Médio Oriente | Analista considera que China vai ser “mais assertiva”

O investigador da Universidade Lusíada Tiago André Lopes defendeu no Centro Científico e Cultural de Macau que a China vai assumir uma “postura mais assertiva” no Médio Oriente. Para cumprir objectivos no âmbito da Rota da Seda, Pequim vai lutar pela paz na região, defende o analista

 

Foi na sessão “O Médio Oriente nas Garras do Dragão – do Acordo de Pequim à Comissão Tripartida Conjunta” que o investigador e especialista em ciência política, Tiago André Lopes analisou o papel que a China tem tido no Médio Oriente nos últimos anos, ainda antes da guerra do Irão, e os objectivos que pretende para o futuro no relacionamento com os países da região.

A palestra, apresentada no âmbito das Conferências da Primavera do Centro Científico e Cultural de Macau (CCCM), serviu sobretudo para analisar a Comissão Tripartida Conjunta China-Irão-Arábia Saudita, cuja terceira sessão decorreu em Dezembro de 2025. Para Tiago André Lopes, “enquanto instrumento de diplomacia [a Comissão Tripartida Conjunta] é das coisas mais interessantes que a China fez nos últimos cinco a seis anos”, pelo “objectivo ambicioso, mas, acima de tudo, pelo desafio directo a Washington que representa”.

Uma das novidades saídas deste terceiro encontro, realizado a 9 de Dezembro de 2025 em Teerão, foi a discussão em torno do Acordo de Pequim. Segundo um comunicado oficial divulgado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, aquando da conclusão da reunião, “o Irão e a Arábia Saudita reafirmaram o seu compromisso com todas as disposições do Acordo de Pequim”, comprometendo-se “a envidar esforços para consolidar relações de boa vizinhança e amizade entre os dois países, com base no respeito pela soberania nacional, integridade territorial, independência e segurança”.

Na mesma nota, lê-se que “o Irão e a Arábia Saudita saudaram o papel positivo contínuo da China”, sendo que a China “salientou a disponibilidade para continuar a apoiar e a incentivar as medidas tomadas pelo Irão e Arábia Saudita no sentido de desenvolver as suas relações em vários domínios”.

“A actual escalada das tensões regionais representa uma ameaça tanto para a segurança regional como para a segurança global. Neste contexto, é muito importante que altos funcionários do Irão e da Arábia Saudita se envolvam em contactos, reuniões e visitas mútuas”, pode ainda ler-se.

Mudança de postura

Para Tiago André Lopes, a China vai mudar de atitude diplomática nos próximos tempos, tendo em conta os seus objectivos para o Médio Oriente. “Vamos começar a ver uma China mais assertiva, porque percebe que, se não for assertiva, corre o risco de perder coisas. E uma das coisas que a China não quer perder é o Médio Oriente. Há dias a China relembrou a todos os países do Médio Oriente que é um parceiro confiável e relembrou à Arábia Saudita e ao Irão que esta comissão existe”, destacou.

O analista, ligado à Universidade Lusíada, lembrou também a posição chinesa aquando do início do conflito EUA-Israel-Irão, no sentido em que “este seria o momento em que os países árabes poderiam recuperar uma independência plena”. Para o académico, isso significa que a China quer lançar “o desafio” ao Médio Oriente para “largar aquilo que entendemos como o braço norte-americano e propagar-se a outros parceiros”, sendo que estes “são, obviamente, Pequim e não, eventualmente, a Turquia ou outros parceiros na região”.

Trata-se “de um reflexo desta política da China de ter uma pegada muito activa no Médio Oriente, porque lhe interessa, e que a Arábia Saudita e o Irão não estejam permanentemente em conflito”. Tudo para que, “depois, os EUA e o Reino Unido sejam permanentemente mediadores de um conflito do qual eles beneficiam, mas onde a China tende a perder. E é por isso que a Comissão [Tripartida Conjunta] existe”, acrescentou.
Tiago André Lopes lembrou que actualmente existe no país um grande debate sobre a política do não intervencionismo chinês.

“Há uma grande discussão na China, que é muito interessante e que tenho tentado acompanhar o mais possível, que é a discussão que foi lançada e que é agora pública, sobre o não intervencionismo chinês”, que, segundo o analista, o país mantém desde meados dos anos 50. Outro conceito na política externa do país é o do princípio da coexistência pacífica entre países.

