”, lembra-se, um grupo de amigos do Colégio D. Bosco criou uma equipa feminina para competir no campeonato escolar. E assim começou. “Foi engraçado. Éramos todas de idades diferentes e costumávamos perder contra todas as outras equipas. No último ano, o nome da nossa equipa era ‘Perder é connosco’, mas nesse ano conseguimos alcançar o 3.º lugar no campeonato escolar. Ficámos tão felizes e orgulhosas de nós próprias”, contou.

Tirando os 10 anos que esteve fora, Sofia jogou sempre. Ou quase. “Parei duas vezes, quando dei à luz a minha filha e o meu filho, mas consegui sempre regressar e voltar a jogar pela equipa”, diz. Em 2015 chegou à selecção. O futebol feminino em Macau tem pouca visibilidade e é “incomparável com o de outros países”, admite a defesa central.

“O território é pequeno, há poucos campos disponíveis para treinos, e no período em que decorre a primeira e segunda ligas de futebol masculino, os campos existentes sofrem bastante desgaste”, justifica a “designer”. Talvez um bom investimento, sugere, fosse a conversão de um ou dois dos campos de relva natural em relva sintética, o que permitiria maior uso.

É que as jogadoras “são todas amadoras” e vêem o futebol “como um hobby”, diz, mas o problema não está no facto de todas serem trabalhadoras ou estudantes ou do futebol surgir apenas ao fim do dia e ao fim de semana. A questão é que isto também só acontece “quando possível e/ou há disponibilidade de campos”. Por isso também, “o calendário de treinos varia mensalmente e só é partilhado no fim de cada mês, o que acrescenta mais dificuldades na conciliação de agendas”, descreve.

Não obstante tudo isto, Sofia destaca o desempenho de uma equipa muito jovem, mas “em progressão”. “O futebol feminino começa a ganhar mais presença e visibilidade em Macau, que esperamos venha a traduzir-se em mais interesse neste desporto e na captação de novos talentos”, diz.

Sem frutos

A realização do primeiro torneio escolar de futebol feminino de futsal e um maior investimento na formação de quadros locais de futebol são também razões de esperança, assinala.

Por outro lado, a selecção treinou em campos nas províncias chinesas de Hainão e Liaoning, participou nos recentes jogos nacionais da China e contratou treinadores profissionais. “Como a que temos actualmente, Meng Jun, nossa seleccionadora, ex-jogadora da seleção nacional da China”, aponta.

Mas os frutos não sucedem às sementes. A selecção compete pouco. Macau não participou em jogos internacionais entre 2019 e 2023, devido à pandemia da covid-19, e fez o último jogo amigável com Singapura em 2024. Há dias viajou para o Butão para dois jogos amigáveis.

Perdeu por 2-0 o primeiro jogo, contra a equipa da Royal Thimphu College, uma faculdade privada; e por 7-0 da selecção no Butão no jogo seguinte. “Nove das jogadoras seleccionadas eram sub-17, a Sofia e eu fomos as únicas representantes da formação sénior, com o objectivo de orientar e incentivar as mais novas”, conta Sara.

Sofia descreve dois jogos desafiantes, a uma altitude de mais de 2.000 metros, com oxigenação sanguínea reduzida, fadiga rápida, dor de cabeça e falta de ar, com o “aquecimento debaixo de chuva e com temperaturas abaixo dos 10°C”. O facto, no entanto, é que “o nível das equipas adversárias era muito superior” ao da sua equipa, reconhece Sofia.

O Butão tem uma liga de futebol feminina, que decorre durante seis meses por ano. Macau tem mulheres jovens que jogam futebol e treinam “quando há campo”.

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