Macau Visto de Hong Kong VozesAs mil maneiras de celebrar o amor (II) David Chan - 31 Mar 2026 A semana passada, falámos sobre as origens do Dia Branco de São Valentim no Japão. Ninguém estava à espera que a promoção de uma confeitaria, incentivando os homens a oferecerem no dia 14 de Março algodão doce às suas amadas — como forma de retribuir os chocolates que receberam no Dia de São Valentim (14 de Fevereiro) — se viesse a tornar o “Dia do Algodão Doce” e posteriormente o “Dia Branco de São Valentim”, que presentemente continua a trazer doçura e afecto aos namorados. Gostaria agora de partilhar com os nossos leitores quatro histórias relacionadas com o Dia Branco de São Valentim. A primeira vem do Texas, EUA. Uma jovem de 21 anos soube que o namorado, que estava numa missão militar, ia fazer uma escala de meia hora no Aeroporto de Dalas e que não podia sair da área restrita. Gastou 70 dólares americanos (cerca de 560 patacas) em transportes e passou pela segurança, só para estarem juntos por 30 minutos antes de ele partir. Este acto é uma demonstração da devoção mais sincera numa relação apaixonada —nem o tempo nem a distância são mais fortes que o amor. A segunda passou-se em Taiwan, na China. No Dia Branco de São Valentim, o músico Koo Chun-yeop disse que amor é cozinhar para a pessoa que se ama. Recentemente, quando a sua mulher Barbie Hsu (Da S) esteve adoentada, ficou em casa para tratar dela. Para ele, o significado mais profundo deste dia é celebrar quem nos dá abrigo durante as tempestades da vida, certificando-se que comemos e dormimos bem. Uma simples refeição caseira, um terno momento de companheirismo—são estas as mais raras formas de romance do mundo inteiro. A terceira história de amor vem de Taiwan, na China. Este ano, no Dia Branco de São Valentim, 36 casais que celebraram as bodas de ouro e de diamante, partilharam os segredos das suas relações. Aos seus olhos, o amor duradouro não vive de grandes gestos, mas sim de compreensão mútua e de tolerância no dia a dia, criar pequenas surpresas para o outro é a chave de uma relação que resiste ao teste do tempo. A quarta história de amor é ainda mais merecedora de ser partilhada. Linda, de 78 anos, e Michael, de 77, estão casados há 39 anos. No passado dia 10 de Janeiro, realizaram uma segunda cerimónia de casamento, celebrada pela filha de Michael. O motivo da confirmação da união é profundamente comovedor: Michael, que sofre de Alzheimer, foi gradualmente esquecendo-se de muitas pessoas e de muitas coisas, chegando a não reconhecer a esposa. No entanto, certo dia, pegou-lhe ternamente na mão e voltou a fazer a mesma pergunta de há trinta e muitos anos: “Casas comigo?” Linda respondeu sem hesitar, “Sim.” Linda e Michael casaram-se em 1987. Tendo ambos sido anteriormente casados, ainda prezaram mais esta união. Há sete anos, a doença de Michael piorou, deixando-o incapaz de tomar conta de si próprio e com a memória muito afectada. Apesar disso, continuava a abraçar e a beijar Linda, dizendo-lhe frequentemente, “Amo-te.” A confirmação do casamento trouxe uma breve alegria e emoção. Michael foi levado de volta para o quarto pelos seus cuidadores, enquanto Linda chorava de tristeza. A realidade pode ser cruel, as memórias vão-se apagando, mas o amor profundamente enraizado nos seus corações nunca foi eliminado pela doença. Michael esqueceu-se de tudo, mas ainda se lembra de amar Linda. Esta é a expressão mais comovedora de “És o meu coração, tenho saudades tuas.” Desde o encontro fugaz e apaixonado no aeroporto até à valorização da ternura e do companheirismo no dia a dia; desde a compreensão mútua ao longo de meio século até ao profundo afecto que permanece mesmo depois de tudo ser esquecido, o significado do Dia Branco de São Valentim há muito que transcendeu o lado comercial, tendo-se tornado uma oportunidade para repensarmos o amor. O amor não é imutável: na juventude, é imprudência e inquietação; na meia idade, é abrigo e protecção; com a passagem dos anos, torna-se tolerância e preocupação; e, face à doença, a promessa de devoção inabalável. Agora, vou pedir emprestada ao cantor de Hong Kong, Sammi Cheng, uma parte da letra na canção “Tacit Understanding” para finalizar estes momentos emocionantes: “Desde o início até ao fim, só tu e o teu insubstituível e meticuloso amor. Olhando os teus olhos em silêncio, sinto-me reconfortado. Como podemos prever o amanhã? Contigo, há compreensão e amor para a vida. Tornas tudo perfeito; Quem se pode comparar a ti? És tudo para mim.” O verdadeiro amor não vive de dias especiais, nem de doces ou bolinhos, mas do entendimento tácito das refeições partilhadas e da devoção inabalável. Consultor Jurídico da Associação para a Promoção do Jazz em Macaue a ir Professor Associado da Faculdade de Ciências de Gestão da Universidade Politécnica de Macau cbchan@mpu.edu.mo