“A China, grosso modo, não se envolve em conflitos que não sejam directamente seus. Dá apoio logístico, ao nível de informações, mas não coloca operacionais e, teoricamente, não coloca equipamento”, disse Tiago André Lopes, que considerou o facto de haver este debate público em torno do não-intervencionismo constitui um sinal de que “vamos ter uma transformação” em termos de postura diplomática do país, no sentido de maior assertividade.

Acordo que funciona

Porque o Médio Oriente, grosso modo, é tão importante para a China? Tiago André Lopes enumerou algumas razões: “a Rota da Seda passa substancialmente pelo Médio Oriente. Portanto, as estradas, quer a rota física da rede viária, a rede marítima, quer também a rede digital, passam todas pelo Médio Oriente. E, portanto, ter o Médio Oriente em tensão bélica não interessa à China”.

Além disso há a questão energética, pois “o Médio Oriente permite à China não ser dependente excessivamente da energia vinda da Rússia”. “A China não gosta de dependências, gosta de ter múltiplos parceiros, por isso, a relação que tinha, já não tem, com a Venezuela; há a relação que tem ainda com o Irão, e a procura de outros parceiros para a questão da energia. E, por isso, é importante que o Médio Oriente seja estabilizado.”

O analista entende que a região do Médio Oriente foi alvo de algum “abandono” por parte dos EUA aquando dos acontecimentos da Primavera Árabe, em 2011. Entretanto, a China está a tentar reforçar a sua posição neste campo, para o qual a Comissão Tripartida Conjunta é importante. Pequim pretende “tomar diplomaticamente uma região que os EUA abandonaram durante a Primavera Árabe”, já que “a opção de Obama foi largar o Médio Oriente”.

“Nessa altura, quer o Irão, a Turquia e a Rússia entraram na região diplomaticamente, ganharam pé na região. A própria discussão sobre se a Rússia perdeu ou não um aliado na região com a questão da Síria é uma falsa discussão. A Síria manteve as bases que queria, e, portanto, não perdeu coisa nenhuma. Não há propriamente uma relação de paixão e amor entre Assad e Vladimir Putin. Há uma relação de interesse. O interesse da Rússia é ter bases. Portanto, não há, inapropriadamente, uma derrota de maior. Pelo menos, a assinalar nesta fase”, disse.

A questão do Iémen

Desta reunião da Comissão Tripartida Conjunta saíram também conclusões em torno da questão do Iémen, que para Tiago André Lopes “é o caso mais peculiar disto tudo” e o “efeito colateral positivo desta comissão tripartida”. Na nota difundida pelo MNE chinês, lê-se que “os três países reafirmaram o apoio a uma solução política abrangente para a questão do Iémen, em conformidade com os princípios internacionalmente reconhecidos, sob os auspícios das Nações Unidas”.

“O Iémen tinha um acordo de cessar fogo que terminou em Setembro de 2023 e que continuou a valer até os dias de hoje, sem renovação. Grosso modo, o acordo não tem sido violado”, explicou. “De facto, outros envolveram-se e empenharam-se no conflito com Israel, mas não com o resto do Iémen, pelo que a dinâmica de guerra civil que estava no Iémen [estancou]. O acordo de cessar fogo tem-se, grosso modo, mantido com pouquíssimas renovações. Têm sido raros os episódios e aí há, claramente, influência da China.”

Neste sentido, Pequim “percebeu que só vai resolver a crise política do Iémen quando a Arábia Saudita e Irão assim o entenderem e tiverem um plano político comum, o que esta comissão [Comissão Tripartida Conjunta] pretende fazer”, destacou Tiago André Lopes. Nas conclusões da terceira reunião da Comissão Tripartida Conjunta foram discutidos “os progressos alcançados na cooperação consular entre o Irão e a Arábia Saudita, que permitiram que mais de 85.000 peregrinos iranianos realizassem o Hajj [peregrinação a Meca] e que mais de 210.000 peregrinos iranianos realizassem os rituais da Umrah com facilidade e segurança em 2025”.

Houve ainda “diálogo entre instituições e indivíduos iranianos e sauditas sobre a cooperação em áreas como a investigação conjunta, a educação, os meios de comunicação social, a cultura e os grupos de reflexão”. Além disso, Irão, China e Arábia Saudita “apelaram ao fim imediato das acções de Israel que infringem a Palestina, o Líbano e a Síria, e condenaram a violação da soberania nacional e da integridade territorial do Irão”, sendo que, neste contexto, “a parte iraniana agradeceu à China e à Arábia Saudita por assumirem uma posição clara sobre os referidos actos de agressão”.

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