Poesia de Lu Xun traduzida

祭書神文

jì shū shén wén

今夕除夕1兮

jīn xī chúxī xī

香煙繚繞兮燭焰紅

xiāng yān liáo rào xī zhú yàn hóng

錢神醉兮其僕忙

qián shén zuì xī qí pú máng

汝何獨兮守古書

rǔ hé dú xī shǒu gǔ shū

宴已開兮酒氣浮

yàn yǐ kāi xī jiǔ qì fú

更漏2長兮夜未央

gēng lòu cháng xī yè wèi yāng

人已去兮醉鄉遠

rén yǐ qù xī zuì xiāng yuǎn

誰為汝兮獻一觴

shuí wéi rǔ xī xiàn yī shāng

1 兮 (xī) Partícula exclamativa característica da poesia 楚辭 (Chuci). Funciona como pausa rítmica e expressão de lamento ou invocação. No português não tem equivalente direto; o seu efeito é recriado através da segmentação dos versos.

2 更漏 (gēnglòu) Relógio hidráulico utilizado na China antiga para medir as horas da noite.

我棄阿堵3兮守舊籍

wǒ qì ā dǔ xī shǒu jiù jí

高歌呼兮降我堂

gāo gē hū xī jiàng wǒ táng

繡旗導兮神車至

xiù qí dǎo xī shén chē zhì

脈望4引兮蠹魚5從

mài wàng yǐn xī dù yú cóng

寒泉獻兮冷華6香

hán quán xiàn xī lěng huā xiāng

為汝狂兮誦離騷7

wèi rǔ kuáng xī sòng lí sāo

Ao deus do livro

Esta noite — véspera do Ano Novo —

espirais de incenso sobem, as velas ardem vermelhas.

O deus do dinheiro embriaga-se, os seus servos correm atarefados.

Porque permaneces tu sozinho a guardar os livros antigos?

O banquete começou,

o aroma do vinho espalha-se.

3 阿堵 (ā dǔ) – Expressão literária que significa “dinheiro”. Deriva de uma anedota sobre um erudito que

evitava pronunciar diretamente essa palavra.

4 脈望 (mài wàng) – Criatura lendária associada aos livros. Segundo textos taoistas, uma traça que devora caracteres sagrados e se transforma em entidade espiritual.

5 蠹魚 (dùyú) – Inseto que se alimenta de papel; frequentemente usado na literatura chinesa como

símbolo do mundo erudito.

6 冷華 (lěnghuā) “Flor fria”, designação poética do crisântemo, associado ao retiro literário e à pureza.

7 離騷 (Lí Sāo) – Poema clássico de 屈原 (Qu Yuan), uma das obras fundadoras da tradição poética chinesa.

O relógio da água prolonga as horas, a noite ainda não terminou.

As pessoas partiram já para o país da embriaguez.

Quem virá oferecer-te uma taça de vinho?

Eu renuncio ao dinheiro e guardo os velhos livros.

Cantando alto

convido-te a descer à minha casa.

Com bandeiras de seda chega o carro divino.

Maiwang conduz o cortejo e as traças seguem-no.

Água fria das nascentes, crisântemos de inverno —

por ti, em êxtase, declamo o Li Sao.

Comentário

Este poema inscreve-se no período inicial da produção literária de Lu Xun, quando o autor ainda experimentava formas poéticas inspiradas na tradição clássica. O modelo formal é o estilo sao, característico da poesia atribuída a Qu Yuan, cuja principal marca é o uso recorrente da partícula 兮, que imprime ao verso um ritmo irregular e uma tonalidade de invocação.

A principal dificuldade de tradução reside precisamente nesse elemento. A partícula 兮 não possui equivalente funcional em português. Uma tradução literal produziria uma repetição artificial; por isso optou-se por recriar o ritmo através da fragmentação dos versos e de pausas sintáticas.

Outro problema tradutório surge na densidade cultural das referências. Termos como Maiwang (脈望) as traças dos livros ou a expressão Ādū (阿堵)pertencem ao imaginário da cultura letrada chinesa. Em vez de domesticar essas imagens, a tradução

preserva os termos e esclarece-os em notas, mantendo o estranhamento simbólico do original.

O poema constrói ainda uma oposição central entre dois mundos: o culto da riqueza, representado pelo deus do dinheiro embriagado, e o culto da escrita, simbolizado pelo deus do livro. A voz poética escolhe deliberadamente o segundo, afirmando uma fidelidade quase ascética à tradição literária.

O texto funciona como uma declaração da ética intelectual que atravessará toda a obra de Lu Xun: a convicção de que, mesmo num mundo dominado pelo dinheiro e pela embriaguez social, a literatura permanece um espaço de resistência simbólica.

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