Via do MeioPoesia de Lu Xun traduzida Sara F. Costa - 25 Mar 2026 祭書神文 jì shū shén wén 今夕除夕1兮 jīn xī chúxī xī 香煙繚繞兮燭焰紅 xiāng yān liáo rào xī zhú yàn hóng 錢神醉兮其僕忙 qián shén zuì xī qí pú máng 汝何獨兮守古書 rǔ hé dú xī shǒu gǔ shū 宴已開兮酒氣浮 yàn yǐ kāi xī jiǔ qì fú 更漏2長兮夜未央 gēng lòu cháng xī yè wèi yāng 人已去兮醉鄉遠 rén yǐ qù xī zuì xiāng yuǎn 誰為汝兮獻一觴 shuí wéi rǔ xī xiàn yī shāng 1 兮 (xī) Partícula exclamativa característica da poesia 楚辭 (Chuci). Funciona como pausa rítmica e expressão de lamento ou invocação. No português não tem equivalente direto; o seu efeito é recriado através da segmentação dos versos. 2 更漏 (gēnglòu) Relógio hidráulico utilizado na China antiga para medir as horas da noite. 我棄阿堵3兮守舊籍 wǒ qì ā dǔ xī shǒu jiù jí 高歌呼兮降我堂 gāo gē hū xī jiàng wǒ táng 繡旗導兮神車至 xiù qí dǎo xī shén chē zhì 脈望4引兮蠹魚5從 mài wàng yǐn xī dù yú cóng 寒泉獻兮冷華6香 hán quán xiàn xī lěng huā xiāng 為汝狂兮誦離騷7 wèi rǔ kuáng xī sòng lí sāo Ao deus do livro Esta noite — véspera do Ano Novo — espirais de incenso sobem, as velas ardem vermelhas. O deus do dinheiro embriaga-se, os seus servos correm atarefados. Porque permaneces tu sozinho a guardar os livros antigos? O banquete começou, o aroma do vinho espalha-se. 3 阿堵 (ā dǔ) – Expressão literária que significa “dinheiro”. Deriva de uma anedota sobre um erudito que evitava pronunciar diretamente essa palavra. 4 脈望 (mài wàng) – Criatura lendária associada aos livros. Segundo textos taoistas, uma traça que devora caracteres sagrados e se transforma em entidade espiritual. 5 蠹魚 (dùyú) – Inseto que se alimenta de papel; frequentemente usado na literatura chinesa como símbolo do mundo erudito. 6 冷華 (lěnghuā) “Flor fria”, designação poética do crisântemo, associado ao retiro literário e à pureza. 7 離騷 (Lí Sāo) – Poema clássico de 屈原 (Qu Yuan), uma das obras fundadoras da tradição poética chinesa. O relógio da água prolonga as horas, a noite ainda não terminou. As pessoas partiram já para o país da embriaguez. Quem virá oferecer-te uma taça de vinho? Eu renuncio ao dinheiro e guardo os velhos livros. Cantando alto convido-te a descer à minha casa. Com bandeiras de seda chega o carro divino. Maiwang conduz o cortejo e as traças seguem-no. Água fria das nascentes, crisântemos de inverno — por ti, em êxtase, declamo o Li Sao. Comentário Este poema inscreve-se no período inicial da produção literária de Lu Xun, quando o autor ainda experimentava formas poéticas inspiradas na tradição clássica. O modelo formal é o estilo sao, característico da poesia atribuída a Qu Yuan, cuja principal marca é o uso recorrente da partícula 兮, que imprime ao verso um ritmo irregular e uma tonalidade de invocação. A principal dificuldade de tradução reside precisamente nesse elemento. A partícula 兮 não possui equivalente funcional em português. Uma tradução literal produziria uma repetição artificial; por isso optou-se por recriar o ritmo através da fragmentação dos versos e de pausas sintáticas. Outro problema tradutório surge na densidade cultural das referências. Termos como Maiwang (脈望) as traças dos livros ou a expressão Ādū (阿堵)pertencem ao imaginário da cultura letrada chinesa. Em vez de domesticar essas imagens, a tradução preserva os termos e esclarece-os em notas, mantendo o estranhamento simbólico do original. O poema constrói ainda uma oposição central entre dois mundos: o culto da riqueza, representado pelo deus do dinheiro embriagado, e o culto da escrita, simbolizado pelo deus do livro. A voz poética escolhe deliberadamente o segundo, afirmando uma fidelidade quase ascética à tradição literária. O texto funciona como uma declaração da ética intelectual que atravessará toda a obra de Lu Xun: a convicção de que, mesmo num mundo dominado pelo dinheiro e pela embriaguez social, a literatura permanece um espaço de resistência simbólica.