Um Grito no Deserto Vozes22% ao abandono Paul Chan Wai Chi - 10 Abr 2026 Este ano, o Dia de Cheng Ming (Dia de Finados) e o Domingo de Páscoa calharam na mesma altura, por isso muitos residentes de Macau aproveitaram os feriados consecutivos para irem para fora, enquanto muitos turistas chegavam à cidade. Como é lógico, a actividade comercial em Macau durante este período deveria ser mais intensa do que em dias normais. Ao fim da tarde do dia que se seguiu ao Domingo de Páscoa, que também era feriado, fui a um restaurante chinês perto da Praça Flor de Lodão, na Zona de Aterros do Porto Exterior (ZAPE) com alguns amigos e reparei que o restaurante tinha menos clientes do que seria esperado. Nos restaurantes circundantes a situação era semelhante, chegando a ser fácil encontrar lugar para estacionar os carros. No tempo em que os casinos-satélite estavam abertos os comerciantes desta zona enfrentavam muito menos dificuldades. Por acaso, vi uma reportagem na televisão sobre a situação do comércio na ZAPE. O Governo da RAEM está a estudar uma forma de implementar medidas para apoiar e subsidiar os lojistas de certos bairros comunitários e para tentar transformar sua abordagem comercial, planeando introduzir e promover a instalação de esplanadas como ponto de partida. As autoridades responsáveis já avançaram com alguns projectos turísticos na ZAPE para mitigar os impactos negativos do encerramento dos casinos-satélite no comércio da zona que tiveram resultados positivos consideráveis. No entanto, segundo os proprietários de restaurantes locais, após a conclusão dos projectos para atrair turistas e locais, os seus negócios voltaram a regredir, contando quase exclusivamente com a clientela habitual que frequenta os restaurantes ocasionalmente. Mesmo com a oferta de bebidas e de petiscos não conseguiram ser atractivos, porque muitos dos jogadores deixaram de considerar a ZAPE como um destino a visitar. Os donos dos estabelecimentos da ZAPE acreditam que a iniciativa do Governo da RAEM para introduzir esplanadas permitirá pelo menos colocar mais mesas em redor dos restaurantes, o que pode aumentar o fluxo de pessoas e melhorar a situação actual, evitando ao mesmo tempo que a ZAPE pareça tão deserta. Além disso, o responsável de uma associação situada nesta zona declarou que das cerca de 580 lojas locais, 22% fecharam. Também afirmou que as esplanadas terão de ter características especiais e que a forma de as rentabilizar irá depender do apoio aos restaurantes no seu todo. 22% de lojas ao abandono é uma quantidade significativa, que eu testemunhei pessoalmente. Mencionei previamente que o Governo da RAEM teria de ser cuidadoso nos ajustes feitos ao sector do jogo de Macau, porque a reestruturação “1+4” dos sectores económicos ainda está em curso, e actualmente a economia de Macau é dominada pelas áreas do jogo e do turismo. Com um poder de consumo limitado e perante a competição da área da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau, as pessoas de Macau foram-se acostumando progressivamente a comprar, a abastecer o carro e a morar em Zhuhai, na Grande Baía, aumentando assim a pressão e os desafios dos sectores comerciais de Macau. Os casinos- satélite foram um problema decorrente da liberalização do sector do jogo. Embora gerassem menos receitas para o Governo da RAEM, mantinham desde há muito uma relação simbiótica com os negociantes das proximidades. Por isso, desde que não continuassem a aumentar, a sua gradual transformação, que, a seu tempo, levaria à extinção teria sido a melhor abordagem, muito melhor do que esta mudança drástica que foi “dolorosamente rápida”. Na varanda de minha casa, crescem muitas vezes ervas daninhas nos vasos das plantas. Quando a minha mulher pede para as tirar, insiste que tenho de “cortá-las rentes” em vez de “arrancá-las”. Para mim, arrancá-las garantiria a sua completa remoção; de outra forma, voltariam a crescer. No entanto, a minha mulher afirma que se as arrancar também vou danificar as raízes das nossas plantas. Se o crescimento das ervas daninhas for controlado, não há necessidade de optar pela técnica da “destruição mútua”. Nos anos que se seguiram à fundação da República Popular da China, houve uma campanha nacional para a eliminação dos pardais, que eram considerados transmissores de doenças. No entanto, a eliminação em larga escala dos pardais levou ironicamente ao aumento drástico de outras doenças, que acabou por conduzir ao fim da campanha. As leis da natureza são realmente maravilhosas, e as lições que aprendemos no nosso quotidiano e com a nossa História ilustram o que acabámos de dizer. Existem muito modelos que vale a pena considerar para melhorar os negócios da ZAPE, como a rua Sanlitun, em Pequim, Lan Kwai Fong em Hong Kong e os antigos bares de rua da Zona Nova de Aterros do Porto Exterior (NAPE). Sugiro um modelo comercial que combine esplanadas com espectáculos de rua gratuitos, que funcionem desde o pôr do sol até às 22 h, sem perturbar a vida dos residentes, mas que tragam animação e entretenimento à ZAPE. Esta será uma das opções viáveis? E por fim, os 22% de lojas ao abandono passará a ser coisa do passado ou o início de uma nova fase.